
Setor de TI em alta no Rio de Janeiro. Estudo revela que setor cresceu 9,28% após a pandemia.
Créditos: Assessoria.
O setor de tecnologia da informação (TI) no estado do Rio de Janeiro registrou um crescimento de 9,28% após a pandemia, segundo o primeiro Estudo de TICs do Rio de Janeiro, realizado pelo Observatório Softex, em parceria com o TI Rio.
O levantamento mostra que o estado conta hoje com 32.664 empresas do setor e que foram criadas 4.461 novas vagas de trabalho em 2024, impulsionadas principalmente pela indústria de software e pelos serviços de TI.
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O g1 teve acesso ao estudo lançado oficialmente nesta terça-feira (21). O relatório faz um mapeamento inédito sobre a cadeia de tecnologia fluminense e oferece um diagnóstico detalhado sobre os desafios, as oportunidades e as recomendações estratégicas para o desenvolvimento do setor no estado.
Paulo Braga, diretor do TI Rio, analisou os motivos para o crescimento do setor no Rio de Janeiro após a pandemia.
“O próprio estudo atribui a retomada à demanda urgente por soluções digitais durante a pandemia de COVID-19, que puxou grandes investimentos e novos projetos para atender necessidades emergenciais”, comentou Paulo.
A pesquisa foi dividida em quatro eixos — cenário setorial, mercado de trabalho, ambiente de inovação e políticas públicas — e integra dados do IBGE, Novo Caged, Rais e do Censo da Educação Superior, além de duas pesquisas específicas conduzidas pela Softex com empresas da área.
O objetivo, segundo os responsáveis, é apoiar a formulação de políticas públicas e a criação de um ambiente mais competitivo e sustentável para o ecossistema de tecnologia fluminense.
Os principais números do setor de tecnologia no RJ:
📈 Crescimento de 9,28% nos investimentos em serviços de TI após a pandemia
🏢 32.664 empresas de tecnologia ativas no estado
💼 4.461 novas vagas de trabalho criadas em 2024
💰 R$ 65 milhões em investimentos no setor
🏙️ 77% das empresas concentradas na capital
🧑💻 114 mil pessoas empregadas formalmente no setor
🚀 657% de aumento no número de startups entre 2000 e 2025
🎓 146 cursos presenciais e 27.346 vagas na área de tecnologia
🌐 EaD cresceu 15 vezes em 10 anos na área de TI
🧠 Rio é o 2º maior mercado de tecnologia do país, atrás apenas de São Paulo
De acordo com o estudo, o Rio de Janeiro é o segundo maior mercado de tecnologia do país, atrás apenas de São Paulo, e responde por 14,62% de todos os investimentos nacionais no setor de serviços de TI.
A região concentra 7,57% dos empregos formais do país na área e se destaca por um ecossistema em expansão, mas ainda com forte centralização na capital, que reúne 77% das empresas do estado.
Startups crescem 657% em 25 anos
O levantamento mostra que o número de startups fluminenses aumentou 657% entre 2000 e 2025, com 65% delas concentradas na cidade do Rio de Janeiro. No total, foram abertas 951 startups em 52 municípios do Rio de Janeiro no período. As áreas de maior destaque são tecnologia da informação, educação e saúde e bem-estar.
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Apesar do crescimento expressivo, o estado perdeu posições no ranking global de inovação. A capital fluminense aparece agora na 147ª posição no Global Startup Ecosystem Index 2025, caindo em relação a anos anteriores. Em 2020, o Rio ocupava a 93ª posição.
“O Rio de Janeiro tem projetos ambiciosos, mas ainda carece de um foco global em tecnologia. As iniciativas são localizadas e não se complementam, o que enfraquece o potencial de investimento. Enfrentamos um problema sério de capacitação e treinamento de profissionais”, analisou Paulo Braga.
“Além disso, há um grande déficit de infraestrutura, com fornecimento de energia e internet instáveis, o que compromete o desenvolvimento tecnológico. Temos diversos hubs muito especializados, mas ‘desconectados’ entre si. O Rio tem um problema de governança na condução da inovação. As oportunidades surgem, mas não são alinhadas para alcançar uma dimensão global”, completou.
O relatório aponta que o ecossistema de startups do Rio tem se especializado em modelos SaaS (Software como Serviço) e vem incorporando tecnologias como inteligência artificial e machine learning, mas ainda enfrenta desafios para atrair investimentos de risco e fortalecer conexões entre os polos de inovação.
O documento destaca ainda a interiorização do setor, com 91% dos municípios abrigando empresas de tecnologia. Entre os polos mais promissores estão Petrópolis, reconhecida por lei como Capital Tecnológica do Estado, e os parques tecnológicos de Maricá, Angra dos Reis, Campos dos Goytacazes e o Serratec, na Região Serrana.
De acordo com o levantamento, o ecossistema do Rio de Janeiro se destaca na América Latina por estar em segundo lugar em talento e experiência e entre os dez primeiros em acesso a financiamento.
Número de cursos cresce 15 vezes
O estudo mostra que a formação de profissionais em tecnologia no Rio de Janeiro avançou de forma acelerada na última década, impulsionada especialmente pela modalidade educação a distância (EaD).
Entre 2013 e 2023, o número de cursos EaD na área de TI aumentou 15 vezes, passando de 85 para 1.276 cursos em todo o país — tendência também observada no estado.
Essa ascensão do EaD tem um papel crucial na inclusão, pois a modalidade atrai uma maior diversidade de perfis, incluindo mais mulheres, pessoas pretas e pardas, e faixas etárias mais amplas, que buscam requalificação. Enquanto a participação feminina nas matrículas presenciais é de apenas 4,6%, na modalidade EaD essa taxa é de 12,6%. Da mesma forma, pessoas pretas e pardas somam aproximadamente 25,1% dos estudantes EaD.
No Rio, existem atualmente 146 cursos presenciais ligados à indústria de software e serviços de tecnologia da informação e comunicação (ISSTIC), com 27.346 vagas oferecidas em 2023. Além disso, o crescimento no número de formados tem superado a média nacional nos últimos anos (35,6% em 2023 contra 30,1% no Brasil).
A capital concentra 65,1% dos cursos e 71% das vagas — proporção que reflete a desigualdade na distribuição da formação tecnológica entre as regiões do estado.
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As universidades desempenham um papel estratégico. No Rio de Janeiro, o perfil da formação presencial é dominado pelos cursos de Bacharelado (58,7% das ofertas), enquanto o EaD prioriza o grau Tecnólogo.
Entre os Bacharelados, os cursos com maior oferta de vagas foram Sistema de Informação (32 cursos, com 6.059 vagas) e Ciência da Computação (24 cursos, com 4.571 vagas). No grau Tecnológico, os destaques em vagas foram Análise e Desenvolvimento de Sistemas (24 cursos, com 5.308 vagas) e Gestão da Tecnologia da Informação (7 cursos, com 2.290 vagas).
Entre as universidades de destaque, UFRJ e PUC-Rio aparecem com reconhecimento internacional na área de ciência da computação, segundo o ranking QS World University 2025. Ambas figuram entre as melhores do mundo em reputação acadêmica e empregabilidade.
Desafios para o futuro
Apesar de ocupar o 2º lugar no Índice FIEC de Inovação dos Estados e o 4º no Índice Brasil de Inovação e Desenvolvimento (IBID), o Rio ainda enfrenta desafios estruturais para consolidar uma política estadual de tecnologia da informação e comunicação.
“Ainda enfrentamos os mesmos problemas de sempre: falta infraestrutura estável, veloz e capaz de sustentar a demanda constante e o déficit importante de capacitação e treinamento profissional”, disse Paulo Braga.
“O desenvolvimento exige governança integrada e continuidade e isso ainda não acontece no Rio. Despontamos em algumas áreas e temos poucas empresas atuando em outras, o que trava o avanço da TI. Por isso, o mapeamento é fundamental, para identificar onde estão os problemas e planejar soluções de curto, médio e longo prazos, garantindo resultados mais consistentes ao longo do tempo”, avaliou.
O estudo apontou cinco frentes prioritárias para o avanço do setor:
Ampliar e descentralizar a formação em tecnologia – 65% dos cursos estão concentrados na capital. O estudo recomenda parcerias entre instituições públicas e privadas para criar polos de capacitação em regiões como a Serra, o Norte e o Centro-Sul Fluminense.
Dinamizar o mercado de trabalho – apesar da geração de empregos, há disparidades regionais e dificuldades de inclusão de profissionais acima dos 40 anos.
Aumentar a diversidade – o setor emprega cerca de 114 mil pessoas no estado, mas ainda tem baixa presença feminina e negra.
Fortalecer os ecossistemas de inovação – o Rio tem infraestrutura e talentos, mas ainda opera de forma fragmentada. O relatório recomenda integrar universidades, startups e empresas em programas de inovação aberta.
Melhorar a infraestrutura digital – o maior gargalo do setor, segundo o levantamento, é a falta de conectividade de alta velocidade fora da Região Metropolitana e a carência de ambientes tecnológicos robustos para o uso de IA, big data e internet das coisas.
Segundo o estudo, o Rio reúne condições objetivas para liderar a transformação digital do país, mas precisa de políticas públicas consistentes, inclusão produtiva e investimento em infraestrutura tecnológica para sustentar o crescimento registrado nos últimos anos.
A infraestrutura de TI é o principal desafio citado por 57,1% das empresas ISSTIC do Rio de Janeiro. A recomendação dos pesquisadores é fortalecer a infraestrutura sistêmica, expandindo a conectividade de alta velocidade para além das regiões metropolitanas e apoiando iniciativas estratégicas, como o Rio IA City, que visa consolidar o estado em infraestrutura digital segura e de alto desempenho.
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Divulgação/AWS
Outro ponto de alerta é sobre a inclusão e a diversidade no setor. As mulheres representam apenas 18,8% dos profissionais, o que destoa da população economicamente ativa fluminense, que tem mais mulheres do que homens.
O estudo também recomenda a adoção de ações afirmativas e o fortalecimento de políticas que favoreçam a entrada e progressão de mulheres e pessoas negras em posições qualificadas, articulando a inclusão social com estratégias de desenvolvimento regional.
