O alemão que descobriu ser neto do arquiteto do Holocausto

Himmler com Hitler, durante uma manobra militarMarcio Damasceno

O alemão Henrik Lenkeit diz que levou ao descobrir que era neto do líder nazista Heinrich Himmler, o segundo homem mais poderoso do Terceiro Reich depois de Adolf Hitler, e um dos principais arquitetos do Holocausto.

Era uma tarde de agosto de 2024 quando Lenkeit, um coach de relacionamentos e pastor evangélico, resolveu assistir no seu computador um documentário sobre Heinrich Himmler.

Ele relatou que resolveu saber mais sobre o tema no verbete de Himmler na enciclopédia online Wikipédia. Foi quando se deparou no artigo com um retrato de uma jovem Hedwig Potthast, que fora secretária pessoal e amante de Himmler, e com quem teve dois filhos.

Ela tinha as mesmas feições e o nome de sua avó. Além disso, os dois filhos que Hedwig teve com Himmler se chamavam assim como seu tio de lado materno, Helge, e sua mãe, Nanette Dorothea. Nesse momento, não restava mais dúvidas.

“Totalmente chocado”

“Eu fiquei totalmente chocado”, conta Lenkeit à revista alemã Der Spiegel. Em julho passado, ele procurou a publicação por e-mail para contar sobre sua história, cuja veracidade o periódico afirma ter confirmado através de documentos, fotografias e consultas com historiadores.

Mas a publicação admite ser difícil comprovar se o coach de relacionamento só ficou mesmo sabendo do parentesco com Himmler havia cerca de um ano, como afirma, já que os outros descendentes do líder nazista não querem falar sobre o caso e recusaram as tentativas contato feitas pela revista. Os pais e o tio de Lenkeit já morreram.

O historiador militar Jens Westemeier, que estudou extensivamente a história dos membros da SS – organização paramilitar nazista chefiada por Himmler –, considera plausível que Lenkeit não soubesse mesmo de nada.

“Esse é um comportamento típico em famílias assim”, afirma à Der Spiegel.

Lenkeit, que mora desde 2018 no sul da Espanha com sua mulher, mexicana, e três filhos, lembra que, diante do computador, precisou de alguns momentos para se recobrar do choque. E, apesar das evidências, não conseguia acreditar no que tinha visto na internet. Diz que foi até a esposa e perguntou: “Então eu sou mesmo o neto desse cara?”. Ao que ela respondeu: “Bom, parece que sim”.

Ele conta que por um tempo tentou se convencer de que aquilo não era verdade, tinha esperança de que se tratava de um erro. Até que contatou a cientista política Katrin Himmler, sobrinha-neta de Heinrich Himmler, que havia pesquisado a história da família. Ela ajudou Lenkeit a conseguir a certidão de nascimento de sua mãe. O documento registra o então ministro de Hitler como pai.

“De repente, era descendente de um monstro”

“Minha avó se casou com um homem depois da guerra, adotou o sobrenome dele, e por 47 anos eu o considerei meu avô biológico. Agora eu levava um soco no estômago: meu verdadeiro avô era Heinrich Himmler”, desabafou Henrik Lenkeit em entrevista ao jornal austríaco Tagesanzeiger.

“De repente, me deparei com o fato de ser descendente de um homem que carregava na consciência a morte de milhões. Um monstro. Além disso, meus pais, que já haviam falecido, mentiram para mim sobre as origens da nossa família durante toda a vida. Meu pai sempre me dizia: ‘Você precisa ser íntegro, direto, honesto'”, recorda-se Lenkeit. “Eu cresci cercado por mentiras.”

Ele contou ao periódico que resolveu vir a público um ano depois porque “o processo de aceitação” levou tempo. E porque, nesse ínterim ele escreveu um livro para o qual busca uma editora.

“Aceitar o fato de que Heinrich Himmler era meu avô é comparável a um processo de luto. Choque, não querer aceitar como verdade, depressão. Minha fé cristã me ajudou a superar isso”, diz o pastor evangélico. “À medida que escrevia, capítulo por capítulo, me tornava cada vez mais consciente do erro que havia sido reprimir tudo isso”, ressalta.

Lenkeit diz que deseja voltar à Alemanha para falar sobre sua história e a de sua família, dar palestras, falar em comunidades religiosas e escolas, além de organizar conferências. Ele afirmou ao semanário Der Spiegel querer fazer de sua própria história uma missão de vida, para ajudar os alemães a aceitar o legado nazista em suas famílias e conseguir repelir as forças de extrema direita no país.

“A ideologia nazista nunca foi erradicada. Isso me incomoda profundamente”, afirma. Para ele, essa é uma das razões pelas quais o partido de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD) se tornou o segundo maior partido do parlamento alemão.

Autor: Marcio Damasceno

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