Venezuela: instabilidade provoca incertezas em imigrantes

Fronteira entre Brasil e VenezuelaJoão Vitor Rodrigues/Portal iG

Aproximadamente 11,5 mil brasileiros vivem na Venezuela, segundo o relatório mais recente do Ministério das Relações Exteriores. Em comparação com Paraguai (263 mil) e Argentina (101 mil), por exemplo, o volume de brasileiros é baixo.

O fluxo de pessoas que entram no país a partir do Brasil, para trabalho ou moradia, nas primeiras horas após o ataque, com o fechamento da fronteira de Brasil e Venezuela, entre a cidade venezuelana de Santa Elena de Uairén e Pacaraima (RR). O fluxo foi restabelecido, sob clima de tensão e vigilância reforçada pelo Exército Brasileiro.

O que pode de fato ter uma mudança mais definitiva é no âmbito humanitário. As organizações civis preveem os impactos de uma possível alteração no perfil do fluxo migratório.

A migração até então era motivada por fatores econômicos, e pode se transformar num deslocamento forçado por conflito armado.

Imigrantes são atendidos pelo Serviço Pastoral dos MigrantesJoão Vitor Rodrigues/Portal iG

Possível nova onda migratória

Para entender os reflexos dessa crise na fronteira norte do Brasil, o Portal iG ouviu Roberto Saraiva, coordenador do Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM), entidade que atua na defesa dos direitos humanos e acolhimento de migrantes no país.

Segundo Saraiva, o cenário ainda é de surpresa diante da “ação beligerante”.

Para o coordenador, a ofensiva parece ter um objetivo político claro de destituição do governo de Maduro. Embora a pastoral ainda não tenha registrado a chegada imediata de “feridos de guerra”, a expectativa é que o volume de migrantes volte a crescer caso os ataques continuem.

“Há ainda uma perplexidade. Todo o mundo está se posicionando com cautela. Não queremos acreditar em feridos da guerra na migração imediata. Se as ações de ataque se intensificarem, aí sim. Entretanto, muitos podem voltar a migrar de forma volumosa”, analisa Saraiva.

Risco de trabalho escravo e o recuo da Operação Acolhida

Um dos pontos mais críticos levantados pela Pastoral é a vulnerabilidade de quem chega ao Brasil. Questionado pela reportagem se o novo fluxo poderia ser alvo fácil para redes de trabalho análogo à escravidão, Saraiva é contundente: “Com certeza”.

Alojamento para migrantes na fronteiraJoão Vitor Rodrigues/Portal iG

Além da exploração do trabalho, há ainda o receio de que o acirramento do conflito inflame os ânimos do lado brasileiro, aumentando o risco de atos de xenofobia. O coordenador alerta que a rejeição aos venezuelanos já é alta, independentemente do conflito, mas a dificuldade de integração de uma nova leva de refugiados pode piorar o cenário.

“A Operação Acolhida no Brasil encolheu. E se a dinâmica piorar, vai ser complicado retomar as respostas dadas de forma imediata”, alerta Saraiva, apontando para um possível gargalo na capacidade de resposta do Estado.

O papel da sociedade civil

Diante da instabilidade do cenário atual, a sociedade civil e as organizações religiosas acabam preenchendo os espaços muitas vezes deixados pelo poder público.

“O SPM se notabilizou, em conjunto com outras instituições, em ir a lugares que não só o Exército não vai, como as agências humanitárias também não vão”, afirma Saraiva.

Ele reforça que, embora a legislação migratória brasileira seja uma das mais avançadas da América Latina, falta “vontade política” para sua consolidação.

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