
Por: Nira Broner Worcman**
A batalha decisiva de Israel hoje não se desenrola nas ruas de Gaza, mas no campo da imaginação global.
O Hamas sofreu derrotas militares relevantes, mas avançou em outra frente: a da narrativa, hoje decisiva para moldar percepções internacionais e alimentar uma nova onda de antissemitismo no mundo.
Do ponto de vista militar, não há grande mistério sobre o desfecho do conflito. Israel vencerá esta guerra, como venceu todas as anteriores. A assimetria é clara: um exército profissional enfrentando terroristas que operam deliberadamente a partir de hospitais, escolas e áreas residenciais, convertendo as mortes de civis em vantagem política e simbólica.
Mas a disputa mais complexa não terminará com o cessar-fogo. Ela não se resolve com bombardeios de precisão nem com negociações diplomáticas. Trata-se de uma guerra de ideias, silenciosa e emocional, travada nos meios de comunicação, nas universidades, em instituições culturais e arenas políticas — e que os judeus em todo o mundo continuarão a enfrentar.
Há décadas, o Hamas compreendeu algo essencial sobre os conflitos contemporâneos: guerras já não são decididas apenas pela força militar, mas pela percepção global. E agiu de acordo. Investiu sistematicamente em moldar a cobertura a partir de Gaza, dirigindo a Al Jazeera, condicionando reportagens, e encenando imagens para servir aos seus objetivos políticos.
Enquanto isso, Israel concentrou esforços na destruição de túneis e em operações urbanas desenhadas para reduzir vítimas civis — medidas reconhecidas por especialistas militares, mas raramente refletidas na cobertura dominante. O Hamas seguiu outra estratégia: inserir no debate global a acusação moral mais grave disponível — a de que Israel estaria cometendo genocídio. Trata-se de uma narrativa poderosa, emocionalmente eficaz, embora careça de base jurídica ou histórica consistente. Ainda assim, tem se mostrado notavelmente eficiente.
À medida que a capacidade militar do Hamas se deteriora, Israel enfrenta uma opinião pública internacional inundada por imagens e vídeos enviesados, além de analogias históricas perturbadoras. Israel passa a ser visto como opressor, o Hamas como uma resistência romantizada. A distinção entre agressor e vítima se dilui — muitas vezes se invertendo por completo.
As consequências são reais. Em diversos países, universidades registram aumento de intimidações contra estudantes judeus. Sinagogas e centros comunitários reforçam sua segurança diante de ameaças e atos de vandalismo. O recente ataque em Bondi Beach, na Austrália, ilustra essa realidade com clareza perturbadora. Longe de qualquer campo de batalha, a violência explodiu em um espaço público, lembrando que os alvos do terrorismo contemporâneo não são governos ou instalações militares, mas civis escolhidos simplesmente por serem judeus.
O ressurgimento do antissemitismo não é um efeito colateral dessa guerra de narrativas; é parte de seu objetivo. Ao acusar Israel de genocídio, o Hamas não atinge apenas um Estado. Aciona mitos seculares que retratam judeus como malévolos e poderosos.
A guerra militar terminará. A narrativa, não. E, se Israel falhar em enfrentar essa frente, os efeitos se farão sentir muito além do Oriente Médio — atingindo comunidades judaicas, normas democráticas e a própria forma como o mundo interpreta a verdade.
Reconstruir a imagem de Israel — e defender a verdade histórica — não será resultado de ações de marketing, relações públicas, ou comunicados diplomáticos. Exige engajamento permanente no espaço público, informado e corajoso, incluindo a disposição de explicar o que deveria ser evidente e de contestar afirmações que não resistem ao escrutínio.
O que está em jogo não é apenas a reputação de Israel, mas a integridade da maneira como compreendemos violência, responsabilidade e história. Um mundo incapaz de distinguir entre uma democracia que defende seus cidadãos e uma organização terrorista que se esconde atrás de sua própria população civil é um mundo que perdeu sua bússola moral.
Este momento exige clareza — aquela que resiste a slogans fáceis e demanda honestidade intelectual. A tarefa não é apenas reagir, mas afirmar a verdade com mais persistência do que a falsidade ao se espalhar. Caso Israel e seus defensores falhem neste desafio, o vazio será ocupado por aqueles que distorcem a realidade. Isso já é visível em salas de aula onde estudantes judeus silenciam, em ruas onde o vandalismo resurge com inquietante familiaridade e em instituições que moldam a próxima geração de formadores de opinião.
A imaginação do mundo tornou-se a nova linha de frente. E, nesse campo de batalha, o silêncio não é neutralidade — é rendição. A narrativa que prevalecer hoje definirá como futuras gerações compreenderão não apenas Israel e o povo judeu, mas também os princípios de justiça e as responsabilidades de qualquer nação livre sob ameaça.
Esta não é apenas a batalha de Israel. É um teste para todas as democracias — um confronto que não podemos nos dar ao luxo de perder.
**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal iG
