
Eu entendo perfeitamente quem ficou com ranço do Wagner Moura. Não por ele ganhar prêmio. Isso é ótimo.
Um brasileiro vencendo lá fora devia ser aquele momento raro em que a gente simplesmente pensa: boa, Brasil!
Mas aí o cara sobe pra receber e resolve dar uma aula. Perdeu quem já tava torcendo o nariz.
E não é que eu discorde do conteúdo. É sempre bom lembrar da ditadura. O ponto é o contexto.
Naquele segundo, ele não é só o Wagner Moura. Ele vira um símbolo do país. E o país entra em modo torcida, não em modo debate.
Você sabe que se você politizar aquilo, vai abrir um portal pro brasileiro fazer o que ele mais ama: torcer contra o próprio mérito, inclusive a bolha que mais grita “meritocracia”.
Poxa caramba! O filme já fala de ditadura. A obra já é a tese. Não precisa fazer o discurso virar rodapé.
É como lançar um livro defendendo uma ideia e, na noite de lançamento, começar a escrever outro livro no palco enquanto todo mundo só queria brindar e fazer selfie.
Agora vem a parte realmente engraçada.
Porque essa mesma direita que critica a politização do prêmio fica numa tranquilidade budista quando o Trump “ganha” um Nobel.
A mesma turma que surtou com o discurso do Wagner entra em paz interior quando o ídolo dela sobe no palco.
O cara anunciou lá atrás que achava que merecia. Tempos depois… PÁ! Ele deu um jeito de ganhar um.
Ele nem ganhou. Ele recebeu a medalha de uma pessoa que realmente ganhou, e a própria Fundação Nobel precisou explicar o básico, oficialmente: o prêmio é intransferível. A medalha pode até trocar de dono, mas o Nobel continua sendo de quem ganhou.
Exatamente como se fazia na escola na hora de fazer resumo de livro. Pagava pra alguém e pagava de autor pra professora. Só que a professora era safa e sabia se era autoral ou não.
Ou seja: aqui, o pecado é discursar. Mas quando é gringo, a gente não liga nem dele posar com a medalha que nem é dele.
Portanto, não é sobre mérito nem sobre política. É sobre torcida, sempre!
E este ano é ainda mais perigoso, porque é aquele combo apocalíptico que o brasileiro adora: eleição pra presidente e Copa do Mundo.
A gente já confunde tudo num ano normal. Num ano desses, a chance de misturar patriotismo com histeria vai a níveis científicos.
O brasileiro não quer coerência. Quer vitória. E se der pra ganhar no grito, melhor ainda.
