
A jornalista norte-americana Laura Jedeed denunciou falhas graves no processo de contratação do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos) após ter sido convocada para integrar a corporação mesmo sem concluir as etapas básicas do recrutamento.
Segundo Laura, além de não ter finalizado fases obrigatórias, como simplesmente confirmar a continuidade do processo com um “ok”, uma busca elementar no Google pelo seu nome seria suficiente para identificá-la como crítica aberta do ICE, das políticas migratórias dos Estados Unidos e do próprio presidente Donald Trump.
Para a jornalista, o episódio revela que o ICE conduz um processo de recrutamento “extremamente falho” e levanta a suspeita de que o único requisito real para ingressar na agência seja, aparentemente, o desejo de trabalhar nela.
Como foi o processo de contratação
Em sua coluna, Laura afirma que sua intenção nunca foi se infiltrar na corporação, mas compreender, a partir de dentro, como funcionava o processo de recrutamento do ICE.
Ao se candidatar, ela relata ter incluído em seu currículo apenas sua experiência no Exército dos Estados Unidos, onde teria se alistado logo após terminar o Ensino Médio e participado de missões no Afeganistão. Sua atuação como jornalista foi omitida.
A entrevista inicial, segundo Laura, durou menos de seis minutos. A recrutadora limitou-se a perguntar seu nome, data de nascimento e detalhes gerais sobre sua experiência militar. Nenhuma questão adicional, checagem aprofundada ou investigação sobre seu histórico profissional foi realizada.
Algum tempo depois, ao verificar sua caixa de e-mails, Laura percebeu que havia perdido o prazo para envio de um formulário essencial. O documento solicitava informações da carteira de habilitação, uma declaração juramentada de que nunca havia sido condenada por violência doméstica e a autorização para a realização de uma verificação de antecedentes.
Ainda assim, mesmo sem ter enviado qualquer um desses documentos, Laura recebeu uma proposta formal de emprego e a confirmação de que havia sido aceita pela agência.

A situação tornou-se ainda mais contraditória quando, em 3 de outubro, a plataforma de empregos do ICE indicou que Laura havia sido aprovada em um teste de aptidão física supostamente realizado no dia 6 de outubro — “ou seja, três dias no futuro”.
ICE: expansão acelerada e falhas estruturais
No início de 2024, quando Donald Trump assumiu a presidência dos Estados Unidos, o ICE contava com cerca de 10 mil agentes. Um ano depois, esse número teria saltado para aproximadamente 22 mil.
Para Laura, o crescimento acelerado da corporação, aliado à sua experiência pessoal, evidencia um processo de recrutamento tão desorganizado que nem o próprio governo teria clareza sobre quem, de fato, compõem as fileiras da agência.
Diante disso, a jornalista levanta uma série de questionamentos inquietantes:
“Se eles não perceberam que eu era uma jornalista anti-ICE que sequer preencheu a papelada necessária, o que mais estão ignorando? Quantos agressores domésticos condenados estão recebendo armas e sendo enviados para dentro das casas de outras pessoas? Quantas pessoas com ligações a organizações supremacistas brancas estão atacando minorias indiscriminadamente, independentemente do status migratório? Quantos estupradores e pedófilos estão trabalhando em centros de detenção do ICE, com acesso direto e sem supervisão a uma população que não será ouvida nem fará falta? Como confiar nas supostas investigações minuciosas do ICE sobre aqueles que detêm e deportam, se a agência sequer consegue manter sua documentação de recursos humanos em ordem?”
Caso Renee Nicole Good
A denúncia de Laura Jedeed surge em um momento em que o ICE está no centro de controvérsias. Recentemente, a corporação ganhou destaque internacional após o assassinato de Renee Nicole Good, mulher norte-americana que foi baleada por um agente da polícia de imigração durante uma operação nos EUA.
O caso, registrado em vídeo, reacendeu críticas sobre o uso excessivo da força, a falta de transparência e os critérios de atuação da agência.
