Filme norueguês é pedra no caminho de “O Agente Secreto” no Oscar

Cena do filme Valor SentimentalDivulgação

Todo motorista é um pouco psicólogo, ela me disse nos 15 minutos do trajeto até minha casa.

Mas todo passageiro, concluímos logo depois, é também um pouco ombro amigo, dependendo da rota em que a conversa envereda.

A nossa tomou rumo na frente de um bar vizinho. Não devia ser mais de nove da manhã e alguém com aparentes 70 anos já abria a primeira garrafa. Não era nem fim de semana.

Fiz piada sobre aquele vidão e recebi uma invertida. Aquilo não tinha graça.

Não fazia muito tempo que a motorista do Uber tinha tentado se reconectar com o pai, em vão. Os amigos julgavam e questionavam o que ele fez para merecer o desprezo das filhas e da ex-mulher. Um sujeito alegre, piadista, amigo, diziam os parceiros de bar.

“Essa é a versão que vocês conhecem”, ela costumava responder. “Em casa ele era o demônio”.

Enquanto deslizava o automóvel por uma rua íngreme, ela relatava a tensão em casa quando o pai chegava alterado do trabalho (era trabalhador, sim. E a bebida para ele sempre foi uma compensação, ela explicava).

O ciclo era torturante. Começava com uma alegria fora de hora. E vinham as pequenas implicâncias. As provocações. Uma libido acintosa e unilateral. Censuras. Gritos. Brigas. Objetos voadores pela casa.

A sensação era a de ter passado a infância em ambientes adultos em que os responsáveis por trazer alguma segurança e confiança para as crianças se destruíam ou caíam largados nas festas até altas horas. Alguém reclamava que tinha sono e queria dormir. Mais gritos. Mais brigas.

Ela me perguntava se eu sabia o que era crescer num ambiente assim. Não respondi.

Um dia ele foi embora e a casa ao menos ficou em paz. Quem diz isso não é mais a motorista, que chorava litros, pedia desculpas e, se possível, as cinco estrelinhas.

É Nora Borg, personagem interpretada por Renate Reinsve em “Valor Sentimental”, após descrever uma cena parecida, dolorosa, universal, do outro lado do Atlântico – a Noruega onde se passa o drama de Joachim Trier.

O ciclo descrito ali é conhecido nas melhores famílias. Cansado de brigas, o pai vai embora e deixa com a mãe a missão de conduzir uma ideia roída de lar. A mãe precisa trabalhar. E cabe a Nora a função de amadurecer antes da hora e cuidar da irmã mais nova, Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas).

Um dos mais fortes concorrentes pela estatueta de melhor filme estrangeiro, “Valor Sentimental” pode ser resumido de muitas maneiras, sem que uma sinopse se contraponha a outra. É um filme sobre ancestralidade, e sobre como sofrimentos e as decisões tomadas por antepassados afetam e mobilizam afetos em todos os que vieram depois. É também sobre lar. E sobre o pacto firmado entre duas irmãs para atravessar o mundo da infantilidade adulta, que provoca tsunamis emocionais mesmo num ambiente que, visto por fora, parece claro, limpo, seguro e organizado.

E é também sobre liberdade, que o pai, Gustav (Stellan Skarsgård), se gaba de ter manejado com destreza ao longo de toda a vida. Inclusive ao decidir ir embora.

Aquela ideia de liberdade, um mito fundador da cultura ocidental, é destroçada em pouco mais de duas horas de filme.

Liberdade pressupõe uma noção de indivíduo e individualidade que nunca parou em pé e mesmo assim norteia todo o organismo social.

 O homem é um ser social, alertava o velho Aristóteles. E para viver em sociedade a gente deixa um pouco os desejos e impulsos de lado em troca da sobrevivência. Sem um conjunto claro de regras, que Freud um dia chamou de cultura (ou civilização), o mundo não seria mais livre, e sim mais violento. São as leis explícitas e implícitas, afinal, que impedem alguém de  acordar num belo dia e roubar a mulher do próximo e, se fosse o caso, matar o próximo sem nenhuma outra mediação, legal ou moral).

O ajuste das pulsões provoca sofrimentos distintos em épocas distintas. A deste século é a depressão.

“Sim. É preciso ser livre. É preciso ter filhos também?”, questiona uma das filhas quando o pai retorna tentando restabelecer um vínculo quebrado no momento em que deixou a casa, no auge da força física, para viver a louca vida e brilhar como cineasta.

A vida seguiu, argumenta Gustav, que não reconhece (pois desconhece) as perfurações internas nas pessoas que, jura ele, mais ama. E na vida é importante se virar sozinho. Então tá.

De longe, as meninas que amadureceram antes da hora e aprenderam a se virar sozinhas parecem autônomas, bem sucedidas, e encaminhadas nas profissões. Na prática, tropeçam na própria insegurança, enfrentam crises de pânico recorrente e confundem qualquer migalha de atenção com afeto. Não é fácil ser durão/durona o tempo todo. E os tubarões emocionais percebem isso.

E é com dureza, não com sorriso, que a tentativa de contato do pai é bloqueada. A certa altura da vida, o abandono muda de posição. E é ele quem se sente rejeitado. E as técnicas do ser abusivo, que morde, grita e depois assopra, já não funcionam como antes.

“Você não atendia meus telefonemas”, ele argumenta em outra cena.

“Você só me ligava quando estava bêbado”, responde Nora.

Gustav demora a perceber que passou uma vida correndo atrás do próprio rabo sem encontrar o pote de ouro prometido a todo artista de espírito livre. Não porque falhou, e sim porque ninguém é exatamente livre, nem na criação artística, que para existir depende de financiamento, de aprovação, de enquadramentos determinados pelos produtores, e de endosso de público e crítica. Ninguém é livre das interdições do corpo quando ele envelhece ou adoece. Ninguém é livre dos remorsos e dos sistemas de recompensa para lidar com a finitude. Nem das sombras do passado nem dos traumas do futuro. 

Em resumo: Ninguém é livre de nada, nem aqui nem na Noruega.

Ainda assim, cabe muito naquele balaio de afetos em que o desprezo e a culpa das relações familiares fraturadas se sobressaem por serem os itens mais evidentes. E Trier não está ali para julgar ninguém. Gustav, com sua coletânea de erros e acertos, é uma das figuras mais carismáticas do cinema recente, o que torna o filme sem vilões um concorrente e tanto para o protagonista cercado de homens sórdidos de “O Agente Secreto”.

*Este texto não reflete necessariamente a opinião do Portal iG

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