
Por Felipe Zangari*
O noticiário do último final de semana teve entre os destaques nacionais a caminhada de mais de 240 km do deputado federal Nikolas Ferreira (PL) de distância entre o interior de Minas Gerais e Brasília. O ato reuniu uma pequena grande multidão e acabou de modo abrupto e quase trágico, com um raio que atingiu o grupo e deixou ao menos 70 pessoas feridas.
Como vivemos num país livre e democrático (apesar de haver vozes que digam o contrário), não há nada a se questionar em termos da legitimidade do ato. Assim garante a Constituição. O que salta aos olhos é a nova tonalidade adotada pelo jovem deputado que desponta como nova liderança nacional.
A polarização política foi deslocada para o campo da devoção simbólica. Não foi uma marcha “a favor” de alguém ou “contra” um grupo ou pessoas.
Apesar de compreendermos que o pano de fundo trazia pautas como a anistia aos condenados pelo 8 de janeiro e o pedido de liberdade a Jair Bolsonaro, o mote usado, no fim das contas, era um pouco mais amplo: “Acorda, Brasil”.
“Desperta, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos (….). Vede prudentemente como andais, não como néscios, mas como sábios, remindo o tempo, pois os dias são maus”. Assim diz Paulo aos efésios (capítulo 5, 14-16), recordando a comunidade para voltar o olhar ao que realmente importa (Cristo) e, no chamado à conversão dos costumes, fazer resplandecer a verdadeira luz.
Foi esse o recurso simbólico da fé usado pelo deputado Nikolas para mobilizar uma considerável multidão de políticos locais, pastores e apoiadores de diversas partes do Brasil? Tudo leva a crer que sim.
O olhar pragmático da política vai por outra direção.
E o poder em Brasília sacou que se trata de uma apresentação de credenciais para as eleições de 2026.
Com o ato, Nikolas garantiu para si centenas de imagens e recortes de vídeos que vão ressoar no período eleitoral e turbinar sua recondução à Câmara, dada como certa.
Não precisou propor nada ou se comprometer com nenhuma ação estruturante que melhore a vida das pessoas. Ele se cacifou a partir do signo da fé. E essa é a sacada.
O poder sentiu o movimento e buscou aproximação. Valdemar Costa Nesto e Michele Bolsonaro se viram constrangidos a marcar presença e avalizar a iniciativa. A cena de Valdemar acenando para os apoiadores é emblemática nesse sentido.
Pode até parecer que a ação catalisada pelo deputado mineiro tenha sido um movimento fortuito ou meramente emocional. Mas na régua do cálculo político a medida é outra.
O messianismo político no campo da direita ganhou um novo ânimo depois deste final de semana.
*Felipe Zangari, autor convidado, é jornalista, bacharel em Teologia e mestre em Ciências da Religião. Trabalha nos setores de Radiodifusão, Comunicação Institucional e da Análise do campo religioso no Brasil.
