
Diversos grupos no Facebook têm funcionado como porta de entrada para que presidiários encontrem relacionamentos amorosos. Mesmo para aqueles que estão em regime fechado, o acesso ao celular não tem sido um impedimento. Dentro das unidades prisionais, detentos enviam mensagens e compartilham registros do cotidiano no presídio por meio das redes sociais.
Grupos com nomes como “Preso carente”, “Preso também ama relacionamento sério”, “Preso também ama” e “Liberdade vai cantar” reúnem mais de 100 mil participantes. Nesses espaços, pessoas privadas de liberdade se apresentam e declaram estar em busca de envolvimentos afetivos, muitas vezes com intenção de firmar relacionamentos estáveis.
A reportagem do iG conversou com nove pessoas que estiveram ou ainda estão presas; sete em regime fechado, uma no semiaberto e outra no aberto. Apenas um dos entrevistados afirmou manter um relacionamento fora da prisão. Os demais se declararam solteiros e disseram procurar uma união estável.
Quem são os presos?
Lucas, 40 anos, está preso há quatro anos por tentar transportar maconha para dentro de uma penitenciária no Rio de Janeiro. Separado há dois anos, ele afirma estar em busca de “firmar um relacionamento”. Segundo Lucas, o acesso a celulares dentro do presídio ocorre por meio de aluguel entre os detentos. O custo, segundo ele, é de R$ 10 por hora de uso.

Caio, preso há dois anos em Juiz de Fora (MG) por furto, relata que o aparelho celular é compartilhado entre colegas de cela. Ele diz dividir o telefone com outros dois detentos e que não o empresta para pessoas de fora do grupo. De acordo com Caio, há um sistema de rodízio, mas nem todas as celas conseguem ter acesso ao aparelho.
Gabriel, 31 anos, cumpre pena por roubo há nove meses no Rio de Janeiro. Ele foi o único entrevistado que afirmou manter um relacionamento anterior à prisão. Casado, diz que não busca envolvimento amoroso nas redes sociais, mas sim amizades para conversar.
Leonardo está preso há dez anos por homicídio e assalto em uma penitenciária de segurança máxima em Mato Grosso do Sul. Ele relata estar em busca de um relacionamento sério através das redes sociais.
Já Thiago cumpre pena em regime semiaberto com flexibilização judicial. Ele permanece recolhido na unidade prisional durante a semana e passa os fins de semana em casa. Segundo ele, o uso de celular ocorre apenas fora da prisão, já que o porte do aparelho na unidade pode gerar punições disciplinares. Thiago afirma que, dentro do presídio, um celular pode custar cerca de R$ 2,8 mil.
Ricardo, morador de Guarulhos (SP), foi condenado a três anos por roubo e atualmente está em regime aberto, após progressão por bom comportamento. Ele relata que também utilizava celular quando estava preso e que não precisava pagar pelo uso, pois tinha conhecidos que forneciam o aparelho. Segundo Ricardo, os preços variavam entre R$ 60 e R$ 150, e poderiam mudar de acordo com o perfil do detento; crimes considerados mais graves, segundo ele, elevavam o valor.
Rodrigo, detento no Rio de Janeiro, afirmou que utiliza celular dentro da unidade prisional a qualquer hora do dia, pois o aparelho seria de sua posse. Ele não quis fornecer outras informações sobre sua situação penal ou detalhes pessoais.
Marcelo, que também está preso no Rio, relatou que divide o celular com outros detentos da unidade prisional. Ele afirma estar em busca de um relacionamento e costuma publicar nas redes sociais imagens e registros do cotidiano na prisão.
Hibristofilia: a atração por criminosos

A atração sexual por pessoas que cometeram crimes é conhecida como hibristofilia. O fenômeno, descrito na psicologia, é mais frequentemente observado em mulheres e envolve interesse por perfis considerados anti sociais, disfuncionais ou até mesmo por criminosos de grande repercussão, como assassinos em série.
Especialistas apontam que, em alguns casos, há a tendência de assumir o papel de “salvadora”, na crença de que será possível regenerar o parceiro. Também é comum o pensamento de que “comigo ele será diferente”.
O psicólogo criminal Christian Costa faz uma analogia para explicar esse comportamento:
“É como querer ter um leão como se fosse um gato de estimação. O leão pode assustar todo mundo, mas a pessoa acredita que, com ela, ele será dócil.”
Costa também destaca que criminosos envolvidos em casos de grande repercussão na mídia costumam receber ainda mais atenção.
“Muitos feminicidas e agressores de mulheres, quando presos e sai a foto deles na imprensa, se alguém identifica como homens bonitos, eles passam a ser campeões de audiência, inclusive em pedidos de visita íntima”, ressaltou.
Perfis falsos e fetichização
De acordo com Christian Costa, há ainda situações em que pessoas que estão em liberdade fingem ser presidiários para atrair mulheres.
“Existem casos de adolescentes, jovens e adultos que tentam impressionar assumindo um perfil antissocial, de ‘bad boy’, dizendo que são presos, quando na verdade não estão. Essa imagem acaba alimentando um fetiche”, explica.
Após analisar imagens de perfis exibidos pela reportagem, o psicólogo identificou indícios de falsidade. Segundo ele, alguns supostos detentos aparecem usando acessórios que são proibidos dentro de penitenciárias.

“Claramente algumas imagens não são verídicas. A pessoa cria um cenário para sustentar a história de que está presa, mas não revela quem realmente é, idade ou informações reais. A máscara vira parte do fetiche”, observa.
“Golpe do amor”
Embora a busca por apoio emocional seja uma motivação real para parte dos detentos, especialistas alertam para os riscos. Segundo o psicólogo criminal Matheus Silva, muitos apenados perdem o contato com a família após a condenação e podem buscar novas redes de suporte afetivo fora da prisão.
No entanto, Christian Costa chama a atenção para possíveis intenções financeiras por trás de alguns desses contatos.
“Alguns podem investigar a vida da mulher: com quem ela mora, o que faz, se tem estabilidade financeira. Pode haver a procura por vítimas. Acredito que nem todos estejam ali apenas carentes e em busca de relacionamento”, alerta.
Relatos observados pela reportagem e interações nos próprios grupos reforçam esse cenário. Um dos detentos entrevistados chegou a pedir um Pix de R$ 20 para comprar cigarros.

Em comentários nas comunidades, também há queixas sobre pedidos frequentes de dinheiro. Em uma das publicações, um homem escreveu:
“Grupo chato. Os cara só pede Pix. Ninguém conversa. Perda de tempo.”
Em resposta, Laura, que afirma ser ex-detenta e já ter se relacionado com pessoas presas, apresentou outra perspectiva sobre a dinâmica dentro das unidades prisionais:
“Infelizmente, um presidiário não tem o que fazer dentro de um presídio. Até pra fazer uma ligação, eles precisam pagar através do Pix. Falo com propriedade, pois namorei um que ficou preso por dois anos.”
Ela acrescenta que a circulação de dinheiro faz parte da rotina informal dentro das cadeias.
“Tudo lá dentro é pago. Até cigarro vira moeda de troca. Por isso, quando um preso te liga, ele pode pedir um Pix para pagar a ligação que fez. Se não pagar, ele pode ter problemas lá dentro”, relatou.
E quando eles fazem o Pix?
Em outro momento de apuração, um detento chegou a oferecer R$100 via Pix para que fosse realizada uma chamada de vídeo com o perfil utilizado pela reportagem. O homem, que afirmava estar apaixonado e havia feito repetidos pedidos de namoro, condicionou o pagamento à exibição do corpo da suposta usuária sem roupas.

Relacionamento atrás das grades
Isabella mantém há um ano um relacionamento com um homem que conheceu por meio do Facebook enquanto ele estava preso. Segundo ela, a aproximação começou com conversas informais e, com o tempo, o vínculo evoluiu para um namoro.
Embora ainda não tenham se encontrado pessoalmente, Isabella afirma que o contato é frequente por mensagens e chamadas de vídeo. De acordo com ela, o companheiro chegou a conhecer sua família virtualmente.
“Eu fui criada pela minha avó, e ela faleceu há cinco meses. Ela sabia do meu envolvimento com ele e gostava muito dele. Eles conversavam por chamada de vídeo, e ele sempre ligava para saber como ela estava”, relatou.
Isabella diz que ainda não realizou visita presencial porque o parceiro está prestes a ser liberado. A expectativa, segundo ela, é de que ele deixe o sistema prisional até a metade de fevereiro.
Ela também descreve os desafios do relacionamento. Para Isabella, o julgamento social e a distância estão entre as maiores dificuldades.
“Se envolver com preso é muito difícil. Você tem que gostar muito da pessoa para aguentar a saudade e a falta que ela faz”, afirma.
Ela conta que enfrenta críticas de pessoas próximas, mas acredita na sinceridade do companheiro.
“Conheço muita gente que me julga, que fala que ele só quer se aproveitar, mas eu não sinto isso. Percebo pelo jeito que ele me trata. Se eu posso ajudar, eu ajudo, e não quero nada em troca”, diz.
Para Isabella, o sentimento ultrapassa as barreiras físicas impostas pela prisão.
“A felicidade de um preso é quando ele fala com você, liga, manda carta. Quando ele me liga, é uma alegria que não tem explicação. Eu sempre disse que faria tudo por ele. Eu prefiro ficar sem do que deixar faltar alguma coisa pra ele”.
*Todos os nomes dos detentos citados na reportagem foram alterados, a fim de preservar suas identidades.
Apreensão de celulares nos presídios

Segundo a Polícia Penal do Estado de São Paulo, mais de 2 mil aparelhos celulares foram apreendidos em presídios paulistas no último ano. As ocorrências envolvem unidades de regime fechado e semiaberto, com registros tanto de tentativas de entrada de aparelhos durante dias de visita quanto de apreensões com detentos já custodiados.
Já um relatório do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP), publicado em 2023, aponta que 68,13% das unidades prisionais do estado ainda não contam com bloqueadores de sinal de telefonia móvel, o que dificulta o combate à comunicação ilegal de dentro dos presídios.
A reportagem do iG também procurou a Secretaria de Estado de Administração Penitenciária do Rio de Janeiro (Seap-RJ), mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria.
