“Endividamento das famílias não é falha individual, é construção social”, aponta Gustavo Cerbasi

Endividamento as Famílias é tema do mercado & beyond

Em um país que trabalha muito, poupa pouco e envelhece rápido, o endividamento das famílias se tornou um dos principais entraves ao planejamento financeiro e ao crescimento econômico. Em entrevista ao programa Mercado & Beyond, da BM&C News, o especialista em educação financeira Gustavo Cerbasi afirmou que o problema vai muito além de escolhas individuais: trata-se de uma construção social que estimula o consumo, mas pune o planejamento de longo prazo.

A conversa, conduzida por Paula Moraes, parte de um diagnóstico conhecido, mas ainda pouco enfrentado: o Brasil combina renda média baixa com carga tributária elevada, regras instáveis e um sistema de crédito caro, que empurra famílias e empresas para decisões de curto prazo.

Vivemos num país que estimula consumo, mas pune o planejamento, que distribui renda, mas não constrói autonomia”, afirmou Cerbasi.

“Endividamento das famílias não é falha individual, é construção social”

Para o especialista, o endividamento das famílias não pode ser tratado como simples falta de disciplina financeira. O problema está ligado à desigualdade estrutural e, sobretudo, à educação.

Eu não posso dizer que uma pessoa que não teve acesso à educação seja responsável por não ter sucesso financeiro ou na sua carreira. Existe uma construção social que vem de muitos anos, muitas décadas”, disse.

Segundo Cerbasi, a desigualdade brasileira começa na educação: quem tem acesso a ensino de qualidade se instrumentaliza, empreende, busca novas oportunidades e consegue gerar renda. Quem não teve, permanece preso a empregos instáveis, baixa remuneração e maior dependência de crédito.

Crédito caro e planejamento de curto prazo

Outro ponto central da análise é o custo do crédito no Brasil. Com juros historicamente elevados e grande oferta de empréstimos sem garantia, como cartão de crédito, consignado e crédito pessoal, o país criou um ambiente que incentiva o endividamento de alto risco.

O brasileiro endividado não está preocupado com financiamento da casa ou do carro. O problema é o crescimento desenfreado do crédito sem garantia, que não educa o comportamento e só agrava a situação”, explicou.

Nesse modelo, quem não paga transfere o custo para o próximo tomador de crédito. O risco se dilui nas taxas, que sobem ainda mais, fechando um ciclo vicioso: crédito caro gera mais inadimplência, que por sua vez encarece ainda mais o crédito.

O impacto macroeconômico do endividamento: consumo sem produção

O endividamento das famílias também afeta diretamente o crescimento do país. Cerbasi observa que, sempre que há melhora no cenário econômico ou expectativa de queda dos juros, o impulso inicial vem do consumo, não do investimento produtivo.

O consumidor reage muito mais rápido do que as empresas. Primeiro vem o financiamento do carro, do imóvel, as ofertas do comércio. A produção reage depois. Isso gera pressão inflacionária”, afirmou.

Segundo ele, esse descompasso impede cortes mais rápidos da taxa básica de juros, já que o Banco Central precisa conter a inflação gerada pelo consumo antes que a capacidade produtiva se ajuste.

A cultura do status e o consumo concentrado

Além dos fatores econômicos, há um elemento cultural relevante. Para Cerbasi, o brasileiro carrega um histórico recente de escassez e, quando tem algum alívio financeiro, busca imediatamente “mostrar que deu certo”.

A gente cai na armadilha do status. Carro melhor, roupa de grife, relógio caro. As redes sociais reforçam esse comportamento visual de sucesso”, disse.

Diferentemente dos Estados Unidos, onde o consumo é mais distribuído ao longo do ano, no Brasil ele se concentra em picos, especialmente no fim do ano, com 13º salário e bonificações. O resultado é um ciclo de euforia seguido de endividamento prolongado.

Educação como eixo da transformação

Para Cerbasi, não existe solução estrutural para o endividamento das famílias sem uma mudança profunda no modelo educacional. E não apenas educação financeira, mas educação de base, técnica e profissional.

“Estuda que a vida muda. Enquanto as pessoas entrarem numa escola e saírem sem perceber mudança real, não haverá transformação”, afirmou.

Ele defende políticas públicas que integrem assistência social com formação técnica, criando incentivos para que beneficiários migrem para o mercado de trabalho formal. O exemplo citado é de países como Coreia do Sul e Suíça, que priorizaram o ensino técnico como motor de desenvolvimento econômico.

Planejamento financeiro como mecanismo de proteção

Questionado se o planejamento financeiro ainda é suficiente para mudar trajetórias no Brasil, Cerbasi foi direto: não é suficiente, mas é indispensável.

O planejamento é um pilar da transformação, mas precisa vir acompanhado de disciplina, saúde mental e flexibilidade. Sem equilíbrio emocional, nenhum plano funciona”, disse.

Na visão do especialista, no contexto brasileiro o planejamento funciona cada vez mais como mecanismo de proteção: uma forma de criar resiliência diante de crises recorrentes, instabilidade econômica e ausência de políticas de longo prazo.

Endividamento é só o começo

A entrevista deixa claro que o endividamento das famílias é apenas a face visível de um problema mais profundo: um país que opera no curto prazo, tanto no comportamento individual quanto na condução das políticas públicas.

Sem estabilidade institucional, educação de qualidade e crédito mais racional, o Brasil tende a repetir o mesmo ciclo: crescimento baseado em estímulos, consumo financiado, inflação, juros altos e novo endividamento.

Enquanto não houver coordenação social e visão de longo prazo, continuaremos apagando incêndios, e pagando uma conta que nunca fecha”, resume.

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