
As mortes decorrentes de intervenção policial aumentaram 3,4%, no Brasil, entre janeiro e novembro de 2025, quando 5.920 pessoas foram mortas, segundo o Relatório Mundial de 2026 da Human Rights Watch (HRW).
Só na Operação Contenção, realizada em outubro nos Complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, 122 pessoas morreram.
O diretor da organização, César Muñoz, defende políticas públicas que “realmente” desmantelam grupos criminosos e investigações independentes capazes de identificar vínculos entre facções e agentes do Estado, o que, segundo ele, não ocorreu no Rio.
“O que não funciona é entrar na favela atirando. Isso não desmantela grupos criminosos. Isso só cria mais insegurança e coloca os próprios policiais em risco”, disse Muñoz.
Ele relatou ainda ter encontrado “falhas graves” na investigação sobre a megaoperação.
“Um dos problemas no Rio, especialmente e de outros estados no Brasil, é que a perícia é totalmente subordinada à Polícia Civil. Não tem a necessária independência para fazer o trabalho de forma adequada”, disse.
De acordo com o relatório, em sete estados e no Distrito Federal, os institutos oficiais de perícia seguem subordinados às polícias civis.
Crescimento do crime organizado
A expansão do crime organizado está ligada à corrupção do Estado, segundo Samira Bueno, diretora executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Ela afirma que as facções “só tomaram essa dimensão” porque contam com a corrupção estatal. Na prática, policiais violentos e polícias corruptas fortalecem o crime.
“Uma das condições para o crescimento e expansão do crime organizado, isso não apenas no Brasil, mas em qualquer lugar do mundo é a corrupção, especialmente a corrupção de agentes públicos, a corrupção de forças de segurança, a corrupção de atores do judiciário, a corrupção de uma série de atores que efetivamente são necessários para o crime conseguir, por exemplo, exportar uma droga que vai sair do Porto de Santos, então vai corromper um agente público que trabalha ali para fazer essa droga chegar num porto europeu”, ressaltou.
Ela defende que a polícia pode e deve usar a força para proteger a si e a terceiros, mas que isso não pode servir de justificativa para execuções sumárias, como no “massacre” do Rio de Janeiro. Segundo ela, é preciso investir em mecanismos de controle externo da atividade policial.
“Uma polícia violenta não é uma polícia forte. É uma polícia frágil que fica vulnerável ao crime organizado”, avaliou Samira.
