
Arqueólogos identificaram a cidade esquecida de Alexandria no Tigre, no sul do Iraque, fundada por Alexandre, o Grande, no século IV a.C. O local, também conhecido como Charax Spasinou ou Charax Maishan, funcionou como porto e centro de comércio entre Mesopotâmia, Índia, China e Afeganistão por mais de cinco séculos.
Pesquisas recentes conduzidas pelo arqueólogo Stefan Hauser, da Universidade de Konstanz, em colaboração com equipes britânicas e alemãs, documentaram a cidade a partir de análises de drones, geofísica e escavações superficiais.
A redescoberta ocorreu em Jebel Khayyaber, a cerca de 15 km da fronteira com o Irã, uma área que anteriormente foi campo de guerra e pouco estudada.
Durante uma ocupação, a região foi afetada pelo conflito Irã-Iraque e pela presença do Estado Islâmico em partes do país, restringindo as pesquisas arqueológicas.

O primeiro registro moderno da cidade veio na década de 1960, quando John Hansman identificou a fortificação da cidade em fotos aéreas da Royal Air Force. Porém, devido à proximidade da fronteira iraniana e aos conflitos regionais, pesquisas foram interrompidas por décadas.
Apenas em 2014 expedições estrangeiras, incluindo Jane Moon, Robert Killick e Stuart Campbell, puderam explorar o local, constatando a extensão das muralhas de até oito metros de altura e percebendo que se tratava da cidade fundada pelo imperador Alexandre.
O local também já havia sido parcialmente destruído e reconstruído ao longo do tempo, sendo novamente ampliado por governantes locais, incluindo a família Spasinou, que ergueu rampas de proteção de aproximadamente 10 quilômetros de extensão.
O projeto recebeu financiamento da Gerda Henkel Stiftung, da Deutsche Forschungsgemeinschaft (DFG) e do Cultural Protection Fund do British Council.

Escavações adicionais estão planejadas, incluindo a investigação de canais, oficinas e grandes edifícios, com expectativa de novos achados que poderão detalhar ainda mais a vida urbana e o comércio em Alexandria no Tigre.
Pesquisas futuras incluem estudo de sistemas de irrigação e aprofundamento da cronologia de edifícios importantes, com foco em áreas queimadas ou preservadas, incluindo colunatas e peristilos.
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Uma cidade planejada
Modelos de terreno construídos a partir de milhares de imagens de drones mostraram que Alexandria no Tigre era uma grande metrópole, com ruas sistematicamente organizadas, grandes blocos residenciais, templos e canais internos ligados a oficinas e fornos.

A cidade incluía ainda estruturas palacianas e áreas que possivelmente serviam para cultivo interno de alimentos. Havia também áreas destinadas à administração e provavelmente assentamentos de comerciantes do Império Romano, que atuavam no comércio com a Índia.
“Alexandria no Tigre deve ter cumprido sua função como um dos principais pontos do comércio antigo por 550 anos”, afirma Hauser.
O geofísico Jörg Fassbinder utilizou um magnetômetro de césio para identificar sem escavar ruas, paredes e fornos, permitindo reconstruções precisas de grandes edifícios.

Com o uso dessas tecnologias, os pesquisadores puderam mapear toda a cidade, revelando fases de construção diferentes e a presença de complexos residenciais, templos e portos internos.
Comércio e declínio
Durante sua existência, Alexandria no Tigre funcionou como centro de redistribuição de mercadorias entre Mesopotâmia, Índia, China e Afeganistão.
A cidade foi planejada por Alexandre para substituir portos antigos afetados pela sedimentação e funcionar como porto estratégico, conectando o sistema fluvial às principais cidades do sul da Mesopotâmia e ao comércio com a Índia, reorganizando o fluxo de mercadorias entre o Golfo Pérsico e os rios Tigre e Karun.

A cidade perdeu importância quando o Tigre alterou seu curso para o oeste, tornando o acesso fluvial mais difícil. Assim, no século III d.C., devido à sedimentação do rio, a cidade, que ficava a cerca de 180 km do Golfo Pérsico foi abandonada, com sua função econômica transferida à futura Basra.
Antes disso, Alexandria passou por reconstruções e manteve sua importância comercial durante períodos do Império Parta e Sassânida.
