
Por Nira Broner Worcman*
Há uma frase incômoda que atravessa séculos e resiste aos fatos: os judeus não são queridos.
Não fomos ontem. Não somos hoje. E nada indica que seremos amanhã. Essa constatação independe de mérito ou boa conduta. Na Europa do século XX, enquanto judeus eram expulsos de universidades, guetos eram fechados e campos de extermínio eram organizados com eficiência industrial, o mundo silenciou. Sabia-se mais do que se admite hoje.
As informações existiam, os relatos circulavam, os pedidos de refúgio eram feitos, mas negados. Holocausto não ocorreu no escuro, mas num ambiente de indiferença ativa: judeus não eram bem-vindos, em lugar nenhum.
Nunca foi por falta de contribuição. Representamos cerca de 0,2% da população mundial e acumulamos aproximadamente 20% dos prêmios Nobel. Estamos na base de avanços decisivos na medicina, na física, na economia, na literatura, na tecnologia. Criamos vacinas, teorias, empresas, linguagens, artes. E, por meio de Israel — o Estado judeu —, estamos também entre os primeiros a prestar ajuda humanitária quando outros países, inclusive inimigos declarados, enfrentam desastres naturais e emergências civis. Nada disso comprou aceitação: mérito nunca foi antídoto contra o antissemitismo.
Durante o Holocausto, o mundo permaneceu mudo. Após o ataque terrorista de 7 de outubro de 2023, que matou 1.200 pessoas e sequestrou 251 em Israel num único dia, o mundo gritou, protestou e ameaçou — mas contra os judeus. Antes mesmo que os mortos fossem enterrados e os sequestrados libertados, judeus ao redor do mundo passaram a ser hostilizados, agredidos e assassinados. Estrelas de Davi reapareceram em portas. Sinagogas passaram a exigir proteção policial. Estudantes judeus ouviram que mereciam morrer.
O maior massacre contra o povo judeu desde o Holocausto foi relativizado, justificado e até celebrado. Não recebemos simpatia sequer de pessoas que considerávamos amigas; a maioria preferiu o silêncio, convicta de que a culpa era nossa. Quantas vezes ainda tivemos de ouvir a frase — repetida sem pudor — de que Hitler deveria ter “completado o trabalho”?
Há algo profundamente revelador nisso: não somos odiados pelo que fazemos, mas por existirmos. No passado, fomos acusados de sermos fracos e parasitas. Hoje, de sermos fortes e opressores. O antissemitismo é elástico: adapta-se ao espírito do tempo sem perder a essência, assumindo formas cada vez mais sutis — e, por isso mesmo, perigosas. No dia 27 de janeiro, Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, a BBC lembrou a data dizendo que 6 milhões de “pessoas” foram mortas, sem mencionar que as vítimas eram judias, um terço da população judaica de 1945. Até hoje esse número não foi recuperado. Não se trata de um detalhe linguístico. O Holocausto não foi uma tragédia genérica: foi um genocídio dirigido. Apagar o judeu da narrativa é uma forma contemporânea de negação.
Desde sempre, judeus serviram como espelho das frustrações alheias. Em momentos de crise, tornam-se bode expiatório. Em momentos de estabilidade, são tolerados, nunca plenamente aceitos.
O passado e o presente nos indicam algo sobre o futuro? Se nem o extermínio em escala industrial foi suficiente para erradicar o ódio; se nem contribuições extraordinárias garantem pertencimento; se nem a condição explícita de vítima assegura empatia…
Talvez a lição mais dura seja esta: judeus não podem basear sua segurança na aprovação do mundo. A história ensina que ela é volátil. Ontem, o mundo se calou. Hoje, acusa. E amanhã?
A pergunta permanece aberta — mas nossa vigilância não é opcional.
*Jornalista e CEO da agência de comunicação Art Presse e autora de Enxugando Gelo (2025 – edição hors commerce), sobre a cobertura midiática da guerra entre Israel e grupos terroristas.
