É bom para a política José de Abreu anunciar candidatura?

José de AbreuCrédito: O Dia

José de Abreu anunciou candidatura a deputado federal pelo PT. Isso causa estranheza porque a política, na sua essência, não é palco. É mediação. É o espaço onde pessoas diferentes, com interesses conflitantes, precisam chegar a algum tipo de acordo para continuar vivendo juntas.

Por isso, política exige algo cada vez mais raro: capacidade de diálogo, flexibilidade e autocontenção. Não é sobre vencer o outro, mas sobre não inviabilizar a convivência. É nesse ponto que candidaturas baseadas em personagens, e não na função, revelam menos renovação e mais sintoma.

A candidatura de José de Abreu não chama atenção por ideologia, mas por perfil. Um artista que construiu sua trajetória pública a partir do confronto e da exposição entra na política carregando a lógica do palco: reação, aplauso e antagonismo. O problema não é ter posições firmes. É quando o histórico público revela dificuldade de autocontenção diante do conflito.

O episódio amplamente noticiado em que José de Abreu cuspiu em uma mulher dentro de um restaurante, em 2019, não incomoda apenas como fato isolado. Ele é simbólico. Expõe a ausência de freio, exatamente o oposto do que a política exige de quem precisa mediar diferenças.

Isso não é exclusividade da esquerda

Do outro lado do espectro, Nikolas Ferreira oferece exemplo igualmente ilustrativo. Ao subir à tribuna do Congresso usando uma peruca loira, não estava exercendo diálogo nem tentando convencer quem pensa diferente. Estava performando sua identidade, falando exclusivamente para a própria torcida. Aquilo passou longe de política. Foi encenação. Gestos simbólicos feitos para mobilizar base, não para ampliar conversa.

O efeito é o mesmo: quem vota se afasta da possibilidade de diálogo, enquanto quem discorda se fecha ainda mais. O gesto não constrói ponte. Queima a ponte e posa ao lado do incêndio.

O resultado é um Parlamento ocupado por radicais opostos que não se encontram. Cada um fala para o seu público, reforça sua identidade e mantém a guerra simbólica funcionando. Não há mediação, negociação ou política. Há só fã-clube.

Esse modelo pode até funcionar eleitoralmente. Mobiliza, engaja e fideliza. Mas cobra um preço alto: a política deixa de organizar o coletivo e vira extensão da personalidade. Antes, o personalismo se apoiava no palanque e na TV. Hoje, se apoia na rede social, na performance e na polarização permanente. Sempre foi projeto de poder, raramente projeto de política.

A experiência internacional mostra que a transição do palco para a política só funciona quando o personagem cede espaço à função. Volodymyr Zelensky, ex humorista, conseguiu fazê-lo diante da guerra. Arnold Schwarzenegger encontrou limites quando a performance já não bastava. O teste nunca é a eleição, mas o exercício do cargo.

Talvez o problema não seja quem se candidata. Talvez seja uma política que já não acredita que pode existir sem espetáculo. José de Abreu na política seria como Jair Bolsonaro numa novela. Pode provocar reação, mas não entrega o que a função exige.

Se ele ganhar, veremos se a política consegue domar o personagem. E não o contrário.

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