Do Catar à Fundação Getúlio Vargas

Presidente Lula e Emir do Catar, Tamim bin Hamad al-Thani. PR/Ricardo Stuckert

Nesta semana, uma informação relevante (mas não inédita) foi divulgada por Charles Small, presidente do Instituto de Estudos de Antissemitismo Global e Políticas e também membro de universidades norte-americanas de prestígio, como Cambridge e Pennsylvania. Segundo ele, “mais de 100 bilhões de dólares não documentados entraram nos Estados Unidos provenientes da Irmandade Muçulmana nos últimos 20 anos”.

Uma explicação rápida se faz necessária. A Irmandade Muçulmana é uma organização centenária, precursora do fundamentalismo islâmico, cujo objetivo é a criação de um Estado muçulmano global regido pelas leis do Corão. Catar e Turquia figuram entre seus principais apoiadores; o Hamas é uma de suas ramificações. Não por acaso, seus vizinhos Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Egito a classificam como organização terrorista.

Small chama atenção para um dado revelador: na lista de receptores das doações do Catar constam aquelas universidades que, após a invasão do Hamas a Israel, em outubro de 2023, tornaram-se palco de protestos violentos anti-Israel e antissemitas, com manifestações pró-Hamas e pró-Intifada. Entre elas, a Cornell University, em Nova York, que recebeu do Catar 10 bilhões de dólares, e a Georgetown University, em Washington, beneficiada com 1 bilhão de dólares.

Influência perigosa

Como grandes doadores dessas e de outras instituições acadêmicas globais, os cataris exercem influência direta sobre a definição de currículos, participam da indicação e da imposição de professores de fé islâmica, e impulsionam a criação de centros de estudos do Islã. Um exemplo é o  centro de estudos islâmicos Prince Alwaleed Bin Talal, da Georgetown University: o nome foi uma homenagem ao diretor da Education Above All, organização catari responsável por doações a instituições de ensino em todo o mundo.

“O que assistimos agora é a chegada de uma segunda geração de intelectuais, graduados da elite europeia e americana, que estão abertamente apoiando o Hamas nas ruas. Trata-se de um grupo que não apenas é genocida e antissemita: ele defende a subjugação feminina, o assassinato de gays e a destruição da democracia”, afirma Small. “Ainda assim, nossos líderes políticos, universitários e religiosos continuam aceitando dinheiro e dançando com os cataris”, completa.

Os cataris na educação brasileira

O Brasil é o primeiro país latino-americano a sediar um consulado catari em seu território. Em entrevista à Revista Forbes, em 19 de dezembro de 2025, o cônsul do Catar no Brasil, Ali Al-Hammadi, afirmou que já foram investidos cinco bilhões de reais no país em setores como agronegócio, energia, finanças etc.

Parte desse investimento — incluído no genérico “etc.” — alcança também a educação superior. Segundo o portal da Fundação Getúlio Vargas, a instituição firmou parceria com a Education Above All Foundation para o desenvolvimento de um projeto de pesquisa sobre Educação Inclusiva e Desafios do Aprendizado. O investimento inicial do Catar nesse programa foi de 100 mil dólares.

Em Israel, há uma percepção bastante clara sobre quem é o Catar — e dele os israelenses procuram manter distância. Além de outros fatos, basta lembrar que o país não apenas é o principal financiador do Hamas, como também abriga em seu território a liderança política do grupo terrorista (embora se especule que ela tenha se mudado para a Turquia).

O que o Catar pode ensinar?

Mesmo que esses aspectos não impressionem a maior parte da opinião pública brasileira, é no mínimo legítimo questionar que tipo de contribuição à Educação Inclusiva pode ser oferecida por um país que:

  • 1. Criminaliza atos sexuais entre pessoas do mesmo gênero, além de abusar e prender indivíduos pertencentes ao grupo LGBTQ+, vistos oficialmente como uma “importação ocidental”.

  • 2. Determina, por lei, que guardiões masculinos — pais, irmãos ou maridos — controlem a liberdade de movimento das mulheres, que até os 25 anos precisam de autorização formal para viajar ao exterior.

  • 3. Estabelece que, em caso de divórcio, a custódia dos filhos seja preferencialmente do pai, não reconhecendo legalmente as mulheres como guardiãs primárias.

Difícil para mim acreditar que haja um objetivo nobre por trás da iniciativa catari. Só eu penso assim?

Adicionar aos favoritos o Link permanente.