Conheça a brasileira que coordena estudo com polilaminina

Tatiana Coelho de Sampaio, pesquisadora brasileira e coordenadora do estudo com polilamininaDivulgação

Professora do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Tatiana Coelho de Sampaio coordenou uma pesquisa, que após mais de 25 anos de estudos, resultou em uma molécula experimental chamada polilaminina

Professora do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Tatiana Coelho de Sampaio coordenou uma pesquisa que, após 25 anos de estudos, resultou na molécula experimental polilaminina. pic.twitter.com/VrL0cm8kVE

— iG (@iG) February 16, 2026

A substância amplia as possibilidades de recuperação para pessoas com paraplegia ou tetraplegia causadas por acidentes, o que levou a pesquisadora brasileira a conquistar grande reconhecimento nacional e internacional ao liderar uma dos estudos mais promissores no tratamento de lesões medulares.

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A polilaminina é uma versão produzida em laboratório da laminina, uma proteína extraída da placenta, capaz de modular o comportamento celular e a organização dos tecidos durante o desenvolvimento, e a regeneração do sistema nervoso.

A molécula estimula neurônios que haviam interrompido seu desenvolvimento, favorecendo a regeneração e a formação de novas conexões nervosas. Com isso, os impulsos elétricos voltam a circular pelo corpo, possibilitando a recuperação de movimentos antes considerados inviáveis.

Na fase experimental, pacientes com lesão medular que receberam o tratamento apresentaram recuperação parcial ou total dos movimentos.

Resultados promissores

Junto com o cérebro, a medula espinhal integra o sistema nervoso central. Ela se estende da base do crânio até a região lombar, e lesões nessa estrutura costumam provocar consequências severas, como paraplegia, tetraplegia e até mesmo a morte.

A polilaminina vem sendo utilizada para estimular a regeneração dos axônios, que são os prolongamentos dos neurônios, restabelecendo a transmissão de informações pelo corpo e possibilitando a recuperação de movimentos.

A pesquisa teve início com oito voluntários, que receberam uma única aplicação da proteína diretamente no local da lesão, dentro de um prazo de até 72 horas após o acidente. Dois pacientes não sobreviveram à gravidade do quadro, enquanto os outros seis apresentaram diferentes graus de evolução: alguns obtiveram melhora parcial e outros recuperaram integralmente os movimentos.

Bruno Drummond de Freitas, paciente 01 da polilaminina; primeiro registro de 2018 quando sofreu um grave acidente de carro, e o segundo de 2026 ao lado de Tatiana SampaioReprodução/ Redes sociais / Montagem iG

O caso mais emblemático é o de Bruno Drummond de Freitas, que sofreu um acidente de carro em 2018, aos 23 anos, e ficou tetraplégico. Apenas 24 horas após a lesão, recebeu a polilaminina.

Cerca de três semana depois já conseguia mexer o dedão do pé, e em um ano e cinco meses ele já conseguia caminhar e fazer exercícios. Hoje, Bruno leva uma vida normal, pratica esportes e pode caminhar sem a necessidade de auxilio.

Além dos testes em humanos, a proteína também foi aplicada em cães e ratos, que apresentaram resultados animadores, com recuperação total em casos de lesões não provocadas.

A descoberta da polilaminina

A coordenadora do projeto, Tatiana Sampaio (de azul claro), com pesquisadores que integraram a equipe ao longo dos anosReprodução/ CAPES / GOV

A trajetória da pesquisa começou em 1998, quando Tatiana Sampaio passou a se interessar pelo estudo da associação de proteínas. No laboratório, teve contato com frascos de laminina, proteína naturalmente presente no organismo humano e, a partir da polimerização dessa molécula, obteve a polilaminina.

O avanço dos estudos revelou que a forma polimerizada apresentava resultados promissores na regeneração neuronal, especialmente nos axônios, estruturas responsáveis pela transmissão dos impulsos nervosos do cérebro aos músculos e pelo retorno das informações sensoriais.

Diante disso, a pesquisa avançou para testes em roedores, cães e seres humanos. Nessa etapa, a laminina utilizada passou a ser extraída de placentas, material geralmente descartado após o parto e que se mostrou uma fonte abundante da matéria-prima necessária.

Ao longo de grande parte do desenvolvimento, o projeto contou principalmente com o financiamento da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), além do apoio da CAPES/MEC e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), por meio da concessão de bolsas de pesquisa.

Após quase três décadas de investigação, os resultados positivos viabilizaram uma parceria com a indústria farmacêutica. Em 2021, Tatiana Sampaio firmou acordo com o laboratório Cristália, responsável pela produção da polilaminina em escala industrial. Segundo a empresa, cerca de R$ 28 milhões já foram investidos no desenvolvimento do medicamento, cuja co-propriedade passou a ser compartilhada entre as partes.

Autorização da Anvisa viabiliza avanço da pesquisa

No início de janeiro de 2026, o governo brasileiro anunciou o início do estudo clínico de fase 1 destinado a avaliar a segurança da polilaminina no tratamento do Trauma Raquimedular Agudo (TRM).

A iniciativa possibilita o desenvolvimento inédito de uma terapia voltada a pacientes com lesões na medula espinhal, com foco na ampliação do acesso ao tratamento, no fortalecimento da assistência e na integração da pesquisa clínica ao Sistema Único de Saúde (SUS).

Com o aval da Anvisa, o estudo seguirá com a participação de voluntários entre 18 e 72 anos que apresentem lesões agudas completas da medula espinhal torácica, localizadas entre as vértebras T2 e T10. Os pacientes devem ter indicação cirúrgica realizada em até 72 horas após o trauma.

Uma nova esperança para muitos

Lais Souza (E) e Tatiana Sampaio (D)Reprodução/ Redes Sociais

Com o uso da polilaminina, cerca de seis pacientes já apresentaram sinais expressivos de recuperação, considerados acima do esperado para os tipos de lesão.

Em entrevista à GloboNews, no dia 6 de fevereiro deste ano, Tatiana Sampaio declarou que seu maior desejo é ver todos os estudos clínicos alcançando resultados positivos, com melhorias reais na condição dos pacientes.

Segundo a pesquisadora, a expectativa é que, no futuro, o tratamento possa ser ampliado também para pessoas com lesões crônicas, ou seja, aquelas que convivem há mais tempo com danos na medula espinhal.

Ela ainda reforçou que esse é o principal objetivo dos avanços da pesquisa. E afirmou que, neste momento, o foco é “apostar em várias possibilidades” de conseguir acelerar o processo o mais rápido possível.

A dedicação à pesquisa e os resultados alcançados renovam a esperança não apenas daqueles que sofreram lesões recentes, mas também de quem, há anos, busca um tratamento eficaz capaz de proporcionar mais qualidade de vida. Como no caso da ex-ginasta Lais Souza.

Lais ficou tetraplégica após um grave acidente em 2014, durante uma prática de esqui nos Estados Unidos, quando fraturou a vértebra C3 e perdeu os movimentos do corpo. No dia 12 de fevereiro deste ano, ela conheceu a pesquisadora Tatiana Sampaio, responsável pelo desenvolvimento da polilaminina.

Em uma publicação marcada pela emoção e pela esperança, Lais compartilhou o encontro e escreveu na legenda: “Eu precisava vir pessoalmente agradecer por todos esses anos dedicados à pesquisa.

Em 12 anos de lesão, acompanhei inúmeros estudos ao redor do mundo. Li artigos, vi reportagens, ouvi especialistas, mas sem criar expectativas. Nenhum deles tinha despertado em mim o que senti ao conhecer a polilaminina.

Eu sempre disse que viajaria para qualquer lugar do mundo se surgisse uma pesquisa verdadeiramente promissora.

E nunca, nem nos meus melhores sonhos, imaginei que essa luz estaria tão perto. Aqui na nossa casa, no nosso país.

Continuo acompanhando cada notícia, entrevista, podcast e atualização com otimismo, cautela e pés no chão. Torço para que os resultados avancem além do que hoje conseguimos imaginar.

Deus, me permita estar viva para ver não apenas a minha vida impactada, mas a de milhões de pessoas. Que essa descoberta alcance quem já espera há décadas e também transforme o futuro das próximas gerações.

Tatiana, hoje eu vim te dar um abraço. Porque o seu abraço eu já recebo todos os dias, a cada notícia“.

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