
Esta é a época do ano em que Israel — e também seus vizinhos — fica mais sujeito a um fenômeno climático praticamente desconhecido pelos brasileiros. Fortes ventos soprados a partir da África inundam o país de toneladas de areia, elevam a temperatura, bloqueiam a luz solar e provocam um desconforto intenso, especialmente entre pessoas com sensibilidade respiratória.
A tempestade de areia que atingiu o país no último sábado, e que continuou sendo sentida em menor escala nos dias seguintes, levou Jerusalém e Tel Aviv aos primeiros lugares do ranking mundial das metrópoles com pior qualidade do ar. Em Jerusalém, medições indicaram a presença de 93 vezes mais partículas no ar do que o limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde.
A combinação com emissões urbanas e industriais agravou ainda mais o quadro. Naquele dia, muitos israelenses relataram sensação de ressecamento na pele e nos cabelos, dificuldade respiratória, crises alérgicas e olhos secos e ardendo.
O purgatório de Arbel
O mal-estar que tomou conta do país naquele sábado não pode, no entanto, ser atribuído apenas à tempestade de areia. Ele foi intensificado — e talvez simbolicamente materializado — pela entrevista transmitida na TV local na noite de sexta-feira, com os ex-reféns do Hamas Arbel Yehud e Ariel Cuñio.

O casal foi levado de sua casa, no kibutz Nir Oz, em 7 de outubro de 2023, e permaneceu separado durante todo o período de cativeiro. Arbel, hoje com 28 anos, foi sequestrada pela Jihad Islâmica, grupo terrorista que atua na Faixa de Gaza ao lado do Hamas. Na entrevista, ela relatou ter vivido a experiência mais aterradora possível: foi usada como escrava sexual do início ao fim de seu cativeiro.
Sem entrar em detalhes, deixou claro que os abusos eram quase diários. Durante esse período, tentou se suicidar três vezes. O impacto de sua declaração sobre a sociedade israelense foi devastador. Há no país um forte senso de comunidade, que conecta os indivíduos de maneira profunda — traço característico da cultura judaica e também de sociedades pequenas, nas quais a dor de um rapidamente se torna a dor de todos.
Arbel Yehud passou todo o período de cativeiro — 478 dias — sem contato com outros reféns, e foi a última mulher israelense a ser libertada. Ariel Cuñio e seu irmão, David Cuñio (filhos de pais argentinos), estavam entre os 20 últimos israelenses soltos, após 738 dias de sequestro. O irmão de Arbel, Dolev, foi assassinado no momento da invasão e seu corpo foi levado para Gaza. Ela só recebeu essa notícia meses depois, em cativeiro.
Violação sexual como arma de guerra
No ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, quando cerca de 6 mil palestinos invadiram cidades e comunidades no sul de Israel, tornou-se evidente que estupro e tortura sexual foram usados de forma sistemática pelos invasores. Nos corpos de centenas dos 1,2 mil homens e mulheres assassinados naquele dia encontraram-se marcas inequívocas de perversidade.
Ainda assim, a ONU levou mais de um ano para reconhecer esse fato — e o fez de maneira tímida. Muitas organizações ainda não o reconheceram.
Naturalmente, desde o início da guerra, toda sociedade israelense temia o que viria à tona a partir dos relatos das mais de 250 pessoas sequestradas naquele dia. À medida que eram libertadas, os testemunhos sobre abusos e torturas sexuais em cativeiro começaram a emergir, mês após mês.
Esses depoimentos continuam surgindo. No mês passado, o refém Sasha Troufanov concedeu sua primeira entrevista a uma mídia internacional — a BBC — e relatou que era filmado enquanto se banhava. Um de seus captores tentou coagi-lo a gravar um filme pornográfico.

Até agora, pelo menos 20 reféns admitiram publicamente terem sido violados durante o cativeiro. Sabe-se que há muitos outros que, por diferentes razões, ainda preferem manter silêncio.
Estupros documentados desde 1920
O uso da violência sexual contra judeus como instrumento de intimidação é um fenômeno documentado na região desde o início do século 20. Trata-se, portanto, de um padrão anterior à criação do Estado de Israel, em 1948.
O tema é objeto de estudo do professor Gur Alroey, especialista em História Judaica em Tempos Modernos e ex-decano da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade de Haifa (2016–2020). Em reportagem publicada na semana passada no jornal israelense Yedioth Achronot, ele lembrou:
“No pogrom realizado pelos árabes contra a população judaica em 1929, havia 28 mulheres entre os 133 judeus assassinados. A maioria das sobreviventes foi violada ou torturada, enquanto os corpos das mulheres mortas apresentavam evidências de violação e abuso.”
Em artigo publicado no periódico acadêmico Cathedra, o professor aprofundou a análise:
“A violência sexual foi uma ferramenta usada por amotinadores árabes para humilhar e desmoralizar a comunidade judaica local. Com base em fontes históricas e depoimentos, o estudo expõe o que foi escondido por décadas: mulheres judias foram estupradas e atacadas sexualmente durante todos os conflitos.”
Não é novidade que a perversão sexual floresce em comunidades ou sociedades repressoras. Ainda assim, diante dos relatos que continuam emergindo nos últimos dois anos, o assombro permanece impossível de ser contido.
