Cabe religião no carnaval? Festa desafia relação do sagrado e profano entre símbolos e homenagens


‘Galo Folião Fraterno’ homenageia Dom Helder Câmara
Chamada de “ingrata” por grande parte dos foliões, a Quarta-feira de Cinzas (18) é determinante para o calendário dos cristãos, pois representa o início da contagem para a Quaresma, período que leva até a Páscoa.
Historicamente apresentados como opostos, o sagrado e o profano podem ter muito mais em comum do que se imagina. Em um carnaval marcado pela homenagem a Dom Hélder Câmara pela escultura gigante do “Galo Folião Fraterno”, na Ponte Duarte Coelho, no centro da capital, carnaval e fé se misturam na mais pura manifestação cultural (veja vídeo acima).
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O doutor em ciência da religião Liniker Xavier acredita que não existe contradição entre ser “religioso” e brincar o carnaval.
“Uma pessoa muito religiosa tem e deve ter espaço no carnaval. Não apenas ‘apesar’ de sua religiosidade, mas por causa dela. Sobretudo quando falamos da religiosidade popular, que é profundamente marcada pelas formas coletivas de pertencimento”, afirma.
Arcebispo de Olinda e Recife entre 1964 e 1985, Dom Hélder Câmara era um notório defensor do “direito à alegria”. “Brinque, meu povo querido!”, frase atribuída ao líder católico, foi escrita no coração cenográfico colocado no peito do Galo Gigante, que fica na ponte até o dia 21 de fevereiro.
Neste ano, uma celebração inédita levou um coração cenográfico pelas ruas do Centro do Recife, em cortejo, até a escultura mais famosa do carnaval.
Carregado sobre um andor, a peça foi levada por foliões após uma missa de Ação de Graças no Convento de Santo Antônio, um dos conjuntos arquitetônicos mais antigos da cidade, construído no século 17.
O coração da escultura carrega uma luz que, segundo o artista plástico responsável pelo design do Galo gigante, Leopoldo Nóbrega, representa a presença de Cristo e essa relação com o carnaval, além de simbolizar o coração de Dom Helder.
Ainda de acordo com Leopoldo, as palavras de Dom Helder Câmara sintetizavam a relação entre fé e folia.
Ecumenismo e polêmica
Para muitos foliões, a folia pode andar de mãos dadas com a religiosidade. A vendedora Maria Guedes, de Fortaleza, se hospedou durante a folia num estabelecimento ligado a um convento no Alto da Sé, em Olinda, e disse que se encantou com as freiras brincando carnaval.
“Elas ficam na calçada, brincando e vivendo o carnaval. […] O carnaval daqui tem um sentimento de amor de mãe”, afirma.
Outras religiões, como as de matriz africana, especialmente o candomblé e a umbanda, se tornam grandes elementos do carnaval pernambucano, expresso significante no maracatu nação, inspirado em ritos de antigos reinos africanos.
Tradicionalmente contrária ao carnaval, a religião evangélica tem se aproximado nos últimos anos da festividade, geralmente com pretexto de evangelização, o que gera debates.
Um exemplo é o movimento que reúne a Igreja Anglicana e a Igreja Episcopal Carismática em ações de evangelização nas ruas (veja vídeo abaixo).
“Vamos para a rua na ideia de evangelizar. Temos o melhor, que é Jesus. Então, por que não mostrar isso às pessoas?”, afirma o Pastor Dadison.
Igreja Anglicana e a Igreja Episcopal Carismática em ação nas ruas do Bairro do Recife
O movimento acontece há cerca de 20 anos e costuma dividir os fiéis. Para o doutor em ciência da religião Liniker Xavier, existe um limite entre a busca por fiéis e a intolerância religiosa e apropriação cultural.
“Se um grupo que vai à folia com estética de cortejo também atua, no restante do ano, para reduzir estigmas contra religiões afro-brasileiras, condena firmemente a intolerância religiosa e reconhece publicamente o valor cultural dessas tradições, há um mínimo de consistência. Se ele usa a rua para atrair praticantes e depois reforça a demonização do universo que forneceu aquela linguagem musical e performática, estamos diante de uma contradição moral, de um parasitismo cultural”, pontua.
O pesquisador aponta ainda a ligação entre elementos do carnaval e da religiosidade como manifestações históricas.
“Falar dessa religiosidade no Carnaval também é falar de política cultural e de cidadania, porque é preciso proteger tradições, garantir que mestres e comunidades sejam valorizados, combater estigmas e intolerância religiosa, e entender que, para muita gente, o toque do tambor e o corpo em cortejo não são apenas festa, mas modos de existir e afirmar sua humanidade e dignidade em público”, finaliza.
Igreja Anglicana e a Igreja Episcopal Carismática em ação de evangelização nas ruas do Bairro do Recife
Letícia Maria/g1 PE
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