Lojista desabafa após ordem de despejo para sair de shopping

Celi Lobo gravou vídeo nas redes sociais em que lamentava a ordem de despejo recebida para sair do local(Foto: Reprodução/Instagram @divetroperfumes

Trinta anos de história resumidos em uma ordem de despejo. A comerciante Celi Lobo, de 63 anos, proprietária da loja Di Vetro Produtos Importados, relatou os momentos de tensão passados por ela e outros comerciantes que trabalham no Shopping Alto da XV Mall, em Curitiba. Há trinta anos no local, ela, agora, busca um recomeço de uma trajetória que está em vias de terminar.

Celi e outros comerciantes do estabelecimento estão revoltados com o pedido formal feito pelos administradores do Shopping para que todos deixem o espaço, no máximo, em trinta dias. O caso foi revelado pela própria Celi, em vídeo publicado nas redes sociais dela.

O telegrama foi enviado de maneira repentina, sem aviso prévio, e pegou os empreendedores de surpresa, justamente pelo fato da administração ter feito reuniões com promessas  de melhorias e permanência dos vendedores no estabelecimento.

Recebemos um telegrama, simples e seco, dando 30 dias pra gente desocupar o local. Não houve reunião, tentativa de diálogo, nada. Muito pelo contrário. Todas as reuniões que tivemos em 2025 era pra falar que o contrato pra gente permanecer no local estava 90% pronto, só em vias de ser assinado. Mas vimos que isso não correspondia à realidade. Foi algo pra nos enganar, ludibriar. Foi uma traição, fomos tratados como nada”. 

O relato de Celi Lobo é acompanhado pelo de Cleonice Wasilkoski, de 49 anos. Proprietária da loja “Segredos da Cléo”, ela também recebeu uma ordem “curta e grossa” para deixar o local, presente em uma das áreas mais movimentadas da capital paranaense. Lojista há nove anos, mas há cinco trabalhando no empreendimento reinaugurado antes da pandemia, ela também busca uma realocação de espaço.

Loja Segredos da Cleo está entre as que deixarão ao Alto da XV Mall(Foto: Divulgação/Cleonice Wasikoski)

O telegrama enviado se apoia na última assinatura de contrato feito pelo administrador do imóvel com os lojistas. Após um ano fechado por conta da pandemia, os comerciantes, alguns deles em dificuldades financeiras, assinaram o novo vínculo de locação de espaço. Nele, observaram cláusulas que causavam insegurança, como a destinação de 7% do lucro aos donos do Alto da XV Mall.

Telegrama enviado pelos gestores aos lojistas(Foto: Divulgação/Cleonice Wasilkoski)

Dentre elas, como Celi Lobo destaca, estava a cláusula de possibilidade de saída do local (fosse por desejo do lojista ou do administrador) com o prazo de, no máximo, 30 dias. Mesmo se assustando com o ponto contratual, os comerciantes assinaram o vínculo, muito por conta da necessidade de manter o negócio de pé. Celi, agora, admite que a cláusula “os matou”.

A gente ficou inseguro desde o início, mas não tínhamos outra chance. Ficamos um ano fechados por conta da pandemia e precisávamos dar continuidade ao nosso negócio. Essa cláusula nos matou. Quando recebemos o aviso, já estávamos trabalhando. A gente se juntou, nos mobilizamos. A gente tentou se organizar, entrando com liminar, pra tentar ficar no local. Mas muitos lojistas estão com depressão e problemas financeiros, não tem condições”, admite.

Grosseria e sumiço: conheça quem é apontado como o responsável pela crise do Alto da XV Mall

Por trás da grave crise que ronda o local está o nome de Marcello Almeida, um empresário que vive no Rio de Janeiro e que passou a administrar o Alto da XV Mall.

Localizado no centro de Curitiba, o Alto da XV Mall foi fundado em 2020, meses antes do início da pandemia da Covid-19. O shopping abriga mais de cem lojas. Elas abrangem uma variedade de segmentos, desde vestuário, brinquedos, cosméticos a eletrônicos, e oferece ainda uma intensa programação de eventos.

Celi conta que ele, que se envolveu diretamente na vida do estabelecimento após um fracasso de relação empresarial com um grupo administrativo, não cumpriu promessas feitas aos lojistas.

Alto da XV Mall, em Curitiba(Foto: Divulgação)

Os antigos proprietários devolveram a administração pro Marcello Almeida. Ele fez muitas promessas, que eram justamente pra tentar aumentar o movimento aqui dentro. Uma delas era a construção de uma academia que, acreditávamos, estaria na parte interna. Ficamos um ano comendo terra por conta das obras para, no fim, a academia ficar na parte externa. Isso não mudou o movimento porque as pessoas não têm necessidade de entrar no shopping”. 

Sem retorno dos contatos feitos com Marcello Almeida (o espaço segue aberto), a reportagem do portal iG teve acesso a uma nota divulgada por ele aos comerciantes. Nela, Marcello afirma que “não está autorizado” a divulgar e comentar decisões.

“Prezados,

Em reunião do Conselho da empresa, realizada em dezembro do ano passado, fui substituído no cargo de síndico do condomínio e deixei de atuar como representante da empresa proprietária do Alto da XV Mall.

Desde então, por obrigação legal, não estive autorizado a divulgar, comentar ou antecipar decisões, tendências ou posições dos sócios e do Conselho.

Estou convicto de que a empresa permanecerá aberta ao diálogo e à busca das melhores soluções possíveis para as partes, dentro dos limites legais aplicáveis.

Atenciosamente, Marcello”

E o futuro? Celi encaminha ida para outro local e Cléo quer prazo de saída prorrogado

Celi e Cléo, agora, buscam um novo futuro para a vida profissional. Tendo que deixar para trás uma história construída ao longo dos últimos anos e clientes que se tornaram fieis, a dupla, agora, busca seguir o seu próprio destino profissional.

Celi Lobo está se encaminhando para um novo espaço, em Curitiba. Ela levará a loja Di Vetro Perfumes para a rua Camões, localizada no centro da cidade. Ainda sim, a troca de espaço é, no máximo, apenas um alívio. Ela não esconde a tristeza da mudança, especialmente pelo local e pelos funcionários que pode ser obrigada a deixar para trás.

O impacto da decisão é horrível pra nós. Estou aqui há 30 anos, faturamos 30% do esperado durante o natal, por exemplo. Estou estocada, cheia de produtos e boletos. Sem falar da parte operacional, dos funcionários, seria horrível ter de perder funcionários que estão há 10, 15 anos comigo. Espero não precisar fazer isso. Nos trataram com desrespeito, estou muito triste”, diz Celi.

Cléo, por sua vez, espera que haja uma consideração final por parte do grupo e que o prazo de 30 dias para a saída seja estendido.

Sou adimplente, já tive até mais de uma loja lá dentro, agora só tenho uma. A situação financeira está bem difícil. Muita gente tirou dinheiro do próprio bolso pra tentar ficar ali. Estou sem condições de buscar algo via justiça. A única coisa que eu queria era um prazo maior de 30 dias. É muito pouco”.

Adicionar aos favoritos o Link permanente.