
Isso não é propaganda, mas você lembra da Tostines?
Em 1984, a marca lançou um comercial que ficou famoso por uma pergunta aparentemente simples e profundamente irritante:
“Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?”
Na época parecia apenas uma sacada publicitária brilhante de Enio Mainardi. Mas, pensando melhor, aquilo é quase uma provocação filosófica.
A pergunta nos coloca dentro de um círculo. O que vem primeiro? A qualidade que gera venda? Ou a venda que mantém a qualidade?
Dias atrás, fiz um vídeo sobre a Dra. Tatiana Sampaio, cientista brasileira que desenvolveu um caminho promissor para a regeneração neural, algo que pode mudar a vida de muita gente. Para que sua pesquisa não morresse, ela precisou colocar dinheiro do próprio bolso. Também fiz um texto sobre o assunto aqui na minha coluna.
O ponto era simples: o quanto valorizamos quem realmente constrói algo relevante neste país.
Mas basta olhar os comentários, tanto no vídeo quanto no texto, para perceber como a conversa se desloca.
Em vez de discutir ciência, inovação ou reconhecimento, o debate vira disputa eleitoral. Culpa do Lula. Culpa do Bolsonaro. Culpa da Dilma. Culpa do Temer.
E é aqui que a questão muda de dimensão. Talvez não seja apenas sobre política. Talvez seja sobre como nos acostumamos a transformar qualquer assunto em torcida. Quase um reflexo condicionado.
E quem alimenta isso? Nós, ou o algoritmo que identifica nossa indignação e devolve mais do mesmo?
A pergunta da Tostines reaparece. E, junto dela, o clássico dilema do ovo e da galinha. A ciência já resolveu: o ovo veio antes. Mas, uma vez iniciado, o ciclo se retroalimenta.
Todo ciclo começa em algum lugar
O conteúdo raso faz sucesso porque as pessoas gostam? Ou as pessoas passam a gostar porque é o que mais aparece? O algoritmo mostra o que você quer ver ou você passa a querer o que o algoritmo mostra?
Há respostas possíveis.
Tostines vende mais porque é fresco.
O ovo veio antes da galinha.
E o algoritmo aprende com você. Ele observa seu tempo de tela, mede seus cliques, sua retenção, sua indignação.
Se você consome apenas vídeos que detonam políticos, ele se transforma numa máquina de indignação. Se consome apenas distração vazia, ele vira uma fábrica de superficialidade.
Não é apenas culpa do algoritmo. Também não é apenas responsabilidade do indivíduo. É sobre o ciclo que decidimos alimentar.
E, diferentemente da Tostines, aqui nós podemos escolher o que ajudamos a vender.
A pergunta deixa de ser “quem veio primeiro” e passa a ser outra: que tipo de ciclo estamos ajudando a manter?
Enquanto discutimos, há gente fazendo.
- Anna Luísa Beserra desenvolveu um sistema movido a energia solar que leva água potável a comunidades sem saneamento.
- Matheus Henrique Dias pesquisa novas estratégias contra o câncer colorretal.
- Miguel Nicolelis criou tecnologias que auxiliam na reativação de circuitos cerebrais após lesões na medula.
- Luciano Moreira lidera pesquisas com a bactéria Wolbachia para reduzir a transmissão de dengue e Zika pelo Aedes aegypti.
- Nuno Abílio utiliza inteligência artificial para acelerar diagnósticos de doenças infecciosas.
Eles existem. Estão trabalhando. Estão produzindo.
Talvez a pergunta mais importante não seja sobre biscoitos, ovos ou algoritmos.
Talvez seja esta: a quem estamos dando atenção?
Te proponho escolher um desses pesquisadores para colocarmos cinco minutos e conhecer um pouco mais seu trabalho. É assim que os ciclos começam e continuam.
Eu, pessoalmente, acho que este é um ciclo que vale a pena alimentar.
