
“Se eu chegar em você, você não vai nem ver eu chegando, parceiro!”
A ameaça, feita durante uma videochamada por um homem que não se identifica, resume o tom da cobrança de uma dívida de R$ 200 mil em nome de um “ganso” (informante) de policiais civis de de São Paulo executado em novembro de 2025, em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, e hoje no centro da guerra na Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo por conta de uma operação que resultou, de acordo com a investigação, no desvio de 450 quilos de cocaína da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital).
Alvo da amaeça, o empresário Jorge Vinicio Aquino de Andrade, indiciado pela Corregedoria por associação para o tráfico e usurpação de função pública (agir se passando por policial civil, no caso) na investigação que apura o desvio de 450 quilos de cocaína apreendidos em Rubineia, interior de São Paulo, transformou-se de parceiro informal de policiais em personagem-chave de uma trama que mistura extorsão, silenciamento de testemunhas e disputa de versões dentro do próprio Estado.
Nas videochamadas, o autor das ameaças fala em nome de “Tiago do Mato Grosso”, identificado hoje como Tiago Lobo, informa que já recebeu parte do dinheiro para “tirar de circulação” o empresário, menciona a delegada Camilla Tavares de Albuquerque, responsável pela investigação na 5ª DCF (Delegacia de Crimes Funcionais), da Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo, e cobra que Jorge ajude a recuperar “cinco milhão” ligados ao investigador Cléber Rodrigues Gimenez, apontado pela própria Corregedoria como chefe do maior esquema de corrupção e tráfico de drogas da história recente da corporação paulista.
As gravações, analisadas nos processos que tratam da colaboração interrompida de Tiago Lobo, expõem a engrenagem na qual informantes, policiais e facção criminosa se cruzam, sustentada pela mesma lógica que desviou cocaína do PCC, tentou usar a delação como ferramenta de controle e terminou em execução à queima-roupa no Mato Grosso do Sul.
No primeiro vídeo, o homem não identificado afirma que “Tiago do Mato Grosso” ofereceu R$ 50 mil para “pegar” Jorge Vinicio e que já havia enviado R$ 10 mil como sinal. Diz ainda que “a corregedoria comeu dinheiro” para não denunciar determinadas pessoas e que foi o próprio Tiago quem denunciou Jorge por envolvimento no desvio de 450 quilos de cocaína.
No segundo vídeo, o autor menciona a “doutora Camila” e afirma que ela mantinha contato direto com Tiago, “ligava direto para ele”. O terceiro vídeo é o mais longo e detalhado. Nele, o homem cobra R$ 200 mil de Jorge “em nome de Tiago”, faz referência a um “susto na corregedoria” e à relação entre o informante e o órgão fiscalizador dos policiais civis de São Paulo. Menciona que “Gimenez está na rua” e fala em uma dívida de R$ 5 milhões, ameaçando a mãe de Jorge, sua casa, seus familiares e sua oficina mecânica. Jorge nega dever qualquer quantia.
As gravações formam um mosaico de intimidação que cruza dois universos: o do crime organizado e o da investigação policial. O fato de o autor citar com naturalidade tanto o informante executado quanto a delegada da Corregedoria e o investigador Cleber Rodrigues Gimenez, preso anteriormente também por suspeita de desvio de carregamentos de drogas, revela que as fronteiras entre esses mundos não apenas se borram, mas se alimentam mutuamente.

Tabuleiro do pó
Para compreender a dimensão das ameaças do homem não identificado contra o empresário Jorge Vinicio, é necessário reconstruir a trama que começou na divisa de São Paulo com Mato Grosso do Sul. Em 26 de maio de 2024, três investigadores do 77º Distrito Policial (Santa Cecília), no centro da capital de São Paulo, Alexandre Idalgo Peres, Rafaela Bertoletti e Alberto Solano de Araújo, interceptaram um caminhão Volvo na rodovia Euclides da Cunha, no município de Rubineia, com aproximadamente 450 quilos de cocaína “tipo exportação” escondidos sob uma carga de milho.
O que parecia uma grande apreensão policial passou a ser investigado como uma operação montada. Pela investigação, antes da apresentação da quase meia tonelada de cocaína no 77º Distrito Policial, a droga foi trocada e desviada pelos policiais, que exibiram e apreenderam substância de qualidade ou quantidade inferior.
Os investigadores haviam partido de São Paulo em 21 de maio e se hospedado no Hotel Firenze, em Votuporanga, cidade próxima a Rubineia, onde permaneceram até o dia 25. No mesmo hotel estavam Jorge Vinicio, registrado entre os dias 21 e 23, e o taxista Julio Cesar Mariano, entre 21 e 24. Todas as despesas, superiores a R$ 4 mil, foram pagas por Rafaela Bertoletti.
O motorista do caminhão, Diego Russo Castilho, preso em flagrante, confirmou à Corregedoria que a Amarok branca conduzida por Jorge e Julio Cesar o seguia desde um posto de combustíveis em Mato Grosso do Sul. Afirmou que, no momento da abordagem, os dois ocupantes do veículo estavam armados e se apresentaram como policiais civis. Dados de estações rádio-base dos celulares dos investigados corroboraram a presença de todos no local e no período descrito.
Num ato que a própria Corregedoria classificou como de “singular eficiência”, o pedido de destruição das drogas foi feito no dia seguinte à apreensão. A cocaína foi incinerada sem que houvesse perícia no caminhão, fato questionado pelo Poder Judiciário.
Tiago Lobo: o “ganso”
Em 15 de janeiro de 2025, a Corregedoria recebeu um relatório no qual um homem que se apresentava como Tiago Lobo dizia ter informações sobre a apreensão dos 450 quilos de cocaína “tipo exportação” em Rubineia. Ouvido por videoconferência, Tiago declarou que ele próprio havia repassado ao investigador Cléber Gimenez as informações sobre a chegada do caminhão, recebendo R$ 280 mil em recompensa.
Tiago confirmou a amizade com Jorge Vinicio, detalhou a participação de Julio Cesar Mariano, a quem chamava de “Julinho”, e do motorista Carlos de Menezes Mendes, apelidado de “Cabeça”, que levou o cão farejador para localizar a droga sob a carga de milho. Deixou claro que Jorge e Julinho se passavam por policiais civis, ostentando arma e distintivo. Segundo Tiago, as drogas eram destinadas a Cléber Gimenez, a quem cabia realizar o “vira” ou “truque”, apoderando-se da carga real e substituindo-a na delegacia por material inferior.
A informação encontrou eco direto no esquema maior atribuído a Gimenez. Segundo apuração da Corregedoria, a empresa 1000 Graus Comércio de Veículos, de propriedade do investigador, movimentou R$ 81 milhões em cinco anos, com um funcionário em seu quadro. O esquema envolvia informantes no Mato Grosso do Sul que rastreavam carregamentos de drogas, abordagens falsas na divisa dos estados e a posterior venda da cocaína desviada. Na casa de um dos comparsas de Gimenezz, Maxwell Pereira da Silva, agentes encontraram R$ 2,9 milhões em espécie, um Porsche, um Volvo e duas caminhonetes.
Gimenez foi preso pela Corregedoria da Polícia Civil em fevereiro de 2025. Sete meses depois, em setembro, ele foi solto.
Há conexões ainda mais profundas. O ganso relatou à Corregedoria que a droga apreendida em Rubineia pertencia a Gilberto Aparecido dos Santos, o Fuminho, apontado como braço direito de Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, chefão do PCC. Fuminho, foragido por mais de 20 anos, foi preso em Moçambique em 2020 e extraditado para o Brasil, onde cumpre pena em presídio federal. A rede de tráfico internacional descrita por Tiago envolvia ações na fronteira com o Paraguai, transporte em fundos falsos de caminhões e distribuição para diversos pontos do país.
A delação que virou silêncio
Tiago Lobo não apenas denunciou o esquema. Ele também começou a negociar uma colaboração premiada. A cronologia mostra que a delegada Camilla Tavares de Albuquerque fez contato com Tiago em fevereiro de 2025, informando que o pedido de colaboração estava em andamento e que ele precisava contratar advogado para formalizar o acordo.
Sem resposta, a delegada enviou e-mail em 27 de fevereiro com prazo de 20 dias. No mesmo dia, os documentos com as denúncias de Tiago foram protocolados no Tribunal de Justiça de São Paulo. O Ministério Público tomou ciência em 10 de março, e o promotor Fernando Henrique de Moraes Araújo, da 44ª Promotoria de Justiça Criminal da Capital, registrou que aguardava os próximos passos da colaboração premiada.
A delegada redigiu novo ultimato em 21 de março, concedendo cinco dias para manifestação definitiva de Tiago. A resposta dele chegou em 27 de março, e mudou completamente o rumo do caso. Em e-mail encaminhado à Corregedoria e ao advogado Danilo Reis, Tiago recuou integralmente. Escreveu que, na videoconferência, “foi registrado que eu tinha interesse em realizar uma delação premiada, o que não corresponde com a verdade dos fatos“, e pediu para ser tratado “na condição única e exclusiva de testemunha“.
A reviravolta levantou ao menos duas hipóteses na investigação: Tiago foi pressionado ou ameaçado entre uma comunicação e outra, o que o levou a recuar para sobreviver, ou o advogado avaliou que a condição de delator premiado expunha o informante a riscos letais sem garantia de proteção efetiva. O Ministério Público registrou, em abril de 2025, apenas “ciente do desinteresse em celebração de termo de colaboração premiada”.
Fala, Jorge!
Quando foi interrogado sobre sua participação na apreensão dos 450 quilos de cocaína, Jorge Vinicio Aquino de Andrade se apresentou-se como empresário, solteiro, morador do Parque Cruzeiro do Sul, na zona leste de São Paulo. E narrou uma versão dos fatos que, nos meses seguintes, seria questionada peça por peça pela Corregedoria da Polícia Civil.
A história oferecida por Jorge era a de um homem simples que tinha uma cadela chamada Mila. A cadela era inquieta demais para casa, segundo ele, e havia sido enviada ao canil New Dog, em Mogi das Cruzes (Grande São Paulo), onde Ricardo, o proprietário, a treinou como farejadora. Quando os policiais do 77º Distrito Policial precisaram de um cão para uma operação no interior, a investigadora Rafaela Bertoletti ligou pedindo o animal emprestado. Jorge concordou. Em nome da amizade.
No caminho até o interior, uma coincidência extraordinária: Rafaela ligou novamente, dizendo que estava na mesma estrada. Os dois se encontraram. Jorge ficou um ou dois dias num hotel cujo nome não lembrava. Depois, acompanhou a abordagem de longe, filmou a ação, entregou as imagens à investigadora e seguiu viagem. Nunca portou arma. Nunca se passou por policial. Nunca recebeu dinheiro. Nunca participou de operação policial alguma. Nunca agiu como “ganso”.
Foi uma narrativa cuidadosamente construída. Cada frase ocupava um espaço estratégico, cada omissão abria caminho para a negação seguinte. Mas a construção tinha falhas estruturais que só o cruzamento com os demais elementos da investigação revelaria.
O rastreamento do quinteto
A primeira fissura na fala de Jorge veio do Hotel Firenze, em Votuporanga, interior de São Paulo. Os documentos rastreados pela Corregedoria mostraram que Jorge Vinicio se hospedou ali entre 21 e 23 de maio de 2024, no mesmo período em que os policiais civis Alexandre Idalgo, Rafaela Bertoletti e Alberto Solano ocupavam quartos do mesmo estabelecimento. As diárias de todos os envolvidos, incluindo as de Jorge, foram pagas por Rafaela. O valor total ultrapassou R$ 4 mil, quantia incompatível com as diárias institucionais pagas pela Polícia Civil.
Se Jorge estava no mesmo hotel, desde o primeiro dia da operação, com despesas pagas pela investigadora que supostamente o encontrou por acaso na estrada, a coincidência deixa de ser coincidência e se torna logística. Ele não cruzou o caminho dos três policiais civis: estava com eles desde o início.
As ERBs (Estações Rádio Base, torres de transmissão de sinal de celular) confirmaram o trajeto. O celular de Jorge foi detectado em Votuporanga entre 21 e 23 de maio. No dia 23, por volta das 15h, deixou a cidade em direção à divisa com o Mato Grosso do Sul, onde permaneceu até o dia 25. No dia 26, foi detectado em Rubinéia, exatamente no horário da abordagem do caminhão. Após a operação, seguiu direto para a capital, com ERB registrada em São Paulo às 23h08.
Passageiro invisível
A segunda fissura na fala de Jorge foi estrutural. Jorge não mencionou Julio Cesar Mariano. A omissão é absoluta: nenhum nome, nenhuma referência, nenhuma alusão. Para a narrativa de Jorge funcionar, ele precisava estar sozinho na Amarok. Um viajante solitário que encontrou policiais na estrada.
A realidade era outra. Julio Cesar Mariano estava na Amarok desde a saída de São Paulo. Jorge o convidou porque sua CNH estava suspensa, impedindo-o de conduzir legalmente o veículo por mais de 600 quilômetros. Os dois se hospedaram juntos no Hotel Firenze, Julio no quarto 703, de 21 a 24 de maio, com custos igualmente lançados na conta da investigadora Rafaela.
Julio Cesar, ouvido pela investigação, não teve a mesma cautela. Confirmou a viagem, confirmou a hospedagem, admitiu que sabia tratar-se de um caminhão de drogas. E entregou o detalhe que Jorge cuidadosamente escondia: que o convite não foi por amizade, mas por dinheiro. “Jorge perguntou ‘quer ganhar um dinheiro?'”, declarou Julio. Depois perguntou se Julio dirigiria para ele.
Quando Diego Russo Castilho, o motorista do caminhão que transportava a droga, prestou seu segundo depoimento à investigação, confirmou sem hesitação: dois homens desceram da Amarok branca na abordagem, ambos armados de pistola, ambos apresentando-se como policiais civis. Confrontado com fotografias, reconheceu Jorge Vinicio e Julio Cesar como os ocupantes do veículo.
Para os investigadores não ficou qualquer dúvida de que Julio Cesar e Jorge Vinicio se passaram por policiais civis no ato da abordagem, chegando a exibir distintivos e armas de fogo.
A filmagem
Jorge disse que filmou a abordagem de longe e entregou o material a Rafaela. A investigação analisou as imagens. Identificou filmagens feitas por alguém que claramente participava da apreensão da droga, com momentos em que se passaram, inclusive, na carroceria do caminhão. Quem está dentro da carroceria de um caminhão abordado, filmando a droga, não é espectador distante. É operador da cena.
Jorge também mencionou ter visto uma Chevrolet Spin azul escuro no local, que o teria fotografado. O veículo pertencia à DISE de Taboã da Serra, que mantinha investigação sobre o mesmo caminhão havia cerca de um ano e se fez presente logo após a abordagem dos investigadores do 77º DP. Policiais da DISE haviam consultado a placa do caminhão no dia anterior à ocorrência. Jorge percebeu a vigilância, mas declarou não compreender o que o veículo fazia ali. Para a investigação, a percepção seletiva revela consciência de quem sabia que a operação era irregular.
Quem é quem: tiras, trutas e “gansos”
A investigação indiciou de cinco pessoas por suspeita de desvio dos 450 quilos de cocaína apreendidos em Rubineia: os investigadores Alexandre Idalgo, Rafaela Bertoletti e Alberto Solano, e os “gansos” Jorge Vinicio e Julio Cesar Mariano, por associação para o tráfico e usurpação de função pública.
Alexandre Idalgo Peres
Investigador de Polícia do 77º DP, Alexandre Idalgo era integrante da equipe e coautor do Relatório de Investigações que fundamentou o flagrante contra Diego Russo Castilho. Alexandre confirmou que Jorge Vinicio “emprestou” a cadela farejadora Mila para a diligência e disse que o empresário apareceu “casualmente” na operação, uma versão que a própria investigação classificaria como inverossímil.
Os registros de ERB revelaram que Alexandre esteve na região de Santa Clara D’Oeste no dia 26 de maio, data da apreensão, e em Votuporanga entre os dias 21 e 25 de maio de 2024. Hospedou-se no Hotel Firenze, em Votuporanga, no mesmo período, ao lado dos demais integrantes da operação. O informante Tiago Lobo afirmou à investigação que Alexandre viajou ao Mato Grosso do Sul para encontrá-lo pessoalmente, detalhe que reforça a suspeita de que o investigador possuía uma relação direta com a cadeia de informantes que alimentava o esquema de desvio de drogas.
Rafaela Bertoletti
Investigadora de Polícia do 77º DP, Rafaela era a outra coautora do Relatório de Investigações e peça central na logística da operação. Ela admitiu ter contatado Jorge Vinicio para providenciar a cadela farejadora e ter contratado o motorista Carlos de Menezes Mendes, o “Cabeça”, para transportar o animal e o adestrador até o interior paulista.
Um dado financeiro chamou a atenção dos investigação: foi Rafaela quem pagou a hospedagem de todos os envolvidos no Hotel Firenze, em valores superiores a R$ 4.000, somados a gastos com alimentação, utilizando formas variadas de pagamento, dinheiro, PIX e cartão.
A investigadora residia em Guararema (Grande São Paulo) e os registros de ERB a colocaram junto com Jorge Vinicio naquela cidade no dia 20 de maio de 2024, véspera do deslocamento para o interior. Na audiência judicial sobre a prisão de Diego Russo, em Santa Fé do Sul, Rafaela sustentou que a equipe agiu com base em “trabalho de inteligência” e que o motorista confessou informalmente a presença de drogas, versão que o próprio Diego negou em juízo.
Alberto Solano de Araújo
Investigador de Polícia do 77º DP desde dezembro de 2023, Alberto foi descrito como responsável por funções de “apoio”, que incluíam pesquisas em sistemas, direção de viatura e campana. Ele relatou que, na viagem de volta a São Paulo, seguiu no caminhão ao lado de Diego Russo, o motorista preso. Também foi ele quem entregou o celular do preso e o conduziu à carceragem do 77ºDP.
Alberto hospedou-se no Hotel Firenze entre 21 e 25 de maio de 2024, confirmando a permanência prolongada da equipe no interior antes da abordagem. Um detalhe relevante surgiu em seu depoimento: Alberto disse ter ficado sabendo que o delegado Márcio Fruet, da DISE (Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes) de Taboão da Serra (Grande São Paulo), enviou a Cícero Ricardo Rocha, chefe dos investigadores do 77º DP, uma fotografia dos três veículos da equipe trafegando em comboio na rodovia, acompanhada de um alerta sobre suposta “tentativa de resgate”.
Amigos, motoristas e “gansos”
A operação de Rubineia não envolveu apenas policiais. Ao menos quatro civis participaram ativamente da diligência, exercendo funções que vão do transporte de um cão farejador à filmagem da abordagem. Nenhum deles possuía qualquer vínculo formal com a Polícia Civil. Todos são tratados como peças de um esquema que misturava relações pessoais, pagamentos informais e cumplicidade deliberada.
Jorge Vinicio Aquino de Andrade
Civil, 36 anos, empresário, Jorge Vinicio é o personagem mais complexo da trama. Dono da cadela farejadora Mila, adquirida do Canil New Dog, em Mogi das Cruzes (Grande São Paulo), ele é apontado como participante direto da abordagem na SP-320, filmando as ações da equipe de dentro da carroceria do caminhão.
A investigação identificou nas mídias apreendidas imagens que o colocam claramente participando da ocorrência, inclusive sobre a carga do caminhão durante a busca. Em seu depoimento, Jorge afirmou conhecer o policial Alexandre pelo genitor e depois Rafaela, de quem disse ser “amigo próximo”. Disse ter recebido uma ligação “casual” de Rafaela pedindo a cadela emprestada. Omitiu a presença de Julio Cesar Mariano e afirmou nunca ter participado de operação policial, uma mentira desmentida pelo BO DG2309/2024, de março de 2024, que registra uma ocorrência anterior envolvendo os mesmos atores.
Os registros de ERB mapeiam seu trajeto com precisão: Votuporanga entre 21 e 23 de maio, Nhandeara no dia 21, onde reside a mãe de Julio Cesar, divisa com o Mato Grosso do Sul entre 23 e 25 de maio, Rubineia no dia 26, e retorno a São Paulo capital às 23h08 do mesmo dia.
Durante a busca em sua residência, a investigação encontrou uma grande quantia de dinheiro e uma arma de fogo. Em seu depoimento à investigação, Jorge sustentou a versão de que sua participação foi fortuita. A investigação demonstrou o contrário.
Tiago Lobo, o informante executado em Campo Grande (MS), em novembro de 2025, afirmou que Jorge Vinicio e “Julinho”, referindo-se a Julio Cesar, se passavam por policiais com arma e distintivo durante as abordagens. A informação transforma Jorge de mero dono de cachorro em agente suspeito de um esquema que simulava operações policiais para desviar drogas.
Julio Cesar Mariano
Civil, amigo de Jorge Vinicio há 25 anos, do mesmo bairro e da mesma escola. Julio Cesar foi quem dirigiu a Amarok branca durante a operação, porque Jorge estava com a CNH suspensa. À investigação, ele confirmou a presença de todos os envolvidos e foi quem apelidou Carlos de Menezes Mendes de “Cabeça”, revelando que se tratava de um ex-namorado da irmã de Jorge.
Julio Cesar descreveu o interesse de Jorge pela atividade policial com uma frase reveladora: disse que o amigo tinha a cadela porque gosta de policiais, o pai era militar. Também relatou que Jorge o convidou para a viagem perguntando “quer ganhar um dinheiro?”. Hospedou-se no Hotel Firenze entre 21 e 24 de maio de 2024, quarto 703, pago por Rafaela Bertoletti.
Na busca em sua residência, a investigação apreendeu uma sirene veicular, equipamento típico de viaturas policiais, e uma pequena quantidade de maconha. As ERBs confirmam sua presença em Nhandeara, onde reside sua mãe, no dia 21 de maio, e posteriormente em Votuporanga, na divisa com o Mato Grosso do Sul, e em Rubineia no dia da apreensão.
Diego Russo Castilho, o caminhoneiro preso, reconheceu Julio Cesar por fotografia, identificando-o pelo “tipo de corpo” como um dos homens armados que se apresentaram como policiais durante a abordagem.
Carlos de Menezes Mendes, o “Cabeça”
Motorista de aplicativo Uber, Carlos dirigia um Honda/Fit. Ex-namorado da irmã de Jorge Vinicio, foi recrutado pela policial civil Rafaela Bertoletti para prestar serviço de transporte: buscou o cão farejador Mila e o adestrador Raul Rocha no Canil New Dog, em Mogi das Cruzes, e os levou até Rubineia. Hospedou-se no Hotel Firenze entre 24 e 25 de maio de 2024, recebendo R$ 800 pelo serviço mais R$ 500 para combustível.
Um detalhe forense pode ser decisivo para seu futuro processual: os laudos periciais identificaram vestígios de cocaína no interior do Honda/Fit. A presença da droga no veículo indica que, em algum momento, a cocaína apreendida pode ter passado pelo carro de Carlos, corroborando a versão de que parte da carga foi transportada separadamente da viatura policial.
Tiago Lobo descreveu a função de “Cabeça” com precisão: segundo o informante, era ele quem “levava o cão farejador” para as operações. A descrição transforma Carlos de simples motorista de Uber em um suspeito de ser integrante operacional do esquema.
Raul Rocha de Oliveira
Adestrador de cães, funcionário do Canil New Dog, Raul acompanhou a cadela Mila até Rubineia para garantir que ela executasse corretamente o faro. Hospedou-se no Hotel Firenze entre 24 e 25 de maio de 2024 e, segundo a investigação, foi Mila, sob sua condução, quem identificou a cocaína na parte dianteira da carroceria do caminhão. Raul disse à investigação que não recebeu pagamento específico dos policiais pela participação, um dado que o distingue dos demais civis envolvidos.
Marcos Ricardo Cardoso
Proprietário do Canil New Dog, em Mogi das Cruzes, Marcos treinou a cadela Mila como farejadora e a vendeu a Jorge Vinicio, a quem se referiu pelo nome “Vinícius”. Afirmou que o comprador não se adaptou ao animal e que aquela era a primeira vez que emprestava a cadela para um “trabalho”. A afirmação, porém, é contradita pelo BO DG2309/2024, de março de 2024, que registra um caso anterior com os mesmos atores e a mesma cadela. A contradição sugere que a relação entre o canil e os envolvidos na operação não era pontual, mas recorrente.
