Pleno emprego no Brasil? “Dados escondem baixa produtividade”, diz especialista

Pleno emprego no Brasil

Os dados recentes do mercado de trabalho reacenderam o debate sobre o pleno emprego no Brasil. A taxa de desemprego próxima de mínimas históricas sugere um mercado aquecido, mas a leitura não é tão simples. Para Marco Saravalle, estrategista da MSX Invest | Krivo, o indicador pode esconder fragilidades estruturais da economia brasileira.

O país vive uma situação em que o número de ocupados cresce, porém a qualidade dos postos de trabalho não acompanha esse movimento”, analisa.

A taxa de desocupação em torno de 5% poderia indicar um ambiente econômico robusto, mas, ao observar a composição do emprego, surge um ponto de atenção: a informalidade permanece elevada, próxima de 40%.

Isso significa que parte relevante dos trabalhadores está fora de vínculos formais, com menor renda média, menor estabilidade e menor produtividade.

Pleno emprego no Brasil? Número de trabalhadores cresce, produtividade não

O principal problema, na avaliação do estrategista, não está apenas na quantidade de vagas criadas, mas na capacidade produtiva da economia. Em um cenário clássico de pleno emprego, o crescimento do trabalho deveria impulsionar fortemente o Produto Interno Bruto (PIB). No Brasil, isso não ocorre com a mesma intensidade.

A explicação passa pela estrutura do mercado. O país vem gerando empregos principalmente em serviços de baixa produtividade, enquanto setores mais intensivos em capital e tecnologia avançam mais lentamente.

Essa dinâmica ajuda a entender por que a economia não acelera na mesma proporção do mercado de trabalho. Com a produção limitada e a demanda aquecida, o efeito acaba sendo transmitido para os preços.

Emprego, inflação e juros

O quadro descrito pelo especialista conecta diretamente mercado de trabalho e política monetária. Quando a demanda cresce acima da capacidade produtiva, a inflação tende a subir. Diante disso, o Banco Central precisa atuar elevando ou mantendo juros elevados para conter o consumo.

Na prática, isso cria um ciclo:

  • mais pessoas empregadas;

  • maior consumo;

  • pressão inflacionária;

  • manutenção de juros altos,

Ou seja, mesmo com desemprego baixo, a economia não necessariamente entra em expansão sustentável.

Discussão sobre o pleno emprego no Brasil e o debate sobre a escala 6×1

A discussão sobre mudanças na jornada de trabalho também entra nesse contexto. A proposta de acabar com a escala 6×1, hoje em debate político, pode ter efeitos indiretos no mercado.

Na visão econômica apresentada por Saravalle, alterações que elevem o custo de contratação podem gerar três respostas típicas das empresas:

  1. redução de contratações

  2. aumento da automação

  3. migração para informalidade

A medida poderia impactar justamente os trabalhadores de menor qualificação, mais sensíveis a mudanças no custo do trabalho“, avalia.

O desafio estrutural

O debate sobre o pleno emprego no Brasil passa, portanto, por um ponto estrutural: produtividade. A economia pode apresentar baixa taxa de desemprego sem necessariamente estar forte.

Na avaliação do estrategista, o país enfrenta um cenário de “baixo desemprego estatístico”, mas ainda distante de um pleno emprego sustentável. O desafio não é apenas gerar vagas, e sim aumentar a eficiência econômica, formalizar trabalhadores e elevar a produtividade.

Sem esse avanço, o mercado de trabalho aquecido tende a produzir mais inflação do que crescimento econômico consistente“, conclui.

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