Morte em interlagos: “O segurança foi dar um mata-leão no cara”

Empresário Adalberto Amarílio Júnior foi encontrado morto no Autódromo de Interlagos, em São PauloReprodução/redes sociais

“Isso vai dar muito pano pra manga. O segurança foi dar um mata-leão no cara.” A frase, que consta em um depoimento prestado à polícia, teria sido dita por um segurança que trabalhou no Autódromo de Interlagos, na Zona Sul de São Paulo, na noite em que o empresário Adalberto Amarílio Júnior, de 36 anos, desapareceu. Segundo o relato, ele teria ouvido boatos entre os vigilantes sobre uma confusão envolvendo seguranças do evento, que poderia estar relacionado à morte do empresário. 

Ao todo, dez pessoas foram ouvidas pela Polícia Civil no inquérito que apura o caso. O corpo de Adalberto foi encontrado no dia 3 de junho de 2025, após quatro dias desaparecido, nas dependências do próprio autódromo, onde ele havia participado do evento de motociclismo “Suhai Duas Rodas”.

De acordo com a investigação, o corpo foi localizado dentro de um buraco por funcionários de uma obra em andamento no local. Sobre a vítima estava o capacete utilizado, porém sem a câmera a qual ele havia registrado o evento. 

Adalberto foi encontrado no dia 3 de junho de 2025Reprodução/ Redes Sociais

Mata-leão 

A testemunha protegida pela Justiça afirmou à polícia que ouviu, no dia 5 de junho, comentários segundo os quais Adalberto Amarílio Júnior poderia ter morrido em decorrência de um “mata-leão”. De acordo com o depoimento, a frase teria sido dita por um segurança de ronda durante uma conversa informal com outra funcionária que atuava no Autódromo de Interlagos.

Segundo a testemunha, que trabalhou no evento no dia do desaparecimento do empresário, ela não foi informada sobre nenhuma briga ou ocorrência relevante naquela data e só tomou conhecimento do desaparecimento em 31 de maio. Ainda conforme relatou, após saber do caso, ajudou nas buscas ao lado da esposa da vítima, Fernanda Dândalo, chegando a acompanhá-la até o estacionamento do autódromo, onde Fernanda colou cartazes com a foto do marido e o aviso de desaparecimento.

O empresário Adalberto Júnior e sua esposa, Fernanda Grando DândaloReprodução/redes sociais

A depoente afirmou ainda que, na segunda-feira seguinte, em 2 de junho, Fernanda retornou ao local, mas teria sido impedida de entrar nas dependências do autódromo. Segundo a testemunha, a esposa do empresário demonstrava indignação pelo fato de o carro do marido continuar estacionado no evento, sem que lhe fossem dadas informações sobre o que havia ocorrido.

As primeiras buscas

Fernanda Grando Dandalo, esposa de Adalberto Amarílio Júnior, afirmou que, ao se dirigir ao Autódromo de Interlagos, foi orientada por uma base da Polícia Militar próxima ao local do evento a registrar um boletim de ocorrência por desaparecimento.

Em seguida, relatou ter conversado com o vigilante que trabalhava no Portão 9. Segundo seu depoimento, ela questionou se o veículo do marido estava estacionado no autódromo e disse ter visto o segurança se comunicar pelo rádio com outra pessoa antes de informar, de forma rápida, que o carro não se encontrava no local.

Cerca de cinco horas depois, Fernanda retornou ao autódromo e localizou o veículo do empresário estacionado na área destinada aos frequentadores do Kartódromo, nas proximidades do Portão 9, o mesmo ponto onde, horas antes, havia questionado o vigilante sobre a presença do automóvel.

No dia 1º de junho, ela se reuniu com organizadores do evento, que informaram que realizariam uma ronda nas dependências do autódromo em busca de Adalberto.

Localização do corpo

Em depoimento à polícia, o carpinteiro José Vieira Campos, que encontrou o corpo de Adalberto Amarílio Júnior, relatou que iniciou as atividades no Autódromo de Interlagos no dia 2 de junho, um dia antes da localização da vítima. Segundo ele, assumiu a obra após a empreiteira anterior deixar o serviço.

Área com buracos onde foi encontrado o corpo do empresárioReprodução TV -Globo

O trabalhador afirmou que, na segunda-feira (2), os trabalhos não haviam sido iniciados devido à garoa no local. Já na terça-feira (3), retornou ao canteiro e começou a atuar por volta das 9h30. Enquanto esticava uma linha para montagem de uma forma de concreto, avistou um capacete e, em seguida, as mãos da vítima. Inicialmente, acreditou que se tratava de um boneco. Ao perceber que era um corpo, chamou o topógrafo e o engenheiro da obra, quando então a Polícia Militar foi acionada.

Questionado sobre a terra e os blocos de concreto localizados próximos ao corpo, o carpinteiro afirmou que o material já estava no local desde a segunda-feira. De acordo com ele, pelo peso e volume, a movimentação exigiria o uso de maquinário. 

Por fim, declarou que qualquer movimentação de máquinas depende de solicitação do engenheiro responsável, que é quem autoriza e orienta os operadores dos equipamentos.

Além do carpinteiro, o engenheiro civil Floriano Augusto também prestou depoimento à polícia. Ele afirmou que, em 31 de maio, houve a movimentação de terra na área, com o objetivo de bloquear a passagem de veículos do estacionamento para a área de obras. Segundo ele, a terra movimentada naquela data não é a mesma encontrada revirada próxima ao corpo de Adalberto Amarílio dos Santos Junior.

Sobre essa segunda movimentação de terra, o engenheiro declarou não saber quando ocorreu e afirmou que possivelmente tenha sido realizada pela construtora que atuava anteriormente no local. 

Depoimento dos seguranças

1. Felipe Santana Déu Felipe Santana Déu, que é vigilante autônomo, afirmou, em depoimento, que atuou na segurança do evento Suhai Duas Rodas, realizado no Autódromo de Interlagos, no período noturno, das 20h às 8h, na madrugada de 31 de maio de 2025, além de ter trabalhado nos demais dias do evento no mesmo horário. Segundo o relato, ele ficou responsável pela vigilância do Portão 9.

Por volta das 2h, Felipe contou que foi procurado por uma mulher que afirmou que o marido, presente no evento, não havia retornado para casa. Ela perguntou se poderia entrar no autódromo para procurá-lo e questionou se o veículo dele estaria estacionado no local.

O segurança declarou que, inicialmente, não deu credibilidade ao relato, supondo que o homem pudesse estar consumindo bebida alcoólica em algum ponto do evento. Mais tarde, disse ter visualizado, com o auxílio de uma lanterna, um veículo estacionado na área do Kartódromo, nas proximidades do Portão 9. No entanto, afirmou que não pôde abandonar o posto para verificar o automóvel e que também não conseguiu se comunicar por rádio, que estaria sem bateria.

Ainda de acordo com o depoimento, o líder responsável pela coordenação da segurança, encarregado da substituição das baterias dos rádios e da entrega de marmitas aos vigilantes não teria cumprido essas funções ao longo da madrugada, além de não responder mensagens por WhatsApp nem atender ligações telefônicas.

O vigilante acrescentou que ouviu comentários entre os seguranças, em conversas informais conhecidas como “rádio peão”, sobre uma confusão ocorrida na região chamada de “subida da obra”, envolvendo três seguranças, um controlador de acesso e uma mulher. Segundo esses relatos, o grupo poderia estar relacionado à morte da vítima.

Policiais estiveram no local para tentar reconstituir os últimos passos de AdalbertoReprodução/Record

2. Leandro de Thallis Pinheiro Além de Felipe, Leandro de Thallis Pinheiro, que também atua como funcionário autônomo e participou do festival em Interlagos, afirmou  não ter presenciado nenhuma briga durante o evento. Explicou que, caso ocorresse alguma ocorrência, a segurança seria acionada via rádio. A equipe utilizava dois aparelhos de comunicação: um da empresa de segurança e outro do evento, o que permitia contato interno e com a produção do festival.

Ele ainda relatou que cada profissional assumiu uma posição previamente definida em lista encaminhada pela empresa responsável. 

3. Oscar Custodio Neto Oscar Custodio Neto, de 39 anos, coordenador administrativo, afirmou em depoimento que tomou conhecimento do caso no dia 2 de junho por meio da imprensa. Ele trabalha há cerca de oito anos na empresa responsável pela segurança do Autódromo de Interlagos.

Segundo Oscar, não houve a circulação de qualquer boato interno relacionado ao desaparecimento e à morte de Adalberto Amarílio Júnior. Questionado sobre a dificuldade de acesso à relação nominal dos seguranças que atuaram nos dias 30 e 31 de maio, afirmou ter sido o responsável pela conferência do documento e garantiu que nenhuma informação foi omitida.

Em relação ao evento, reiterou não ter conhecimento de qualquer briga ou ocorrência relevante. Sobre a ausência do nome de um dos funcionários na lista, declarou que o fato pode ser atribuído a um erro material.

Após os acontecimentos, Oscar relatou ainda que realizou reuniões com seguranças e coordenadores para prestar esclarecimentos. Segundo ele, todos os profissionais ouvidos afirmaram não ter conhecimento de qualquer ocorrência relacionada ao caso.

4. Alisson Felipe Gama Pereira

Alisson Felipe Gama Pereira, de 27 anos, afirmou em depoimento que atua como inspetor de segurança no Autódromo de Interlagos há aproximadamente quatro anos.

Alisson relatou que, no dia 31 de maio, familiares de Adalberto estiveram no estacionamento do evento com a intenção de retirar o veículo da vítima. Segundo ele, porém, não chegou a atender nenhum parente nem se dirigiu ao estacionamento naquele momento.

De acordo com o depoimento, nas proximidades do local onde o corpo foi encontrado funcionava um estacionamento utilizado por empresas de segurança para guardar seus próprios veículos. Segundo o inspetor, a área foi frequentada até cerca das 2h da madrugada do dia 31 de maio, sendo o acesso permitido apenas a veículos autorizados, especialmente durante a madrugada, quando a circulação pela pista de Interlagos era restrita.

O inspetor afirmou ainda que trabalhou das 7h da sexta-feira, dia 30, até as 7h do sábado, e que, durante todo esse período, não teve acesso à pista.

Sobre a atuação da empresa de segurança contratada pela organização do evento, Alisson relatou que foi impedido de acessar determinada área. Segundo ele, um segurança barrou sua passagem, o que o levou a entrar em contato com um dos produtores do evento, que também negou o acesso. Posteriormente, acionou a produtora Natali, que autorizou sua entrada e determinou que ele entrasse em contato com Paulo, conhecido como “PC”, supervisor da empresa de segurança, para orientar a equipe a permitir sua passagem.

Questionado sobre o motivo de ter sido barrado pelo produtor, apesar de ambos já se conhecerem de outros eventos, Alisson afirmou que o profissional costuma demonstrar estresse em determinadas situações e criar dificuldades quando está à frente da organização. Acrescentou ainda que, em um evento anterior, o mesmo produtor teria ordenado a um caminhoneiro que despejasse terra em um espaço reservado para uma tirolesa, apenas por discordar da localização da estrutura.

No dia em que o corpo foi encontrado, Alisson afirmou ter recebido cerca de seis ligações do produtor. Em uma das chamadas atendidas, o produtor teria perguntado: “Como estão as coisas por aí? Meu chefe quer saber”. O inspetor disse acreditar que o “chefe” mencionado seria o dono do evento.

Por fim, relatou que, cerca de duas semanas depois, durante o evento Quatro Rodas, também organizado pelos mesmos responsáveis pelo evento Duas Rodas, encontrou-se novamente com o produtor. Segundo Alisson, na ocasião o produtor afirmou que, no dia em que o corpo foi localizado, as ligações tinham como objetivo orientá-lo a providenciar a colocação de uma lona sobre o corpo, para evitar que ele aparecesse em imagens, uma vez que havia presença da imprensa no local.

Visitante relata ter sido agredido por segurança

João Carlos Dias afirmou que esteve no evento Duas Rodas, realizado no Autódromo de Interlagos, no dia 30 de maio de 2025. Segundo o relato, ele consumia bebida alcoólica com dois amigos quando o grupo tentou subir na estátua do leão da MGM, instalada no autódromo, para tirar fotos.

João contou que, durante a ação, foi puxado pelos pés e pelos braços por um segurança, o que deu início a uma discussão motivada, segundo ele, pela brutalidade da abordagem. Na sequência, o vigilante teria desferido um soco em seu rosto, fazendo com que ele perdesse o equilíbrio, caísse no chão e batesse a cabeça no solo.

Ainda de acordo com o depoimento, João desmaiou após a agressão e só recobrou a consciência já dentro da ambulância, a caminho do hospital. Os amigos relataram que, após ele perder os sentidos, o mesmo segurança ainda teria ameaçado agredi-los, mas acabou recuando.

No dia seguinte, João retornou ao autódromo para tentar recuperar seus documentos pessoais, mas foi informado de que nenhum pertence havia sido encontrado no local.

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