
Essa vai ser uma crônica levinha, prometo.
Há cerca de um mês, eu e outros poucos amigos decidimos passar um fim de semana juntos aqui por perto. Aberto um grupo de Whatsapp, começamos a batalha de encontrar uma data livre em comum, já que estamos sempre em movimento. Uns viajando a trabalho, outros a lazer, outros com compromissos já marcados com inacreditável antecedência, e todos gerenciando uma intensa agenda de festividades judaicas e também de compromissos familiares (já que, via de regra, os filhos saem jovens de casa e se espalham por aí, e não abrimos mão de nenhuma oportunidade de estar com eles).
Por fim, aleluia: encontramos uma data. Justo agora, neste fim de semana. Uma casa com vários quartos em uma comunidade agrícola (moshav), a poucos minutos do lindo Mar da Galileia.

O grupo de Whatsapp permaneceu silencioso até domingo passado, quando finalmente alguém citou elegantemente o elefante na sala:
“Então vamos mesmo viajar, é isso?”
Ataque anunciado
Há semanas, as ameaças de ataque dos EUA ao Irã, e do Irã a Israel, e de Israel ao Irã, na ordem que for, parecem mornas e teóricas. Transformaram-se em parte da rotina. Momentos de maior tensão com contagem regressiva aparecem e desaparecem com uma rapidez fenomenal. Há pelo menos três finais de semana, vamos dormir na sexta-feira, após os jantares de Shabat tranquilos de sempre, crentes de que serem acordados de madrugada pelas sirenes.
Só que não: quando abrimos os olhos, o sol já apareceu, nenhum míssil cruzou nossos céus.
Uma das amigas pergunta no grupo de Whatsapp: “Já checaram se há na casa alugada um quarto de segurança?” Pertinente. Pergunto, o proprietário responde que “obviamente há”. Então viajamos, certo? A amiga diz que aceita a decisão da maioria. Eu digo que prefiro que os homens decidam. Isso abre as portas para especulações entre eles: hora de publicar notícias, replicar o que um ouviu no rádio, o que o Bibi está dizendo, o que o Trump declarou etc. Vamos dormir meio decididos a não decidir, e ainda nos perguntando se seremos acordados pelas sirenes naquela madrugada.
Segunda-feira, confiro com o proprietário da casa que alugamos pelo AirBNB, sistema muito usado pelos israelenses: em vista da situação, até quando podemos cancelar a reserva sem sermos cobrados? Ele responde com um “hahaha, é realmente perturbador”. Simpaticamente, conta que podemos cancelar pelo sistema até dois dias antes da viagem. Parece suficientemente bom para mim e para meus amigos, ao menos naquele momento.
Preocupação permanente
Terça-feira, hora de sermos tachles, essa expressão em iídiche que indica objetividade. Definimos horários, discutidos cardápios, propomos passeios. Alguém precisa tomar à frente do churrasco; uns gostam de linguiça picante, uns preferem frango, outros brincam a respeito do ponto da carne. Alguém define quem traz o quê. Ovo cozido ou não no café da manhã? Uma das amigas escreve: “Estou preocupada com a situação”. Quem não está? Um dos amigos publica uma mensagem brincalhona, lembrando que tudo está na mão de Deus e do Bibi. Lá vamos nós, dormir tensos.
Quarta-feira, entro de novo em contato com o AirBNB, novamente para falar do cancelamento. O clima geopolítico parece ainda mais quente e há muitos analistas agora apostando que teremos guerra nesse fim de semana. Simpaticamente, o proprietário informa que reembolsará 100% da reserva caso algo aconteça antes do nosso check-in. A essa altura, já estava decidido quem levaria o vinho, o churraco e o arroz.
Meu marido está visivelmente desconfortável. Eu mesma, que em geral tenho muito menos noção do perigo do que ele, começo a imaginar o que significaria ver uma nova guerra contra o Irã começar em uma casa alugada perto do Mar da Galileia. O diálogo interno é intenso. Afinal, há quarto de segurança por lá, mas sabemos que esse tipo de proteção não é o suficiente em caso de impacto de míssil balístico. Além disso, como voltaremos pra casa caso o foguetório comece pra valer? A última guerra com o Irã durou 12 dias e nos levou algumas dezenas de vezes para o bunker.
Fim da história sem fim
Acho que eu nem preciso contar qual foi o final dessa história sem fim, uma vez que me encontro aqui, nessa quinta-feira, sentada em minha escrivaninha escrevendo esse texto para você. Um incidente médico com um de nossos amigos foi o argumento que nos faltava para, em uníssono, cancelarmos os planos. “Talvez seja melhor cancelar, pois o mundo não vai acabar e podemos programar em um momento mais tranquilo”, escreveu uma. “Sim, agora temos razões suficientes para desistir”, escreveu outra. Um terceiro confirmou: “Óbvio, cancelado”.
E lá vamos nós para mais um fim de semana em que fechamos os olhos na expectativa de sermos acordados pelo aiatolá. Nada como mais uma noite após a outra neste louco Oriente Médio.
