Tarifaço de Trump marca nova fase da economia mundial e acende alerta para o Brasil

Painel BM&C debate tarifaço de Trump

O tarifaço de Trump voltou ao centro do debate global e, segundo os convidados do Painel BM&C, pode estar menos ligado a uma crise econômica real e mais a uma construção estratégica e política.

Na abertura do programa, a apresentadora Paula Moraes enquadrou a discussão como uma mudança estrutural.

Estamos diante de uma nova ordem global ou de uma nova normalização da política sobre a economia?”.

A partir daí, o tom do Painel foi de “separar fato de narrativa”, especialmente quando o assunto é a justificativa de Donald Trump para escalar tarifas e tentar reindustrializar os Estados Unidos.

Tarifaço de Trump no centro do debate

O professor Roberto Dumas rejeitou a leitura de que os EUA estejam diante de uma crise clássica de balanço de pagamentos. Para ele, a dinâmica é outra: o dólar continua sendo o ativo mais demandado do planeta e o financiamento externo segue funcionando.

Em uma das explicações centrais do programa, Dumas chamou atenção para o mecanismo que diferencia os EUA de países emergentes: o déficit em conta corrente pode persistir porque a conta de capitais continua atraindo recursos, com liquidez, transparência e governança que ainda não encontram substituto à altura.

Dumas também ironizou o argumento de que tarifas resolveriam desequilíbrios macro.

Você não resolve com tarifas”, afirmou.

Ele também lembrou que déficits externos estão conectados a decisões fiscais e à identidade macroeconômica.

Octavio Fakhoury: “É uma narrativa”

O empresário e investidor Octavio Fakhoury foi direto ao comentar a retórica de crise usada para justificar as tarifas: “É uma narrativa, tá?”.

Na avaliação dele, a conta americana “fecha” justamente porque os EUA seguem como destino preferencial de investimentos, sobretudo em tecnologia e inteligência artificial e porque bancos centrais ainda carregam ativos de dívida americana.

Enquanto esse fluxo se mantiver, a palavra “crise” seria mais útil como discurso do que como diagnóstico“, pontua.

Fakhoury também chamou atenção para um ponto sensível do plano de reindustrialização: os EUA têm baixa poupança doméstica e um volume elevado de necessidades de financiamento.

A tentativa de trazer manufatura de volta, exigiria investimento pesado e poderia pressionar consumo, taxas e ativos, uma engrenagem difícil de ajustar apenas com tarifas”, analisou.

Tarifaço de Trump, economia e eleições

Do lado político, o analista Bruno Rizzi avaliou que Trump pode usar o tarifaço para mobilizar base e tentar reduzir danos eleitorais, mas ressaltou que, no fim, o que pesa é a percepção de bem-estar.

Rizzi também abordou como narrativas se sustentam quando conseguem “encostar” no cotidiano do eleitor e como temas abstratos tendem a ter menos tração quando comparados ao impacto direto no bolso.

China, tecnologia e a disputa do século

Outro eixo que atravessou o debate foi o reposicionamento global diante da disputa tecnológica. Dumas argumentou que o movimento americano pode abrir espaço para outros players fecharem acordos e ganharem terreno e voltou a colocar a tecnologia no centro da disputa estratégica.

A briga no século XX vai ser inteligência artificial”, avalia.

E o Brasil no meio do tarifaço de Trump?

Ao trazer o debate para o Brasil, Paula Moraes apontou que o país opera com déficit externo próximo de 3% do PIB, o que não configura crise, mas também não é “zona de conforto” em um mundo mais protecionista.

Fakhoury e Dumas reforçaram que, para o Brasil, o risco não está apenas no comércio, mas na confiança: em um país sem “privilégio monetário”, turbulências domésticas tendem a respingar no câmbio e no custo de capital.

Na leitura do painel, o choque maior viria menos de tarifas isoladas e mais da combinação entre fragilidades internas e ambiente global mais duro.

Tarifaço de Trump como política e como narrativa

O Painel BM&C terminou com uma ideia central: o tarifaço de Trump pode ser entendido como instrumento de política industrial e geopolítica, mas também como narrativa eleitoral.

E, para o Brasil, o problema real segue sendo a falta de estratégia de longo prazo e a repetição de escolhas que reduzem competitividade, produtividade e previsibilidade.

 

 

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