A briga na CPMI do INSS é o MMA da TV Senado

Briga na Câmara do Senado durante a CPMI do INSSCrédito: Youtube – TV Senado

Quando o Vale Tudo surgiu, muita gente olhou aquilo com desconfiança. Eu inclusive. Parecia violento demais.

Cheguei a pensar se aquilo não poderia brutalizar a sociedade, como o Coliseu na Roma antiga, transformando a agressividade em entretenimento cotidiano.

O tempo passou, o Vale Tudo virou esporte: o MMA. Com regras, árbitro e limite claro. Ninguém assiste a uma luta e sai achando que pode resolver discussão de condomínio com um mata-leão no síndico. Esporte não transforma cidadão comum em gente mais agressiva.

Briga dentro do parlamento é outra história

A própria palavra parlamento vem de parler, falar. É, literalmente, o lugar da palavra, uma instituição criada para transformar conflito em debate, divergência em argumento e disputa em voto.

Mas basta ligar a TV Senado para ver que a teoria nem sempre sobrevive à prática. Na sessão recente da CPMI do INSS, deputados avançaram sobre a mesa diretora em meio a gritaria e acusações cruzadas. A sessão foi interrompida. O debate virou tumulto.

E o pior é que não se trata de um episódio isolado. Todo mandato tem suas cenas de empurrão, invasão de mesa e tentativa de impedir votação no braço. O conflito político é normal e até necessário. O problema começa quando deixa de ser confronto de ideias e vira confronto físico.

O Congresso brasileiro já viveu momentos ainda mais extremos. Em 1963, no plenário do Senado, o senador Arnon de Mello, pai do ex-presidente Fernando Collor, sacou uma arma durante uma discussão política e atirou contra um adversário.

Errou o alvo e matou outro senador, José Kairala. Um parlamentar morreu a tiros dentro do Congresso.

Nunca mais houve algo daquela gravidade. Não necessariamente porque a política tenha ficado mais civilizada. Talvez a explicação mais prática seja a existência de detectores de metal nas entradas.

Política é conflito. Sempre foi. Democracia não significa concordância, mas regras para administrar divergências. Quando parlamentares partem para o empurrão, o sinal que se transmite é outro, o de que a regra vale até o momento em que passa a incomodar.

A CPMI do INSS investiga suspeitas de prejuízos a aposentados e pensionistas, gente que passou a vida inteira confiando nas instituições.

O que esses cidadãos esperavam na televisão era comportamento de plenário e não comportamento de arquibancada.

No meio da confusão, o assunto deixou de ser os aposentados. Representantes do povo esqueceram quem deveriam representar.

Curiosamente, o UFC parece ter evoluído mais rápido do que o parlamento. Lá as regras são claras, o árbitro é respeitado e o resultado é aceito. Quando a luta termina, os adversários se cumprimentam.

No parlamento, às vezes ocorre o oposto, ninguém aceita perder, o juiz é contestado e a luta continua depois do gongo.

E isso é muito mais preocupante. Violência no esporte é espetáculo. Violência na política é sinal de que a organização da sociedade começa a falhar.

Se continuar assim, não será estranho que um neto olhe para o avô diante da televisão e pergunte:

– Ué, vô. Tá vendo Canal Combate?

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