O verdadeiro “refúgio das águas”: o paraíso isolado onde chove quase todos os dias do ano e que guarda uma natureza intocada

A areia alaranjada engana quem chega pela primeira vez. O Jalapão, no leste do Tocantins, carrega o apelido de deserto, mas esconde uma rede de rios cristalinos, cachoeiras e nascentes que brotam do chão com força suficiente para impedir qualquer corpo de afundar. Com apenas 0,8 habitante por km², a região é um dos maiores vazios demográficos do Brasil, e talvez o mais bonito deles.

Por que chamam o Jalapão de deserto das águas?

A contradição está no nome. A região ocupa 34 mil km², área equivalente ao estado de Sergipe, e é cortada por uma teia de rios, riachos e ribeirões de água transparente. O Governo do Tocantins classifica o Jalapão como a “caixa d’água” do estado, já que suas sub-bacias alimentam diretamente o rio Tocantins.

O próprio nome vem da jalapa-do-brasil, um tubérculo também chamado de chuveirinho, abundante na vegetação rasteira da região. A paisagem alterna cerrado ralo, campos limpos, veredas de buritis e chapadas de arenito que chegam a 800 m de altitude. É nesse cenário que surgem os fervedouros, as dunas douradas e cachoeiras que fizeram o Jalapão saltar do anonimato para a lista de desejos de viajantes do mundo inteiro.

Jalapão, Tocantins // Créditos: Wikimedia Commons

O fenômeno dos fervedouros existe só aqui?

Sim. Os fervedouros são nascentes cársticas onde a água subterrânea brota pela areia fina com pressão tão alta que o corpo simplesmente flutua, sem esforço. A National Geographic descreveu a sensação como boiar em uma piscina de champanhe. A ciência chama o fenômeno de ressurgência, e ele não se repete com essas características em nenhum outro lugar do planeta.

Cada fervedouro tem cor, profundidade e temperatura próprias. O Bela Vista alcança 35 m de profundidade e foi cenário da novela O Outro Lado do Paraíso (Globo, 2017). O Ceiça é considerado o maior da região. O Buritizinho, cercado por bananeiras, cabe numa foto de celular e parece saído de filme. Há limite de oito pessoas por vez em cada nascente, e o uso de protetor solar é proibido antes do mergulho para preservar a pureza da água.

Jalapão brilha como o deserto das águas e o santuário da flutuação impossível no Tocantins // Créditos: Wikimedia Commons

Quais atrações não podem ficar de fora do roteiro?

O Jalapão concentra experiências que vão de contemplação silenciosa a adrenalina pura. As principais atrações ficam nos municípios de Mateiros, São Félix do Tocantins e Ponte Alta do Tocantins, acessíveis apenas por veículos 4×4 e com guia credenciado. Estes são os pontos essenciais:

  • Cachoeira da Velha: a maior queda da região, com 100 m de largura e 15 m de altura no Rio Novo. Banho proibido pela força da água, mas o rafting leva até os pés do véu.
  • Cachoeira do Formiga: água azul-esverdeada tão intensa que parece artificial. Queda de menos de 2 m e poço cristalino para banho.
  • Dunas do Jalapão: areias alaranjadas formadas pela erosão da Serra do Espírito Santo. O pôr do sol no topo é o cartão-postal mais fotografado do Tocantins.
  • Pedra Furada: bloco de arenito esculpido pelo vento, com uma abertura que emoldura o entardecer do cerrado.
  • Cânion Sussuapara: fenda de arenito com ducha natural, parada obrigatória no trajeto entre Ponte Alta e Mateiros.
  • Comunidade Mumbuca: quilombo com mais de 300 anos, a 35 km de Mateiros, onde nasceu o artesanato em capim dourado.

Quem planeja explorar o Jalapão, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Rolê Família, que conta com mais de 635 mil visualizações, onde Luísa e Samir mostram um guia completo com roteiro de 5 dias por esse paraíso no Tocantins:

O ouro que nasce do chão e sustenta comunidades inteiras

O capim dourado (Syngonanthus nitens) não é capim nem é ouro, mas brilha como se fosse. As hastes da sempre-viva são costuradas com seda de buriti pelas artesãs da Comunidade Quilombola Mumbuca, em uma técnica transmitida por indígenas Xerente no início do século XX. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) reconhece a relevância cultural da produção, e o memorial Vozes da Cultura Jalapoeira recebeu menção honrosa no Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade em 2020.

A colheita acontece uma vez por ano, entre setembro e novembro, e é protegida por lei estadual. Em setembro, a Festa da Colheita do Capim Dourado reúne artesãs, música, cantigas de roda e viola de buriti no coração do Jalapão. A Lei 15.005/2024 reconheceu o artesanato em capim dourado como manifestação da cultura nacional.

Jalapão une a força dos fervedouros ao dourado das dunas monumentais do Cerrado // Créditos: depositphotos.com / pedromoraesphotos

De novela da Globo a reality americano no mesmo cenário

O Jalapão ficou décadas escondido pelo difícil acesso. Dois eventos mudaram isso. Em 2008, a rede americana CBS gravou a 18ª temporada do reality Survivor: Tocantins na região. E em 2017, a novela O Outro Lado do Paraíso, da Rede Globo, usou fervedouros, dunas e comunidades quilombolas como cenário. Segundo a National Geographic Brasil, a novela triplicou o turismo na região quase da noite para o dia.

O Parque Estadual do Jalapão, criado em 12 de janeiro de 2001 pela Lei Estadual 1.203, protege mais de 158 mil hectares no município de Mateiros. A unidade faz parte de um mosaico de áreas protegidas que soma quase 960 mil hectares, incluindo a Estação Ecológica Serra Geral do Tocantins e o Parque Nacional das Nascentes do Rio Parnaíba. Em 2025, o parque registrou 55 mil visitantes.

Quando ir ao Jalapão e o que esperar do clima?

O calor é constante o ano inteiro, mas a escolha entre seca e chuva define a experiência. A tabela resume cada período:

Estação Meses Temperatura Chuva O que fazer
Seca Mai-Set 15-34°C Baixa Fervedouros cristalinos, pôr do sol nas dunas, rafting
Chuvosa Out-Abr 18-32°C Alta Cachoeiras volumosas, estradas mais firmes, verde intenso

Temperaturas aproximadas com base no Climatempo e dados do ICMBio. Condições podem variar.

Como chegar ao deserto das águas?

O ponto de partida é Palmas, capital do Tocantins, que recebe voos das principais companhias aéreas. De lá, o acesso mais comum segue pela TO-050 até Porto Nacional (60 km) e depois pela TO-255 até Ponte Alta do Tocantins (135 km de asfalto), onde começam os 165 km de estrada de terra até Mateiros. O trajeto total leva de 5 a 6 horas e exige veículo 4×4. A contratação de agência especializada é fortemente recomendada, já que o sinal de celular é praticamente inexistente na maior parte do percurso.

Jalapão oferece do desafio do 4×4 à paz de flutuar em águas que te impedem de afundar // Créditos: depositphotos.com / kenya_safari.hotmail.com

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O Jalapão merece cada quilômetro de estrada de terra

Poucos lugares no Brasil exigem tanto esforço para chegar e recompensam com tanta intensidade. O Jalapão entrega um cerrado vivo, águas que desafiam a gravidade e comunidades que transformam capim em ouro com as mãos.

Você precisa sacolejar nessas estradas de areia, flutuar num fervedouro e assistir ao sol incendiar as dunas pelo menos uma vez na vida.

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