
O mundo era outro há cinco dias, quando emissários do Irã e dos Estados Unidos se sentaram à mesa, pela terceira vez, para discutir o programa nuclear do país persa e Genebra.
Por formalidade ou pensamento desejoso, as delegações saíram de lá citando “progressos significativos”. “Retomaremos as negociações em breve, após consultas nas respectivas capitais”, disse o ministro do Exterior de Omã, Badr al-Busaidi. Uma outra rodada de conversa foi agendada para segunda-feira (2).
Não deu tempo.
Dois dias após o encontro, Donald Trump decidiu eliminar os esforços de seu corpo diplomático envolvido na negociação matando os negociadores, como numa arapuca típica de traficantes ou milicianos. Ou melhor: matou os chefes dos negociadores, e de quebra centenas de civis no caminho das bombas arremessadas no sábado contra o Irã.
Desde então, Trump tenta disfarçar a impulsividade tentando mostrar aos súditos que sabe o que está fazendo.
Na segunda-feira ele admitiu que talvez o conflito dure mais do que as quatro semanas planejadas. E não descartou uma incursão por terra, mostrando que não leu, não quis ler e tem raiva de quem leu sobre o que acontece em empreitadas do tipo. Afeganistão, Iraque e Vietnã eram bons oráculos para o futuro, mas o atual chefe da Casa Branca prefere seguir os próprios instintos.
Três dias após o início dos ataques, que colocou em risco, e na mira, todos os países onde Washington possui bases militares, o republicano lamentou a morte dos iranianos que os EUA tinham em mende para liderar o país com a morte do aiatolá Ali Khomeini. Estão todos mortos.
Trump não tem ideia do que está fazendo.
Para se ter uma ideia, não faz muito tempo que um dos mais ferrenhos defensores das políticas de linha dura do presidente, o senador Ted Cruz, admitiu em rede nacional que não tinha ideia do tamanho da população do Irã, que ele já queria passar em cima com um trator.
O episódio ocorreu durante uma entrevista com o apresentador conservador Tucker Carlson em junho de 2025.
“Eu não sei a população de jeito nenhum”, confessou Cruz, diante da pergunta óbvia sobre um possível alvo.
O apresentador o confrontou, questionando como ele poderia defender a derrubada de um governo sem saber dados demográficos básicos do país.
Cruz rebateu dizendo apenas que não ficava “sentado decorando tabelas de população”.
Spoiler: a população do Irã é composta por aproximadamente 92 milhões de pessoas. O país é dominado por grandes cordilheiras ao norte e a oeste e um planalto central desértico. A topografia de “bacia” cercada por montanhas forma fortaleza natural. O Irã é um dos países um dos mais difíceis de serem invadidos por forças convencionais. É um Vietnã 2.0 que Trump parece querer pagar pra ver – em cerimônia militar, ele garante que não estava entediado ao autorizar a ofensiva, se consultar o Congresso (sob o risco de ouvir um “não”) ou a ONU.
O controle do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, permite asfixiar a distribuição de óleo para o mundo. A ordem é atacar qualquer embarcação que tente passar por lá.
A escalada tende a elevar o preço dos combustíveis mundo afora, inclusive nos Estados Unidos, onde poder de compra e inflação podem definir os rumos das eleições de meio de mandato.
Mas ele garante que sabe o que está fazendo. Confia.
*Este texto não reflete necessariamente a opinião do Portal iG
