
Em uma das cenas mais reveladoras de “O Agente Secreto”, o empresário Henrique Ghirotti (Luciano Chirolli) encomenda a morte de um rival, o professor universitário interpretado por Wagner Moura, por se opor aos interesses de sua companhia. Elas esbarravam em pesquisas do departamento liderado por Armando, o alvo da quadrilha.
Ciente da impunidade, garantida pelo relacionamento com grupos políticos da ditadura, Ghirotti é explícito: quer ver o rosto do inimigo destruído.
Numa obra de ficção histórica, qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.
Em um dos diálogos interceptados pela Polícia Federal, o banqueiro Daniel Vorcaro dá a ordem ao capo Felipe Mourão, identificado no grupo de mensagens “A Turma” como “Sicário” (no dicionário: assassino pago; malfeitor, facínora): “Esse Lauro… quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto”.
Lauro é o colunista do jornal “O Globo” Lauro Jardim, que cobre as falcatruas do Banco Master desde quando a montanha de suspeitas era ainda um fio a ser puxado. Hoje é um escândalo que deixa em polvorosa metade da República.
“Sicário”, segundo as investigações, era responsável por coordenar operacionalmente a uma estrutura de vigilância privada contra adversários. Ele executava ordens de monitoramento de alvos, extração ilegal de dados em sistemas sigilosos e ações de intimidação física e moral. Para isso contava com infiltrados com acesso ao sistema público de investigações da política e até do Banco Central.
Os gangsters da atualidade ainda se investem dos favores e do relacionamento com o poder público em troca de blindagem.
Vorcaro, por exemplo, emprestava até jatinhos para gente como Nikolas Ferreira participar de atos em defesa de Jair Bolsonaro nas eleições de 2022. O deputado mineiro, tão atento à grama do vizinho, jura que não sabia quem era o dono da aeronave.
Vorcaro acreditou que podia fazer o que quisesse, inclusive encomendar assalto com emprego de violência contra jornalistas, e nada poderia acontecer com ele. Não fosse a decisão de André Mendonça, relator do inquérito do Banco Master, as apurações da PF estariam até agora guardadas na gaveta onde se sentou o antecessor, Dias Toffoli. O Brasil adoraria saber por quê.
Com as apurações à vista, fica difícil sustentar o direito do banqueiro aguardar o julgamento na comodidade do lar. Ele era um perigo para as investigações. E para quem cobria as investigações. E para quem investigava.
Até pouco tempo, Vorcaro era o gênio das finanças que alavancou uma instituição de médio porte e se tornou um bilionário influente e requisitado nas rodas do poder. Hoje se sabe que era só um gangster agindo como se fosse o chefe de gangue de uma rua qualquer.
Instituições financeiras como o Master não eram só a porta de entrada para o crime organizado, como foi demonstrado na Operação Compliance Zero. Era o próprio crime organizado a serviço do que existe de pior.
*Este texto não reflete necessariamente a opinião do Portal iG
