
Uma jovem de 17 anos foi atraída pelo ex-namorado para um apartamento da família dele, em Copacabana, no Rio. Lá ela descobriu que era vítima de uma emboscada. Amigos do rapaz, quatro homens entraram no quarto e fecharam qualquer possibilidade de saída. A adolescente foi estuprada e chegou em casa com feridas, hematomas e suspeitas de uma fratura nas costelas.
Após a conclusão do inquérito, cerca de um mês depois do crime, ocorrido em 31 de janeiro, os adultos envolvidos no estupro coletivo foram presos e o caso ganhou o noticiário. Entre os agressores havia estudantes no tradicional Colégio Pedro 2º – onde também estudava a vítima – e o filho de um subsecretário de Governança no Rio. A polícia suspeita que ao menos duas outras garotas sofreram os mesmos abusos do grupo.
Nas redes, muitas amigas escreveram sobre a história, um gatilho para casos semelhantes vividos por conhecidas. Foi uma batalha travada quase sozinhas. Dos homens vimos poucas manifestações, o que confirma a tese de que toda mulher conhece alguém que foi estuprada, mas nenhum homem conhece um estuprador ou assediador. Tá, mas e aquele amigo que se aproveitava das amigas alcoolizadas nas festas da faculdade? E o cara que gravou e usou vídeo para ameaçar a ex? Ou que usou uma relação de poder (professores, chefes, líderes religiosos) para benefício próprio?
O estupro no Rio, de fato, não é um assunto na roda de amigos. Nem razão para manifestações públicas de indignação, como bem apontaram as amigas mais atentas ao debate. Fui um dos que li a notícia e no minuto seguinte calei – consenti?
Da rebarba dos movimentos que acostumamos a chamar de “identitários”, uma pauta comum é o que podem fazer os que não sofrem preconceito e violência em defesa dos que sofrem. O que um homem tem a dizer sobre a agressão a uma mulher? E como pessoas brancas podem se posicionar nas discussões sobre racismo?
Não há resposta pronta, e na dúvida – ou por medo de atravessar o que também se denominou “lugar de fala” – o silêncio é quase unânime. É também um consentimento?
Não é que o diálogo sobre estupro seja difícil entre homens. Qualquer diálogo que envolva dois ou mais homens na mesma roda e que não seja futebol é bem difícil. Neste caso específico, mais do que soluções simplistas para questões complexas de segurança pública – “prende, bate, capa, arrebenta” –, a abordagem exige uma análise de um denominador comum que transforma em estatística tanto a menina de Copacabana quanto uma policial militar encontrada morta com um tiro na cabeça nesta semana em um apartamento no centro de São Paulo. Ela tinha 32 anos e vivia um relacionamento abusivo com um tenente-coronel, segundo a família.
Um dos indícios era uma mensagem intimidadora enviada pelo marido a um primo da mulher pelo fato de eles conversarem no WhatsApp. Ele tinha acesso ao aparelho dela e, na cabeça dele, também o direito de dizer com quem ela poderia conversar (aparentemente, ninguém).
Histórias de violência contra a mulher pipocam no noticiário todos os dias. O denominador comum quase sempre envolve um marido enciumado ou um ex indisposto a aceitar o fim de um relacionamento. Serve para adultos, serve para jovens que aos 17 anos já associam um crime sexual a uma punição a quem já foi “dele” um dia e não é mais. A “posse”, ao fim, é agora também dos amigos, e quem decide isso é sempre um homem. A desumanização das vítimas começa na linguagem. E ela autoriza todo tipo de manifestação de ódio.
No caso do Rio, chama a atenção que nenhum responsável tenha percebido o modus operandi do grupo, seja na escola, nas pegadas online ou no apartamento da família. Certamente todos ali foram ensinados que roubar e matar era errado. Mas o que ouviram desde cedo sobre mulheres, direitos e consentimento? O que normalizaram a partir de discursos ouvidos em casa quando os pais se referiam a outras mulheres, inclusive as mães?
Adoraria falar sobre isso com meus amigos, mas todos eles de fato parecem ocupados demais com temas que consideram mais urgentes, geralmente definidos nos corredores de Brasília e quase nunca no escurinho do lar.
Dias atrás, num sábado de Carnaval, meu filho saiu assustado da piscina ao ver que ao lado dele um homem gritava com a namorada. De onde estávamos não dava para saber se ele queria acessar o celular da moça ou se queria evitar que ela enviasse uma mensagem para alguém.
“Me dá aqui essa bosta”, “Larga de ser idiota”, “Cala a sua boca” eram algumas das ofensas distribuídas em público pelo grandalhão forjado em academia. Imaginamos o que ele não deveria falar no ambiente privado.
Não teve quem não segurou a respiração sem saber exatamente o que fazer caso aquela discussão descambasse para uma agressão física, inclusive meu filho de 12 anos que não queria voltar para a piscina. Como se só o tapa fosse a linha cruzada para qualquer intervenção (em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher, diziam os avôs violentos até pouco tempo). Como a faísca não aconteceu, nenhum amigo do rapaz apareceu para dizer “pega leve, cara, não é assim que se fala”.
Talvez porque, num acordo tácito, nós sejamos criados para pensar que a mulher, e tudo o que diz respeito a ela, é propriedade nossa. Temos vergonha pública da traição – ou de situações que levam o grupo social a sugerir qualquer quebra de confiança ou desobediência – mas não de maltratar alguém assim em público.
Em um caso como no outro, o sentimento de posse antecede a violência. Se alguém se rebela contra isso, porque trabalha e pode viver muito bem, obrigada, sem aguentar violência em casa, e está disposta a começar uma outra vida, talvez com outra pessoa, o recurso que resta a quem foi destituído do título de provedor é a ameaça e a agressão, seja ela física ou psicológica. Algumas viram notícias de jornal. O crime antes relatado como passional, ou um erro de quem amou demais, era só a última camada de verniz ao que, torcido e retorcido, é puro ódio sobre quem não admite controle e precisa de punição.
Em tempo: não deixar trabalhar (ou boicotar, de alguma maneira, a independência financeira de uma mulher) é só a parte menos sutil desse conflito. Há outras menos perceptíveis, como sair para jantar e escolher o prato, controlar o que come para não engordar, tocar em qualquer parte do corpo sem permissão. E se alguém disser simplesmente não?
Como desatar isso? É a pergunta de um milhão. Por isso é (seria, ou deveria ser) tão importante falar sobre o assunto. E questionar os amigos homens sobre como estamos dialogando com nossos filhos e o que identificamos como violência nos discursos e ações relacionadas a mulheres.
Até lá, estupro, agressões físicas e mortes seguirão tratadas como casos específicos e anomalias estatísticas. São, na verdade, o padrão. Mas queremos mesmo falar e admitir que somos parte disso, mesmo quando silenciamos e/ou consentimos?
*Este texto não reflete necessariamente a opinião do Portal iG
