
O mercado de marketing e comunicação convive com um paradoxo conhecido, mas ainda pouco resolvido. Mulheres são maioria em muitas equipes e ocupam posições relevantes nas áreas de criação, estratégia e gestão. No entanto, quando o assunto são os cargos mais altos da hierarquia corporativa, o cenário muda. O funil de liderança ainda estreita e muito.
No Brasil, mulheres ocupam cerca de 38% a 39% dos cargos de liderança, segundo dados recentes do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O número indica avanço, mas revela também um limite claro quando a análise chega aos postos de C-Level e conselhos de administração, ainda predominantemente masculinos.
E a desigualdade não é apenas de representação: mulheres recebem, em média, 21% menos que homens em cargos equivalentes, aponta relatório do TEM (Ministério do Trabalho e Emprego) e Ministério das Mulheres. É nesse contexto que, próximo ao dia 8 de março, quando é celebrado o Dia Internacional da Mulher, executivas refletem sobre suas carreiras e o papel estratégico que ocupam nas decisões de negócio.
Desafio começa cedo
O contraste chama ainda mais atenção em setores como marketing e comunicação, historicamente marcados por forte presença feminina. Para Camila Yu, diretora de Marketing, Treinamento, Inovação e Novos Negócios da Jaguar Land Rover no Brasil, o desafio aparece desde cedo na trajetória profissional.
“Eu acredito que o funil de carreira não é apenas estreito. Para as mulheres, ele sempre foi muito mais tortuoso, independentemente da área de atuação. Na minha visão, as mulheres sempre precisam se provar muito mais do que os homens, seja qual for a função, o momento ou o cargo”, afirma.
Segundo a executiva, esse processo de provação acompanha toda a jornada profissional e se intensifica à medida que a carreira avança. “Existe também um aspecto subjetivo da camaradagem, muitas vezes mais presente entre homens, que acaba impactando negativamente as mulheres desde o início da trajetória”.
Fatores estruturais
O próprio desenho das organizações ajuda a explicar parte desse cenário. Quanto mais alto o cargo, menos posições disponíveis. Mas, para as mulheres, entram ainda outros fatores estruturais — muitos deles ligados à vida fora do trabalho.
“Maternidade, puerpério, perimenopausa e menopausa são desafios adicionais que fogem ao controle individual, mas que acabam impactando a trajetória profissional”, observa Camila Yu. Ao mesmo tempo, ela destaca que o debate público sobre saúde da mulher e carreira tem ajudado a ampliar a conscientização dentro das empresas.
Marketing estratégico abre espaço
Se o caminho até o topo ainda tem obstáculos, a evolução do próprio marketing como disciplina estratégica abre novas oportunidades de protagonismo feminino. Durante muito tempo visto como área de suporte, o marketing hoje ocupa espaço direto nas decisões de negócio.
“Hoje o marketing é uma área extremamente estratégica. Ao longo dos anos, ganhou um papel cada vez mais direcional dentro das organizações, participando ativamente da construção de estratégia e da tomada de decisão”, afirma Camila Yu.
Essa mudança também ajudou a ampliar a presença feminina em espaços de poder dentro das empresas. “O fortalecimento do marketing como área estratégica contribuiu para que mais mulheres alcançassem posições de liderança e ocupassem lugares relevantes de decisão”, revela.
Performance e política corporativa
Mas liderança não é apenas resultado de performance. Ela também passa por relações, influência e capacidade de navegar no ambiente corporativo. Para Giovana Pacini, CEO da Merz Aesthetics Brasil, o equilíbrio entre esses elementos é determinante.

“Performance é essencial. Resultados constroem credibilidade e sustentam decisões. Mas a política corporativa, entendida como a capacidade de alinhar interesses e construir relações de confiança, também é fundamental”, afirma.
Segundo a executiva, liderança envolve tanto consistência de resultados quanto inteligência emocional para lidar com pessoas e contextos.
“Empresas são feitas de pessoas. No fim, liderança de verdade é a combinação de consistência nos resultados com a capacidade de construir um ambiente onde a política corporativa seja um aliado, não um obstáculo”.
Viés de gênero nas empresas
Mesmo quando chegam ao topo, as mulheres ainda enfrentam julgamentos diferentes em relação aos homens — especialmente quando o assunto são erros e riscos.
“Muitas vezes, o erro de um homem é tratado como parte do risco inerente à liderança. Já o erro de uma mulher pode ser interpretado como fragilidade ou falta de preparo”, afirma Giovana Pacini.
Para ela, enfrentar esse viés exige confiança e resiliência. “Errar faz parte do crescimento. O que diferencia uma líder é a capacidade de aprender, ajustar a rota e seguir com consistência”, diz.
Comunicação e Marketing
Esse olhar também aparece na análise de Kassìa Cáricol, sócia-fundadora e COO da Inside Out PR. Para a executiva, a presença feminina em áreas como marketing e comunicação é histórica, mas isso não significa que o ambiente seja automaticamente mais igualitário.
“Não é de hoje que comunicação e marketing movimentam o ponteiro do negócio. Como historicamente a presença feminina nessas áreas é maior, é natural que isso impacte na ascensão feminina no mercado”, revela.
Ainda assim, ela ressalta que o avanço precisa ir além da celebração de casos individuais. “O que eu espero é que cada vez mais mulheres sejam valorizadas pelas suas aptidões e competências em qualquer área de atuação e que as condições para sua ascensão sejam mais justas e menos custosas do que são hoje”.
Para Kassìa Cáricol, os julgamentos desiguais ainda fazem parte da realidade corporativa. “Nossos erros são frequentemente associados a fragilidades que buscam nos reduzir como indivíduos, extrapolando o campo da carreira. Como se ser mulher já nos colocasse em uma posição de menor capacidade”.
Mudar esse cenário, segundo ela, exige um debate coletivo e contínuo — que ultrapasse o ambiente empresarial. “Esse é um tema que precisa estar presente na educação, nas políticas públicas, nos códigos de conduta das empresas e nas conversas do dia a dia.”
O funil que começa na mente
A pressão também aparece de outra forma: na autocrítica excessiva que muitas mulheres carregam ao longo da carreira. Para Cau Saad, fundadora do Instituto Cau Saad, o funil também se estreita dentro da própria percepção profissional.
“O funil começa a apertar quando a régua da autopercepção sobe demais. Muitas mulheres acreditam que, para ocupar o topo, precisam entregar sempre algo extraordinário, disruptivo, fora da caixa”, afirma.
Na prática, essa lógica pode gerar sobrecarga e exaustão. “Autoridade não é construída em saltos heroicos, mas na constância do básico bem feito”, diz.
Cau Saad também já viveu uma experiência comum para muitas executivas: ser a única mulher na sala na qual decisões estratégicas são tomadas.
“Ser a única mulher na mesa de decisão é como entrar em um treino de alta intensidade sem aquecimento”, compara.
Diversidade de liderança e rentabilidade
Se o caminho ainda apresenta desafios, os dados mostram que ampliar a presença feminina na liderança não é apenas uma pauta de diversidade, é também uma decisão estratégica para os negócios. Estudos da consultoria McKinsey indicam que empresas com liderança feminina podem apresentar até 34% mais rentabilidade.
Num mercado cada vez mais orientado por dados, comportamento e consumo — áreas profundamente conectadas ao olhar do marketing — ignorar a diversidade nas mesas de decisão pode significar perder inteligência de mercado.
No fim das contas, a discussão que emerge neste Dia Internacional da Mulher vai além da representatividade. Ela fala sobre eficiência, inovação e capacidade de entender uma sociedade que, em grande parte, é formada e consumida por mulheres.
O funil pode continuar estreito no topo. Mas, ao que tudo indica, cada vez mais mulheres estão dispostas a redesenhar o caminho até lá.
