Caixão de 2 mil anos revela nova pista sobre “princesa”; entenda

Sepultura da ‘princesa de Bagicz’ do século II d.C. em Bagicz, na PolôniaReprodução/Muzeum Narodowe w Szczecinie

Um caixão encontrado em 1899 na vila de Bagicz, na Polônia, voltou a ser estudado por arqueólogos e ajudou a esclarecer um mistério que intrigava cientistas havia mais de um século: a data do sepultamento de uma mulher enterrada nele, apelidada de “princesa de Bagicz”.

A nova pesquisa, divulgada em artigo na revista científica Archaeometry, analisou a madeira do sarcófago e concluiu que ela foi cortada por volta do ano 120 d.C., durante o período do Império Romano.

O trabalho foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Szczecin, no noroeste da Polônia, liderados pela arqueóloga Marta Chmiel‑Chrzanowska.

Caixão feito a partir de um tronco de árvoreReprodução/Chmiel-Chrzanowska et al., Archaeometry

O caixão foi achado de forma incomum, após cair de um penhasco erodido perto da costa do mar Báltico. Feito a partir de um tronco de carvalho escavado, o sarcófago estava relativamente bem preservado, apesar de ter cerca de dois mil anos.

Dentro dele estavam os restos de uma mulher adulta enterrada com objetos como um broche e pulseiras de bronze, contas de vidro e âmbar. O corpo foi colocado sobre uma pele de vaca, e havia também um pequeno banco de madeira junto aos pés.

Durante muito tempo, o enterro foi associado à elite local, o que levou ao apelido informal de “princesa de Bagicz”. Estudos mais recentes, no entanto, indicam que o sepultamento provavelmente pertence à cultura Wielbark, ligada a populações que viveram na região na Idade do Ferro romana.

Arqueólogos também observaram que o túmulo parecia isolado possivelmente porque a erosão costeira destruiu outras sepulturas que existiam ao redor.

Desenho de arquivo representa o sepultamento encontrado em Bagicz, na PolôniaReprodução/Chmiel-Chrzanowska et al., Archaeometry
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O que a nova análise revelou

Segundo um boletim do Instituto Histórico da universidade, uma nova etapa da pesquisa ocorreu quando uma amostra do sarcófago foi retirada para análise dos anéis de crescimento da madeira. A técnica, chamada dendrocronologia, permite estimar o momento em que o carvalho foi derrubado, ajudando a determinar quando o caixão provavelmente foi produzido.

O material foi coletado por iniciativa de Chmiel-Chrzanowska e analisado pelo pesquisador Marek Krąbiec, especialista da Academia de Mineração e Metalurgia de Cracóvia.

A amostra veio do próprio tronco de carvalho usado para fabricar o sarcófago, que hoje está preservado no Museu Nacional de Szczecin.

Coleta de amostra da madeira para análise de dendrocronologia, técnica usada para estimar a idade do materialReprodução/Chmiel-Chrzanowska et al., Archaeometry

Antes dessa análise, outros métodos haviam sido usados para datar o enterro. A tipologia dos objetos encontrados indicava que o sepultamento teria ocorrido entre aproximadamente 110 e 160 d.C.

Em 2018, porém, um exame de radiocarbono feito em um dente da mulher apontou uma data muito mais antiga, entre cerca de 113 a.C. e 65 d.C., criando uma diferença de mais de um século.

Segundo os pesquisadores, uma hipótese para explicar a divergência envolve a dieta da mulher. Se ela tivesse consumido grande quantidade de peixes ou alimentos de ambientes aquáticos, o chamado “efeito de reservatório” poderia ter alterado o resultado do radiocarbono. Isso ocorre porque os oceanos contêm carbono mais antigo que o encontrado em terra, o que pode fazer com que pessoas que comem muito peixe pareçam ter vivido em períodos mais antigos nos testes de carbono-14.

A identidade da mulher

Apesar de o mistério da datação ter sido resolvido, a identidade da mulher continua sendo investigada. Análises do esqueleto indicam que ela tinha entre 25 e 35 anos e apresentava osteoartrite. um desgaste nas articulações que pode sugerir a realização de trabalhos físicos intensos.

Os pesquisadores afirmam que novos estudos, incluindo análises de isótopos e de DNA, poderão trazer mais informações sobre a origem, a dieta e o modo de vida da mulher.

A equipe também pretende realizar novos testes de DNA a partir do osso temporal do crânio, em busca de pistas sobre a origem dela e possíveis parentescos.

Área onde o sepultamento foi encontrado em Bagicz, na PolôniaReprodução/Chmiel-Chrzanowska et al., Archaeometry

Caixões feitos de troncos de árvores eram usados em alguns sepultamentos antigos, mas raramente sobrevivem até hoje, já que a madeira costuma se decompor rapidamente.

No caso do sarcófago de Bagicz, os cientistas acreditam que condições ambientais específicas, possivelmente mudanças no nível da água na área costeira, ajudaram a preservar o objeto por quase dois mil anos.

Uma das hipóteses é que a área tenha ficado alagada, criando um ambiente úmido e com pouco oxigênio, o que impede a decomposição de materiais orgânicos.

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