
Cada vez mais, o crime organizado tem avançado para o interior do país. Se antes o Brasil estava acostumado a associar a presença de facções criminosas aos grandes centros urbanos, hoje elas já fazem parte do cotidiano de grande parte da população, inclusive em cidades turísticas. O litoral nordestino tem sido um dos mais afetados por esse processo.
Entre os destinos turísticos impactados podemos destacar:Pipa (RN), Porto de Galinhas (PE), Trancoso (BA), Fortaleza (CE) e Paraty (RJ).
O grande fluxo de pessoas, o maior poder aquisitivo dos turistas e a proximidade com portos, frequentemente utilizados para o transporte de drogas, tornam essas cidades especialmente atrativas para a atuação de grupos criminosos. Segundo o delegado Ivaldo Pereira, gestor da Diretoria Integrada Especializada da Polícia Civil de Pernambuco, o avanço dessas organizações ocorre porque o crime organizado “vive de oportunidade”.
Embora o tráfico de drogas seja uma das principais atividades dessas facções, sua atuação não se limita a essa prática. Os grupos também operam por meio de lavagem de dinheiro, da imposição da contratação de determinados serviços ligados às organizações criminosas, da cobrança de taxas para comerciantes atuarem na região e de fraudes na venda de pacotes de hospedagem.
De acordo com o mestre em segurança pública Francisco Xavier, em alguns casos as facções também assumem funções que deveriam ser desempenhadas pelo próprio Estado, como a mediação de conflitos entre moradores.
“Há esse vácuo de poder, deixado pelo Estado, que acaba sendo ocupado de forma muito eficaz pelo poder paralelo do crime organizado”, explica.
Turistas x moradores
A presença das facções em regiões turísticas não afeta turistas e moradores da mesma forma. Na prática, há uma situação paradoxal: enquanto os moradores convivem diariamente com a violência e a pressão dessas organizações, visitantes costumam experimentar um ambiente aparentemente tranquilo.
Segundo Xavier, isso ocorre porque muitas facções impõem regras internas que proíbem crimes contra turistas, justamente para evitar prejuízos aos próprios negócios.
O promotor de Justiça de Porto de Galinhas, Rodrigo Altobello, explica que há inclusive um interesse indireto dessas organizações na preservação da imagem turística dessas regiões.
“A preservação da imagem turística é, paradoxalmente, também um interesse indireto da organização criminosa, que busca manter o fluxo econômico que alimenta o mercado ilegal. Por isso, há uma tentativa de evitar confrontos ostensivos nas áreas de maior circulação turística, adotando uma estratégia de invisibilidade para não comprometer a própria atividade ilícita”, afirma.
Impactos para moradores e comerciantes
A presença dessas organizações criminosas produz efeitos distintos entre os diferentes grupos que vivem ou circulam nessas regiões.
Para os moradores, a presença das facções provoca diversos impactos no cotidiano, como:
- aumento da sensação de insegurança
- risco de coação ou intimidação
- maior exposição de jovens ao aliciamento pelo crime
Entre os comerciantes, os efeitos também são significativos. Muitos relatam:
- receio de retaliações
- imposição de regras paralelas, como a proibição da instalação de câmeras de segurança
- cobrança de “taxas” para funcionamento dos estabelecimentos
Além disso, episódios de violência geram instabilidade econômica, o que afeta diretamente o turismo, principal matriz econômica dessas localidades, com reflexos no emprego e na renda da população.
Para os turistas, embora a realidade cotidiana da violência nem sempre seja visível, também existem riscos indiretos. Há registros de visitantes mortos após fazerem gestos com as mãos interpretados como símbolos de facções rivais.
Como o PCC e o CV atuam nesses territórios
As duas maiores organizações criminosas do Brasil são o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). Embora tenham surgido, respectivamente, em São Paulo e no Rio de Janeiro, hoje já possuem atuação em outros 25 estados do país.
Segundo o delegado Ivaldo Pereira, há diferenças perceptíveis na forma como essas organizações se estabelecem nos territórios.
“Quando a gente vê o domínio do Comando Vermelho, geralmente há um crime mais violento. Já nos locais com maior presença do Primeiro Comando da Capital, percebe-se uma atuação mais voltada para o comércio ilegal e para a lavagem de dinheiro, com uma visão mais empresarial e uma redução da violência”, explica.
Francisco Xavier acrescenta que, no Nordeste, muitas dessas organizações funcionam como extensões de facções originárias do Rio de Janeiro.
“Essas facções no Nordeste, por serem vinculadas às facções cariocas, acabam funcionando como filiais. Elas reproduzem o mesmo modus operandi. No Rio de Janeiro, há um processo de territorialização: facções e milícias dominam uma comunidade e obrigam os moradores a comprar determinados serviços, como gás ou internet, de fornecedores ligados a elas. Esse modelo vem sendo reproduzido hoje em diversas localidades do Nordeste”, afirma.
“Medo constante”: o que relatam os moradores

Em entrevista ao iG, um morador de Sobral, no Ceará, que preferiu não ser identificado, relatou que a sensação de insegurança faz parte do cotidiano na cidade. Segundo ele, os moradores convivem com um “medo constante”.
“É medo de você entrar em alguma área que não conhece, medo de fazer algum símbolo que você não conhece, medo de que eles desconfiem que você está passando informação, mesmo sem estar. Isso já aconteceu bastante”, relatou.
De acordo com ele, no início da presença das facções na cidade, os conflitos estavam ligados principalmente à disputa por território e pontos de venda de drogas. Com o tempo, porém, a atuação dessas organizações se expandiu para outras áreas da vida cotidiana, atingindo também o comércio e as comunidades.
Uma das práticas relatadas é a cobrança de taxas de comerciantes.
“Se você pesquisar, há poucas semanas tivemos aqui em Sobral uma prisão relacionada ao domínio das facções sobre as empresas que fornecem água mineral. Eles estavam obrigando distribuidores e pequenos comércios a pagar uma taxa sobre cada garrafão vendido. Houve um problema gigantesco, com prisões inclusive. Alguns bairros ficaram literalmente sem abastecimento de água por um bom tempo, e algumas empresas que atuavam em Sobral acabaram indo embora”, explicou.
Além da cobrança de taxas, o morador afirma que muitas pessoas evitam circular por determinadas áreas por medo de represálias e que entregadores do Ifood teriam sido proibidos de circular na cidade.
Segundo ele, abordagens para verificação de celulares também são comuns. Caso haja desconfiança, integrantes das facções podem exigir que a pessoa mostre o aparelho para verificar conversas e contatos.
O morador afirma ainda que as regras impostas pelas facções são amplamente divulgadas e já fazem parte do cotidiano da população. Segundo ele, os próprios integrantes desses grupos costumam escrever mensagens em muros, fazer postagens nas redes sociais ou compartilhar orientações em grupos privados com moradores, indicando o que é permitido ou proibido nas comunidades.

Apesar disso, ele explica que existem também regras internas impostas pelas facções, como a proibição de roubos e assassinatos dentro das comunidades. Segundo ele, isso acaba gerando entre alguns moradores uma falsa sensação de segurança.
“As pessoas se sentem seguras porque, antes disso, aconteciam muitos assaltos e mortes e o Estado não conseguia resolver. Com essa ‘lei da facção’, muita gente acha que não vai ser roubada dentro da comunidade. E, se for, acredita que vai ter uma resposta imediata.”
O entrevistado também afirma que, entre moradores, é comum a percepção de que o Estado perdeu espaço para o poder das organizações criminosas.
“A ausência do poder público é muito notória. As pessoas comentam que o Estado já perdeu. Eu sei que, pela imagem, governadores ou autoridades vão negar isso, mas quem mora aqui e vive essa realidade sente que o Estado perdeu o controle. As pessoas já não confiam mais na polícia, nem na Justiça, nem acreditam que esse problema vai ser resolvido.”
Outro morador ouvido pela reportagem, que vive em Granja, também no Ceará, e pediu para não ser identificado, afirma que as organizações criminosas criaram regras de convivência que precisam ser seguidas pelos moradores.
Uma dessas regras, segundo ele, foi a proibição de escapamentos livres em motocicletas. Algumas motos teriam sido incendiadas como forma de intimidação.
“Em relação à segurança, é tranquilo porque já está institucionalizado que não se deve cometer erros aqui. Caso contrário, são aplicadas punições com agressões físicas. Antes essas punições eram gravadas, mas algumas gravações acabaram sendo usadas como prova em investigações criminais, então essa prática deixou de ser registrada. As agressões físicas, porém, continuam acontecendo.”
Na avaliação dele, as facções exercem um papel que muitos moradores associam à própria segurança pública.
“A sensação é de que a facção tem mais poder que o Estado, tem mais respeito e é mais atuante na questão da segurança. Eles reprimem fortemente pequenos roubos e chegam a se envolver até em casos de infidelidade.”
Como enfrentar o crime organizado
Especialistas apontam que o enfrentamento efetivo ao crime organizado depende de uma atuação integrada entre diferentes instituições do Estado. Para eles, operações policiais isoladas não são suficientes se não houver coordenação entre as forças de segurança, o Ministério Público e outros órgãos responsáveis pela investigação e repressão às atividades financeiras das organizações criminosas.
Nesse contexto, o foco das investigações precisa ir além dos executores diretos do tráfico, alcançando também as lideranças das facções e as estruturas econômicas que sustentam essas organizações.
O promotor de Justiça Rodrigo Altobello ressalta ainda que o combate ao crime organizado exige presença permanente do poder público nos territórios mais vulneráveis.
“Soma-se a isso a necessidade de presença estatal contínua, evitando qualquer vácuo de poder que possa ser ocupado por estruturas paralelas, além do investimento consistente em políticas públicas voltadas à juventude e à educação, reduzindo o espaço para o aliciamento”, destaca.
Para o mestre em segurança pública Francisco Xavier, cidades turísticas apresentam desafios adicionais nesse enfrentamento. Segundo ele, o grande fluxo de visitantes e a intensa circulação de dinheiro facilitam a infiltração das facções na economia local, muitas vezes misturando atividades ilegais com negócios aparentemente legítimos.
Esse cenário acaba dificultando a identificação e o rastreamento das estruturas criminosas pelas investigações policiais.
Xavier também afirma que o Estado precisa recuperar sua capacidade de ser a principal referência de proteção para moradores, comerciantes e turistas.
“Hoje, muitas vezes o comerciante prefere pagar uma taxa para o criminoso, porque sabe que, se não fizer isso, o Estado não terá condições de protegê-lo de forma efetiva. O Estado precisa se organizar para ser a primeira opção confiável para quem se sente ameaçado”, finaliza.
