
Um antigo debate científico sobre a origem evolutiva do cogumelo alucinógeno mais cultivado do planeta pode ter sido finalmente esclarecido. Pesquisadores da Stellenbosch University, na África do Sul, em parceria com cientistas dos Estados Unidos, afirmam ter identificado a espécie mais próxima do popular Psilocybe cubensis, conhecido popularmente como “cogumelo mágico”. As informações são do Phys.
O estudo foi publicado na revista científica Proceedings of the Royal Society B e descreve a descoberta de uma nova espécie: Psilocybe ochraceocentrata. O cogumelo foi encontrado em áreas de pastagem na África do Sul e no Zimbábue e recebeu esse nome devido à coloração amarelo-ocre no centro do chapéu.
O cogumelo mágico
De acordo com os pesquisadores, análises genéticas indicam que essa espécie compartilha um ancestral comum com Psilocybe cubensis de aproximadamente 1,5 milhão de anos atrás. A descoberta desafia uma hipótese amplamente aceita entre cientistas.
Durante décadas, acreditou-se que o P. cubensis teria sido introduzido nas Américas de forma acidental, quando colonizadores europeus trouxeram gado da África e da Europa para o continente americano no século 16. Esse cogumelo foi descrito cientificamente pela primeira vez em Cuba, em 1906.

Segundo o micologista Breyten van der Merwe, estudante de doutorado em engenharia química na Stellenbosch University e um dos autores do artigo, apesar de parecerem semelhantes, as duas espécies apresentam diferenças importantes.
“Embora tenham aparência parecida, elas possuem características genéticas, ecológicas e químicas distintas”, explicou o pesquisador.
Os cientistas afirmam que a descoberta ajuda a compreender melhor as origens selvagens do P. cubensis, hoje amplamente cultivado em várias partes do mundo, e também oferece novos recursos genéticos para estudos sobre cogumelos psicodélicos.
Curiosamente, a nova espécie já vinha sendo cultivada internacionalmente há anos sem que sua identidade real fosse conhecida. Ela era comercializada com os nomes “NSS” (sigla para Natal Super Strength) ou “Transkei”, duas linhagens populares entre cultivadores.
“É uma das variedades mais populares de cogumelos mágicos porque é bastante potente e fácil de cultivar. Até este estudo, porém, ninguém havia percebido que se tratava de uma espécie totalmente diferente do cogumelo clássico”, afirmou Van der Merwe.
A pesquisa também contou com cientistas de instituições como a Clark University, a University of Utah Health, a Duke University e o Natural History Museum of Zimbabwe.
Para chegar às conclusões, os especialistas analisaram DNA extraído de amostras coletadas em diferentes regiões da África Austral e de espécimes históricos preservados em coleções científicas. O trabalho incluiu análises filogenéticas, estimativas de “relógio molecular”, técnica usada para calcular quando espécies se separaram evolutivamente, e modelagem de nicho ecológico.
A pesquisadora Cathy Sharp, do Museu de História Natural do Zimbábue, foi uma das primeiras a encontrar exemplares do P. ochraceocentrata no país, ainda em 2013. Mesmo assim, especialistas afirmam que a diversidade de fungos africanos ainda é pouco explorada.
No artigo, intitulado “Discovery of the closest free-living relative of the domesticated ‘magic mushroom’ Psilocybe cubensis in Africa”, os cientistas também apresentam possíveis cenários evolutivos para explicar a separação entre as duas espécies há milhões de anos.
Naquela época, as áreas de pastagem estavam se expandindo na América do Sul, enquanto herbívoros que se alimentavam nesses ambientes, e cujos dejetos servem de substrato para o crescimento desses cogumelos, migravam da África para a Eurásia.
Segundo os pesquisadores, essas mudanças ecológicas podem ter criado as condições ideais para que P. cubensis e P. ochraceocentrata evoluíssem de forma independente.
