Rainha de abelha sobrevive dias submersa e intriga cientistas

Rainha de abelha sobrevive dias submersa e intriga cientistasScience Alert

A descoberta de que rainhas de mamangavas conseguem sobreviver por mais de uma semana submersas em água surpreendeu cientistas em 2024. Agora, um novo estudo revelou o mecanismo por trás dessa habilidade extraordinária: esses insetos são capazes de retirar oxigênio diretamente da água, permitindo uma espécie de respiração temporária sob a superfície. A pesquisa é da Royal Society Publishing.

O fenômeno pode ser crucial para a sobrevivência das colônias. Quando o abrigo subterrâneo onde a rainha passa o inverno é inundado, essa capacidade aumenta significativamente as chances de ela resistir até que as condições ambientais se estabilizem, permitindo que a colônia seja reconstruída posteriormente.

Segundo os pesquisadores, o achado indica que alguns insetos terrestres podem possuir estratégias ocultas de resistência a eventos climáticos extremos, como enchentes repentinas.

AbelhaReprodução

“Nossos resultados revelam uma estratégia notável de tolerância a inundações e oferecem uma base para investigar os limites, os mecanismos e a importância ecológica da sobrevivência subaquática em insetos terrestres”, escreveu a equipe liderada pelo fisiologista evolutivo Charles Darveau, da Universidade de Ottawa, no Canadá.

Hibernação vulnerável

Durante o inverno, muitas espécies de insetos entram em um estado chamado diapausa, um período de desenvolvimento e metabolismo reduzidos, semelhante à hibernação. Para algumas rainhas de mamangava, isso significa encontrar um pequeno buraco no solo, onde permanecem imóveis até a chegada da primavera.

Esses refúgios subterrâneos, no entanto, nem sempre permanecem seguros. Chuvas intensas, degelo ou a elevação do lençol freático podem inundar esses locais inesperadamente. E, nesse estado de metabolismo lento, a abelha não tem agilidade para escapar rapidamente.

Apesar disso, uma espécie norte-americana parece ter desenvolvido uma adaptação impressionante para lidar com esse risco.

AbelhaFabian Keller/Unsplash

Sobrevivência surpreendente

Pesquisas anteriores já haviam mostrado que cerca de 90% das rainhas da espécie Bombus impatiens sobrevivem após permanecerem até uma semana submersas.

Agora, cientistas conseguiram entender melhor como isso acontece. A sobrevivência depende de três fatores principais:

  • Respiração subaquática, com extração de oxigênio da água
  • Metabolismo anaeróbico, produção de energia sem oxigênio
  • Depressão metabólica profunda, redução extrema das funções vitais

Experimentos em laboratório

Para investigar o fenômeno, os pesquisadores realizaram experimentos com dezenas de rainhas em diapausa. As abelhas foram submersas em água fria enquanto os cientistas monitoravam o metabolismo e a troca de gases.

A equipe analisou os níveis de oxigênio e dióxido de carbono tanto na água quanto no ar da câmara experimental. Os resultados mostraram uma queda gradual no oxigênio e um leve aumento no dióxido de carbono, evidência de que as abelhas estavam respirando mesmo submersas.

Outro indício importante foi o acúmulo de lactato, substância produzida quando as células geram energia sem oxigênio suficiente. Isso indica que parte do metabolismo das abelhas passa a funcionar em modo anaeróbico durante a submersão.

Metabolismo quase desligado

Além disso, o metabolismo das rainhas diminui drasticamente.

A diapausa já reduz a atividade metabólica em mais de 95%, mas a submersão provoca uma queda ainda maior. Antes de entrar na água, as abelhas produziam cerca de 15,42 microlitros de dióxido de carbono por hora por grama de massa corporal.

Após oito dias submersas, esse valor caiu para 2,35 microlitros, cerca de um sexto do nível original.

Essa redução extrema no gasto energético permite que as rainhas sobrevivam mesmo com pouca disponibilidade de oxigênio.

Mistério ainda não resolvido

Apesar das descobertas, uma parte do mecanismo ainda permanece um enigma.

Os cientistas acreditam que as abelhas utilizem uma espécie de “brânquia física”, uma fina camada de ar presa ao corpo do inseto que permite a troca de gases com a água ao redor. No entanto, essa hipótese ainda precisa ser confirmada por experimentos adicionais.

Os pesquisadores também pretendem investigar por quanto tempo as rainhas conseguem manter essa estratégia e quais fatores ambientais podem limitar essa capacidade.

Estudos futuros devem manipular diferentes condições da água e analisar detalhadamente a recuperação das abelhas após a submersão. O objetivo é entender melhor como essas adaptações evoluíram, e até onde vai a surpreendente resistência desses insetos.

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