Guerras Lembradas, Guerras Esquecidas

Ataque à Shiraz, no IrãReprodução/redes sociais

*Por Marcos L Susskind

O mundo moderno se caracteriza cada vez mais por um conceito quase universal: a busca de algum “culpado” para cada tipo de questão. Sempre se busca um “culpado” pela inflação, um para a educação precária, um para as questões de saúde pública e principalmente para situações de conflitos ideológicos, polícos ou bélicos.

No cenário atual todos os olhos estão voltados para o Oriente Médio, onde os EstadosUnidos aliados a Israel combatem o governo teocrático e terrorista Iraniano. Jornais, revistas, sites na internet, emissoras de TV dedicam um incrível espaço a analisar este conflito, trazendo discussões de especialistas, imagens espetaculares, entrevistas com populares e pareceres de políticos.

Por outro lado há crises imensas que não merecem sequer um pequeno olhar desses mesmos canais. Analisemos alguns.

Síria: O país passou por uma longa guerra civil entre 2011 e 2025 – 14 anos de matanças, deslocamentos, destruição. Este conflito gerou a morte de 750.000 pessoas, dos quais mais de 500.000 civis. Mais de 6.100.000 buscaram refúgio no exterior enquanto 6.700.000 foram desloicados internamente, cerca da metade deles por três ou mais vezes. Cerca de 5.100.000 ainda são considerados “refugiados internos”, pessoas deslocadas vivendo de forma precária longe de seus redutos – mas o caso Sírio não aparece na imprensa nem nas discussões acadêmicas. Qual o motivo?

Myanmar: a esmagadora maioria das pessoas, incluindo os altamente instruídos sequer sabe onde fica Myanmar e, provavelmente, não tenha idéia que há uma guerra civil que destrói o país há cinco longos anos. 20.000.000 de pessoas (4 de cada dez habitantes) estão abaixo da linha de pobreza, e a guerra fez 3.000.000 deles terem de abandonar suas casas. O caso Myanmar não aparece na imprensa nem nas discussões acadêmicas. Qual o motivo?

Iemen: Em 2014 o grupo revolucionário Houti, estimulado e financiado pelo Irã, tomou a capital Sanaa e se declarou o governante legítimo do Iemen. O Governo legal fugiu de Sanaa, se instalou no Sul, com apoio da Arábia Saudita. Desde então ocorre uma guerra civil que já ceifou 427.000 vidas, das quais 267.000 morreram de fome (95.000 delas crianças abaixo de 5 anos de idade). 4.300.000 de pessoas foram deslocadas internamente. A guerra segue, sangrenta. O caso Iemen não aparece na imprensa nem nas discussões acadêmicas. Qual o motivo?

Afeganistão e Paquistão: A tensão permanente entre estes dois países eclodiu em mais uma guerra, que se iniciou em 26/02, apenas dois dias antes da guerra contra o Irã. A guerra segue, com ataques aéreos e de infantaria, mortes em ambos os lados e tentativas frustradas de conseguir um cessar-fogo. A guerra deles não aparece na imprensa nem nas discussões acadêmicas. Qual o motivo?

Guerra Russo-Ucraniana: Rússia e Ucrânia se debatem em diferentes guerras desde a tomada da Criméia em 2014, seguida da guerra em Dombas por sete anos e agora a imensa invasão Russa que completou 4 anos. 8.000.000 de pessoas fugiram para o exterior (cerca de 500,000 retorrnaram), no que se considera o maior deslocamento populacional desde a II Guerra Mundial. Nesta guerra a Rússia perdeu quase 1.300.000 soldados (350.000 mortos, os demais inválidos) enquanto a Ucrânia teve cerca de 500.000 baixas (cerca de 140.000 mortos). A guerra ocupou imensos espaços na mídia, mas “sumiu” das manchetes desde o início das hostilidades no Oriente Médio. Também neste caso não conheço o motivo.

Não vou analisar cada um, mas cabe mencionar outros conflitos banhados em sangue que não encontram espaço na mídia: Sudão, Burkina Fasso, Somália e Nigéria.

Sobra então uma pergunta: qual o motivo que explica que conflitos onde Israel é envolvido ocupem tamanho espaço, totalmente desproporcional quando se considera a duração da guerra, o número de deslocados, o número de mortos, o colapso econômico ou a destruição de infraestrutura? A resposta, se existir, cabe a você, leitor.

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