Gigantes da tecnologia estão escondendo os seus maiores data centers dentro de cavernas geladas no Círculo Polar Ártico

Gigantes da tecnologia estão escondendo os seus maiores data centers dentro de cavernas geladas no Círculo Polar Ártico

Os data centers mais eficientes do mundo não estão no Vale do Silício nem em Frankfurt. Meta, Microsoft, Google e IBM instalaram seus maiores complexos de servidores no Círculo Polar Ártico, onde as temperaturas negativas eliminam a principal despesa operacional da indústria: o resfriamento mecânico.

Por que o Círculo Polar Ártico virou o destino dos maiores data centers do mundo?

A maior despesa de operar um data center não são os servidores. Nos trópicos, os sistemas de refrigeração consomem até 50% de toda a energia elétrica de uma instalação convencional, sem nenhuma utilidade além de evitar que os equipamentos derretam.

A métrica que define a eficiência energética do setor é o PUE (Power Usage Effectiveness): a razão entre toda a energia consumida e a energia efetivamente usada pelos servidores. A média global fica em 1,58. Os data centers árticos operam consistentemente entre 1,07 e 1,15, uma diferença que representa centenas de milhões de euros anualmente em economia de energia.

Nos trópicos, os sistemas de refrigeração consomem até 50% de toda a energia elétrica de uma instalação convencional, sem nenhuma utilidade além de evitar que os equipamentos derretam

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Como o resfriamento ártico reduz o consumo de energia de um data center em até 90%?

Quando o ar externo já está abaixo de zero, não há necessidade de compressores nem chillers. A Finlândia oferece até 8.000 horas anuais de resfriamento livre, cobrindo mais de 90% do ano sem acionar nenhum sistema mecânico de refrigeração.

Nos fiordes noruegueses, a água mantida a 8 °C estável o ano inteiro funciona como um dissipador natural de calor praticamente ilimitado. Trocadores em circuito fechado aproveitam essa temperatura sem contato direto entre a água do fiorde e os equipamentos dos servidores.

Trocadores em circuito fechado aproveitam essa temperatura sem contato direto entre a água do fiorde e os equipamentos dos servidores

O data center da Meta em Luleå opera com PUE de 1,07 desde 2013

Em junho de 2013, a Meta inaugurou em Luleå, no norte da Suécia, a 70 km do Círculo Polar Ártico, o seu primeiro data center fora dos Estados Unidos. A temperatura local varia entre -20 °C no inverno e 10 °C no verão, eliminando a refrigeração mecânica por longos períodos. O calor gerado pelos servidores aquece os escritórios do campus por um sistema de recuperação de calor residual.

A energia vem de doze usinas hidrelétricas nos rios de Norrland, mantendo o campus alimentado por 100% de energia renovável. Com PUE médio de 1,07, um dos mais baixos já registrados para um hyperscale data center, o site atende hoje mais de 75% dos usuários europeus da Meta.

Lefdal Mine Datacenter: 120.000 m² de servidores dentro de uma montanha norueguesa

O Lefdal Mine Datacenter (LMD), instalado em uma mina de olivina desativada na costa oeste da Noruega, dispõe de 120.000 m² de área subterrânea, o equivalente a 17 campos de futebol dentro de uma montanha. A rocha ao redor mantém a temperatura interna em 8 °C constantes sem nenhuma refrigeração artificial, e o resfriamento é feito com água bombeada do fiorde a 565 metros de profundidade.

São 12 trocadores de calor de 7,5 MW cada, totalizando 90 MW de capacidade de resfriamento, com suporte a racks de até 50 kW por unidade e PUE inferior a 1,15. O ciclo de resfriamento segue estas etapas:

  • Água fria do fiorde é captada a 565 metros e conduzida aos trocadores de calor no Nível 3 da mina
  • Um circuito fechado de água doce absorve o frio e distribui a água gelada pelos pisos elevados dos corredores de servidores
  • Sistemas inline convertem a água fria em ar frio, distribuído diretamente para os racks
  • A água doce aquecida retorna ao trocador e transfere o calor para a água do fiorde
  • A água do fiorde é devolvida ao mar sem contaminantes, pois os dois circuitos nunca se misturam
A água do fiorde é devolvida ao mar sem contaminantes, pois os dois circuitos nunca se misturam

A expansão do modelo ártico ganhou um novo capítulo em março de 2026. O canal Olhar Digital, com mais de 945 mil inscritos, detalhou o projeto da Microsoft em parceria com Nscale e Aker para construir um grande data center em Narvik, a 250 km do Círculo Polar Ártico, com investimento estimado em mais de US$ 6 bilhões.  O vídeo aborda a estratégia de usar o frio extremo para reduzir os custos de resfriamento de servidores de inteligência artificial e o paradoxo climático que ameaça a viabilidade futura do modelo:

O aquecimento global ameaça a viabilidade futura dos data centers que dependem do Ártico

Um estudo publicado em 2024 sobre a pegada ambiental dos data centers na Suécia confirmou que a combinação de resfriamento livre com energia renovável reduz as emissões de gases de efeito estufa em até 90% frente a instalações em regiões quentes com energia fóssil. O mesmo estudo identificou uma externalidade positiva: o calor residual dos servidores, integrado às redes de aquecimento urbano, pode abastecer bairros inteiros durante o inverno ártico.

Instalação País Fonte de resfriamento PUE aproximado
Meta Luleå Suécia Ar externo ártico 1,07
Lefdal Mine Datacenter Noruega Água de fiorde a 8 °C Abaixo de 1,15
Green Mountain Noruega Água de fiorde Abaixo de 1,15
Verne Global Islândia Ar subártico Abaixo de 1,20
Microsoft Espoo Finlândia Ar externo + aquecimento urbano Abaixo de 1,15

A ironia não passa despercebida pelos pesquisadores: o Ártico aquece quatro vezes mais rápido que a média global, e são exatamente essas temperaturas que tornam esses data centers economicamente viáveis. Se o aquecimento avançar no ritmo atual, a janela de resfriamento livre pode começar a se estreitar nas próximas décadas, tornando ainda mais urgente a transição para modelos de eficiência que não dependam exclusivamente do clima externo.

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