Cidades pequenas são as mais violentas de SP; veja quais

Tráfico e facções: cidades pequenas são as mais violentas de SPImagem gerada por IA

A falta de segurança é um assunto recorrente na região metropolitana do Vale do Paraíba e Litoral Norte. Uma das regiões mais importantes – geográfica e economicamente – de São Paulo, com 3 milhões de habitantes, tem um histórico de violência e de crimes hediondos ligados ao tráfico de drogas e às maiores facções do país.  

E apesar de grandes centros urbanos, como São José dos Campos (727 mil habitantes) e Taubaté (322 mil habitantes), as cidades mais perigosas para viver têm menos de 100 mil habitantes. Entre elas, nos últimos anos, Lorena e Cruzeiro se revezam no topo da lista dos lugares com os piores índices.

Eixo Rio-São Paulo e eixo da violência 

Conhecido pelo que ficou conhecido como ”turismo da fé”, em Aparecida e Cachoeira Paulista, e por ser polo industrial e de tecnologia, berço da Embraer e do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), o Vale do Paraíba fica às margens da Via Dutra, ligação das duas maiores cidades brasileiras – Sao Paulo e Rio de Janeiro. 

Na Dutra existem acessos diretos para áreas de serra (Campos do Jordão) e para o Litoral Norte (Ubatuba, Caraguatatuba e São Sebastião). Pela rodovia circula cerca de metade do PIB (total da produção de riquezas) do Brasil.

Toda essa ”ostentação” econômica convive com dados alarmantes de violência. Um dos marcos para a piora dos índices foi o surgimento da facção Primeiro Comando da Capital, o PCC, em um presídio de Taubaté, na década de 1990.

Ranking da violência tem duas cidades que sempre aparecem

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Atualmente, a região tem os números mais preocupantes na área da segurança pública de São Paulo, alguns maiores até que os da capital (veja ranking abaixo), onde a taxa de homicídios ficou em 4,6..

Segundo a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), Lorena, em primeiro no ranking, e Cruzeiro, em terceiro, tiveram as maiores taxas de assassinatos em 2025, além de Ubatuba, que não aparecia entre as 10 primeiras antes do ano passado..

O cálculo é feito com base no número de mortes a cada 100 mil habitantes.

Lorena (84,5 mil habitantes) – 27 homicídios; taxa 31,84 Ubatuba (92,9 mil habitantes) – 25 homicídios; taxa 26,91 Cruzeiro (74,9 mil habitantes) – 18 homicídios; taxa 24,03

Nos anos anteriores, Lorena e Cruzeiro também estavam entre as primeiras.

Em 2024, Lorena teve taxa de 23,58, com 20 homicídios registrados. Foi o terceiro maior número de São Paulo. No mesmo ano, Cruzeiro teve a maior taxa – 30,71 – com 23 assassinatos.

Um ano antes, Cruzeiro já era a cidade paulista mais violenta do estado, com 28 homicídios e taxa de 37,38. Lorena apareceu em seguida, contabilizando 27 homicídios e taxa de 31,84 naquele ano. 

Furtos e roubos também preocupam

Tráfico e facções: cidades pequenas são as mais violentas de SPRedação iG

Os moradores das cidades mais violentas sentem no dia a dia a piora do cenário. Uma prova disso está nos números de furtos e roubos.

Em 2023 (453), 2024 (523)  e 2025 (551), Lorena teve mais de um furto por dia.

O crime de roubo foi registrado 97 vezes em 2025, 155 em 2024 e 127 em 2023. 

Em Cruzeiro, a quantidade de furtos também se manteve acima de 400 por ano. Foram 677 em 2023, 559 em 2024 e 492 no ano passado. Nesses mesmos anos, os roubos chegaram a 113 (2023), 50 (2024) e 65 em 2025. 

Outro dado que chama a atenção é o de crime de lesão corporal nas duas cidades.

Ano passado, em Lorena, foram registradas 302 ocorrências. Em 2024 e 2023, a marca era de 258 e 259, respectivamente.

Em Cruzeiro nesses mesmos anos, foram 303,  273 e 280, respectivamente.

Rota de fuga do tráfico 

Tráfico e facções: cidades pequenas são as mais violentas de SPRedação iG

Os números não são coincidência. Lorena e Cruzeiro estão próximas das divisas com Minas Gerais e Rio de Janeiro. A localização é uma das razões para os índices estarem elevados, já que ela favorece a criminalidade na região, por ser rota de três estados, os mais populosos do país.

Para o coronel aposentado da Polícia Militar, Eduardo Stanelis, a violência nessas cidades é fruto de fatores geográficos e sociais específicos, como a disputa de território entre facções criminosas, virtualização e monitoramento de rivais.

Ainda para o coronel, a vulnerabilidade social e a participação de jovens no crime acabam sendo outro fator para os altos índices em Cruzeiro e Lorena.

Tráfico e facções: cidades pequenas são as mais violentas de SPArquivo pessoal

Guerra entre bandidos interfere no dia a dia da população 

Há quem diga que as mortes decorrentes da briga pelo tráfico de drogas não afetam a vida dos moradores de maneira geral, e que elas não representam os números de violência de uma cidade por envolveram geralmente pessoas que já cometem crimes.

O professor e doutor em Sociologia e ex-secretário adjunto de Segurança Pública de Minas Gerais, Luís Flávio Sapori, discorda.

Ainda de acordo com Sapori, as mortes ligadas ao tráfico de drogas explicam a maioria das mortes do Brasil nos últimos 20 anos.

Estado e prefeituras respondem sobre ações contra a violência 

O iG perguntou ao governo estadual se há ações em andamento para tornar a região segura. 

A SSP informou para a reportagem que, em um contexto geral, os números de homicídios dolosos estão diminuindo em todo o estado, inclusive na região de Lorena, cidade que demanda o maior número de acoes por estar repetidamente entre as mais violentas. 

“A Secretaria da Segurança Pública informa que o enfrentamento aos crimes contra a vida é tratado como prioridade permanente e integra o programa SP Vida, que realiza a análise contínua de todas as ocorrências de homicídio doloso para subsidiar ações operacionais, investigativas e de prevenção. Os dados consolidados de 2025 mostram que o Estado de São Paulo registrou, pelo terceiro ano consecutivo, o menor número de homicídios dolosos da sua série histórica, com 2.438 casos, o que representa uma redução de 3,1% em relação a 2024. No interior do estado, a queda foi ainda mais expressiva, de 7,9%, e a Seccional de Guaratinguetá, responsável pela região de Lorena, apresentou redução de 16,6% no número de homicídios dolosos, com 14 casos a menos”..

Ainda de acordo com a SSP, ao longo de 2025, houve prisão e apreensão de 353 infratores e retirada de 41 armas de fogo de circulação em Lorena.

O iG também questionou as prefeituras de Lorena e de Cruzeiro a respeito dos números e de políticas públicas para acabar com o crescimento da violência.

Lorena informou que acompanha com atenção os dados sobre os índices de homicídios e reforça a importância do trabalho das polícias Civil e Militar, esperando a intensificação das investigações, o fortalecimento das ações de inteligência, o policiamento ostensivo permanente e a realização de operações direcionadas às áreas com maior incidência criminal, de forma a coibir a violência e responsabilizar os autores dos crimes.

Além disso, afirmou que tem contratou de 15 novos agentes de segurança e um projeto para ampliação do Centro de Operações Integradas (COI).

A prefeitura de Cruzeiro informou que os índices de criminalidade vêm apresentando queda. Na comparação entre 2021 e 2025, por exemplo, a redução nos casos de homicídio ultrapassa 57%.

O governo municipal garantiu que tem investido na ampliação do centro de operações, passando de 94 para 748 equipamentos instalados em pontos estratégicos. E que o órgão conta com ações de prevenção primária, com investimentos em iluminação pública, lazer, assistência social e geração de emprego. 

O que pode ser feito para reduzir a insegurança nas pequenas cidades 

Rota de tráfico e facções; veja as cidades mais violentas de SPDaniel Leite Andrade

Para o coronel Eduardo, existem muitas ações que podem ajudar a melhorar esses números e que só com o envolvimento de toda a sociedade será possível melhorar a situação de forma satisfatória

O envolvimento dos órgãos públicos é fundamental, tanto em recuperação de sistemas urbanos, quanto em ações sociais.

Na avaliação de Sapori, duas estratégias são fundamentais a curto prazo: presença da Polícia Militar e identificação dos líderes do tráfico na região.

Assassinatos nem sempre estão ligados a facções 

A violência muitas vezes não tem relação direta com a criminalidade. É o caso do feminicídio.

Em Lorena, um caso emblemático só fez piorar a sensação de insegurança que paira sobre a cidade há anos.

Tráfico e facções: cidades pequenas são as mais violentas de SPArquivo pessoal

No ano de 2024, a jovem Elda Fortes, de 29 anos, que era técnica de enfermagem na maternidade da Santa Casa, foi morta após ser espancada pelo ex-namorado dentro de casa.

O caso ganhou grande repercussão e mobilizou pessoas nas redes sociais em busca do homem que a matou, pois ele fugiu, mas foi preso dois meses depois.

A mãe de Elda, Valéria Fortes, busca forças para poder ajudar outras mulheres.

Morando na cidade que sempre figura entre as mais violentas, Valéria passou a atuar como Secretária de Políticas para a Mulher em Lorena, em um gesto de grande simbolismo.

Para ela, os números da violência na cidade não refletem o medo das mulheres, que deve ser tratado como um problema distinto, e muito grave.

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