
Hiper = excessivo, além do limite. Esse é o único prefixo que, na minha opinião, pode descrever a capacidade de adaptação do israelense às situações mais improváveis.
Está chovendo mísseis em plena festividade de Purim? A festa rola dentro de bunkers. É proibido realizar eventos encima da terra? O casamento acontece no 4º andar do subsolo de um shopping center. Está difícil manter as crianças (sem aulas há três semanas) fechadas no apartamento? É hora de passar uma temporada curta em uma região mais calma do país.
Todo mundo reclama, mas aguenta — e toca adiante. O que não tem remédio, remediado está.
Viver sem planos
Jogo de cintura é uma expressão que precisa ser levada a sério em um Oriente Médio que, por pensar tão diferente de você, o força a viver em um universo paralelo e encontrar forças para buscar algum tipo de equilíbrio dentro do caos. Para viver em Israel, caso você venha de outro país, é preciso desenvolver um tipo de hiperadaptabilidade, uma capacidade que lhe permita mudar o tempo inteiro suas rotinas e seus planos.
Ou talvez nem mudá-los: simplesmente viver sem eles.
Isso, em Israel, vale ouro. Pois não se credita justamente à flexibilidade e à criatividade do israelense o fenômeno econômico que o coloca entre os países com maior número de empresas inovadoras per capita? Pois são justamente essas, arrisco dizer, algumas das características que o protegem da completa insanidade que é enfrentar por mais de 900 dias uma guerra contra frentes que se alternam sob circunstâncias inéditas no mundo.
Meus “não planos” de aniversário
Sempre viajo para comemorar meus aniversários. Neste ano, meu plano — ah, esse malvado que vive escapando de minhas mãos — era ir para a Albânia, passar meu dia feliz navegando pelo lago Koman. Por não ser boba nem nada, comprei passagens com a El Al, a companhia israelense que, em casos de “guerras menores”, digamos assim, não deixa de voar. Mais ainda: comprei no próprio site da empresa, para garantir que, em caso de apuros, fosse fácil pleitear o estorno do valor.
Bingo: Um dia antes do embarque, o voo foi cancelado em função da atual guerra com o Irã. Aceitei resignada e parti imediatamente para a próxima opção na lista reduzida de possibilidades (frente a um aeroporto praticamente inoperante e o norte de Israel sob tempestades de mísseis do Hezbollah) e assim chegamos na última cidade do sul, Eilat. Lá no fim do mapa, no meio de um deserto sem fim, é um dos únicos locais por aqui que poderia nos oferecer algo tão desejado quanto os Alpes albaneses nesse momento: noites silenciosas de sono, sem as constantes interrupções provocadas pelo alerta horroroso que nos avisa da iminente chegada de um míssil balístico.
Achei que eu havia sido genial em minha decisão até encontrar por lá uma multidão de israelenses que já tinha feito o mesmo há bem mais tempo.
E as crianças?
Conversei com dois amigos, em momentos diferentes, a respeito do impacto que essa total falta de previsibilidade e a constante improvisação podem causar na geração de crianças e jovens que, nos últimos 2,5 anos, em lugar de correr para a escola, corre para o bunker. (Importante: claro que existe o trauma provocado pelo medo existencial, mas esse não é meu assunto aqui.)
Há a possibilidade de que a geração deles não se torne mais louca do que as de 1948 (Guerra da Independência), de 1967 (Guerra dos Seis Dias) ou de 1990 (Guerra do Golfo — Israel não atacou o Iraque, mas foi atacado por ele e viveu sob a ameaça de armas químicas).
Além disso, me parece que esta geração está mais protegida emocionalmente do que a minha e a de meus amigos cinquentões. Afinal, nós ansiamos pela estabilidade e pela certeza. Estabelecemos metas e almejamos cumpri-las. Pensamos em processos com começo, meio e fim. A geração dos nossos filhos não: tudo acontece em paralelo, improvisação é uma capacidade quase natural e viver o hoje, porque sabe-se lá se haverá um amanhã, é um código existencial.
Obviamente, nem todos têm a mesma constituição emocional e há muita gente, muita mesmo, de todas as idades, que infelizmente está pagando com sua saúde mental o preço de viver aqui.
Que para elas, e para todos nós, seja esta a guerra que encerra todas as demais.
