Universidades americanas são nova frente de rivalidade no Golfo?

HarvardDivulgação

*Por Nira Broner Worcman

Um relatório recente do Comitê de Educação e Força de Trabalho da Câmara dos EUA sobre o antissemitismo no ensino superior apresenta uma conclusão alarmante: após o 7 de outubro, muitos campi universitários nos Estados Unidos deixaram de ser espaços de debate para se tornarem ambientes onde a hostilidade contra estudantes judeus é cada vez mais normalizada. O documento registra o aumento de assédio, o uso de uma retórica que por vezes se confunde com justificativas para a violência e uma crescente relutância por parte de líderes universitários em aplicar suas próprias regras quando determinados discursos são enquadrados como ativismo político.

Esse alerta aponta para um problema institucional mais amplo. As universidades não estão apenas tendo dificuldade em responder ao extremismo ideológico; elas também estão cada vez mais inseridas em redes globais de financiamento, influência e engajamento político. Nesse contexto, correm o risco de deixar de ser meros espaços de debate para se tornarem arenas onde conflitos externos são projetados para dentro — incluindo a rivalidade estratégica entre países do Golfo, que agora se manifesta em campi ocidentais.

No início deste ano, os Emirados Árabes Unidos suspenderam bolsas governamentais para estudantes que planejavam ingressar em universidades britânicas, citando preocupações com a radicalização islamista nos campi do Reino Unido. Durante décadas, instituições ocidentais foram vistas no mundo árabe como portas de entrada para a modernidade — exportadoras de ciência e pluralismo. Hoje, porém, um Estado árabe sinaliza que esses espaços podem já não ser ideologicamente neutros, e teme que seus estudantes voltem do Ocidente radicalizados.

O protagonismo britânico nesse cenário reflete escolhas políticas de longa data. O Reino Unido não classifica formalmente a Irmandade Muçulmana como organização terrorista e há anos serve como um polo de ativismo ligado ao grupo. A academia britânica também recebe um número significativo de estudantes do Catar e mantém vínculos financeiros e institucionais com Doha, inserindo seus campi em um ecossistema mais amplo de engajamento e soft power catariano. Isso é relevante porque o Catar e os Emirados Árabes Unidos estão em lados opostos de uma disputa regional mais ampla em torno do islamismo político.

Desde a assinatura dos Acordos de Abraão, em 2020, os Emirados Árabes Unidos têm se posicionado como um ator regional voltado à estabilidade, à integração econômica e à contenção da influência islamista. O Catar, por outro lado, continua a abrigar figuras da Irmandade Muçulmana e líderes políticos do Hamas, ao mesmo tempo em que amplia sua presença global por meio da mídia, como a Al Jazeera,  e de parcerias com instituições de pesquisa e universidades.

Embora o Reino Unido tenha despertado a preocupação mais imediata em Abu Dhabi, a questão mais ampla da influência ideológica em instituições ocidentais vai além da Grã-Bretanha. Em nenhum lugar essa dinâmica é mais relevante do que nos Estados Unidos.

Dados divulgados pelo Departamento de Educação dos EUA mostram que universidades americanas reportaram mais de US$ 4 bilhões em financiamento proveniente do Catar nas últimas duas décadas, colocando o país entre os maiores financiadores estrangeiros do ensino superior americano. Instituições como Cornell University, Georgetown University, Northwestern University e Texas A&M University registraram aportes significativos, destinados a programas de pesquisa, corpo docente e centros acadêmicos.

Parcerias internacionais e financiamento externo são práticas comuns no ensino superior global e não implicam automaticamente influência política. A preocupação não reside nessas relações em si, mas no ambiente político em que operam — especialmente quando movimentos ideológicos ligados a atores geopolíticos tornam-se cada vez mais visíveis no ativismo universitário.

Eventos recentes em campi americanos ajudam a explicar por quê. Após os ataques de 7 de outubro de 2023, universidades como Harvard University, Columbia University, University of California, Los Angeles e New York University testemunharam manifestações que, em alguns casos, ultrapassaram críticas à política israelense e passaram a incluir justificativas para a violência e apelos por uma “intifada global”,  uma retórica amplamente percebida por estudantes judeus como uma ameaça existencial. Audiências no Congresso posteriormente expuseram o quão difícil se tornou, para alguns dirigentes universitários, afirmar de forma clara que apelos ao genocídio dos judeus violam regras institucionais quando apresentados como expressão política.

O problema não são os protestos em si —  intrínsecos à vida acadêmica —, mas um tipo de ativismo ideológico que normaliza movimentos que rejeitam princípios liberais democráticos. Nesse ambiente, a rivalidade entre países do Golfo se cruza com a hesitação institucional do Ocidente, e os campi correm o risco de se tornar não apenas espaços de debate, mas arenas de sinalização estratégica.

Se Abu Dhabi concluiu que universidades britânicas estão incubando ideologias que considera desestabilizadoras, a mesma lógica poderá se estender aos Estados Unidos. As universidades americanas são ainda mais influentes globalmente do que suas equivalentes britânicas, formando futuros ministros, financistas e formadores de opinião de todo o Oriente Médio — o que as torna um terreno ainda mais valioso em qualquer disputa por ideias.

Resta saber se os Emirados Árabes Unidos adotarão medidas semelhantes em relação às instituições americanas. A parceria estratégica entre Washington e Abu Dhabi é mais profunda do que os laços educacionais entre Emirados e Reino Unido. Além disso, embora os Estados Unidos não classifiquem a Irmandade Muçulmana como organização terrorista estrangeira, designam o Hamas — que surgiu como um braço palestino da Irmandade — como grupo terrorista.

A decisão dos Emirados em relação às bolsas no Reino Unido deve, portanto, ser vista como parte de uma disputa regional mais ampla sobre o islamismo político e o futuro do Oriente Médio. Se essa disputa está cada vez mais sendo travada dentro de universidades ocidentais, os americanos precisam enfrentar uma pergunta incômoda, mas inevitável: suas universidades são apenas observadoras dessa rivalidade — ou estão se tornando sua próxima frente?

*Jornalista, CEO da Art Presse Comunicação  e autora de Enxugando Gelo (2025 – edição hors commerce), sobre a cobertura midiática da guerra entre Israel e grupos terroristas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal iG

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