A escultura de Hércules em madeira que sobreviveu 1.700 anos submersa e emerge intacta em Ibiza

A escultura de Hércules em madeira que sobreviveu 1.700 anos submersa e emerge intacta em Ibiza

Uma escultura romana de Hércules em madeira foi encontrada em estado excepcional de conservação no centro de Eivissa, a capital da ilha de Ibiza, na Espanha. O achado ocorreu durante escavações para a construção de 60 moradias sociais na Avenida Isidor Macabich e paralisou as obras ao revelar um dos sítios arqueológicos mais raros já registrados nas Ilhas Baleares.

Como a escultura de Hércules sobreviveu 1.700 anos submersa?

A peça foi localizada a cerca de dois metros de profundidade, submersa no lençol freático local, que nessa área começa a 1,2 metro abaixo da superfície. O ambiente formado era anaeróbico: sem oxigênio, os micro-organismos responsáveis pela decomposição da madeira não conseguem sobreviver. O resultado foi uma câmara natural de preservação que manteve o material orgânico praticamente intacto por quase dois milênios.

A arqueóloga responsável pela escavação, Glenda Graziani, explicou à agência EFE que o sítio esteve em um ambiente sem oxigênio, submetido a uma umidade e temperatura constantes. É uma combinação raramente encontrada em contextos arqueológicos urbanos da ilha, tornando o achado ainda mais significativo.

A peça foi localizada a cerca de dois metros de profundidade, submersa no lençol freático local, que nessa área começa a 1,2 metro abaixo da superfície

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O silo romano que virou uma cápsula do tempo

A escultura estava depositada no interior do que foi originalmente um silo de cereais romano, depois reconvertido em poço de lixo durante a Antiguidade Tardia. Com o passar dos séculos, as águas subterrâneas inundaram o poço e criaram o ambiente anaeróbico que garantiu a preservação de tudo o que havia ali dentro.

O arqueólogo Juan José Marí Casanova, co-responsável pela escavação, observou que a comparação mais próxima para esse tipo de preservação são os pântanos turfosos do norte da Europa, ambiente completamente distinto do mediterrâneo. Encontrar esse efeito em Ibiza é o que torna o achado extraordinário para a arqueologia da região.

A escultura estava depositada no interior do que foi originalmente um silo de cereais romano, depois reconvertido em poço de lixo durante a Antiguidade Tardia

O que a escultura de 30 centímetros revela sobre a Ibiza romana?

A estátua de Hércules tem 30 centímetros de altura e exibe acabamento detalhista suficiente para identificar o herói greco-romano com segurança iconográfica. As primeiras datações a situam no século III d.C., correspondendo a aproximadamente 1.700 anos. É a única escultura em madeira desse período já encontrada nas Ilhas Baleares, num contexto climático quente e úmido onde a sobrevivência de matéria orgânica dessa antiguidade é considerada quase impossível.

O contexto histórico aprofunda o achado: Ibiza era conhecida na Antiguidade como Ebusus e integrou o mundo romano após a queda de Cartago, em 146 a.C. Sob domínio romano, funcionava como porto comercial próspero, com seu ancoradouro principal localizado exatamente onde hoje fica a cidade de Eivissa. Segundo o portal Archaeology Wiki, a hipótese preliminar é que o sítio era originalmente um espaço habitacional romano, possivelmente com uso agrícola, reutilizado durante a época medieval islâmica.

O canal Amazing Archaeology, com 4,2 mil inscritos no YouTube, dedicou parte de seu episódio semanal de descobertas globais ao Hércules de Ibiza. Com 385 visualizações, o vídeo apresenta o contexto da descoberta ao lado de outros achados arqueológicos da mesma semana ao redor do mundo:

Que outros achados acompanharam a escultura no mesmo sítio?

Além da escultura, o ambiente anaeróbico preservou materiais orgânicos que normalmente não sobrevivem em solos mediterrâneos. São objetos do cotidiano de Ebusus que oferecem uma janela rara para a vida comum da época.

  • Sola de calçado em couro, com estrutura ainda identificável pelos conservadores
  • Ferramentas em processo de análise no laboratório do museu
  • Sementes que serão estudadas no programa acadêmico MEEDFREENREV, dedicado à revolução verde no Mediterrâneo medieval
  • Fragmentos de figo e uma romã amassada, com dados sobre práticas agrícolas da Antiguidade e da Idade Média islâmica

Casanova destacou que esses materiais são “menos espetaculares que a estátua de Hércules, mas arqueologicamente muito importantes”. Cada item contribui para reconstruir como a população de Ebusus cultivava, se alimentava e vivia no dia a dia.

Como será a restauração da escultura e quando ela poderá ser vista?

A peça foi transferida imediatamente para o laboratório do Museu Arqueológico de Eivissa e Formentera (MAEF), onde uma equipe de conservadores trabalha na sua estabilização. O processo é delicado: a madeira que ficou submersa por séculos precisa secar de forma lenta e controlada. Qualquer variação brusca de temperatura ou umidade pode causar rachaduras irreversíveis ou o colapso da estrutura fibrosa interna.

Casanova estima que o processo de conservação levará meses antes que a peça possa ser estudada em profundidade ou exposta ao público. A tabela abaixo reúne os dados centrais do achado:

Aspecto Detalhe
Dimensão da peça 30 cm de altura
Datação estimada Século III d.C. (aprox. 1.700 anos)
Profundidade do achado Cerca de 2 metros
Motivo da preservação Ambiente anaeróbico formado pelo lençol freático
Local atual Laboratório do MAEF, Eivissa
A peça foi transferida imediatamente para o laboratório do Museu Arqueológico de Eivissa e Formentera (MAEF), onde uma equipe de conservadores trabalha na sua estabilização

Por que essa escultura é única para a arqueologia mediterrânea

Em regiões de clima quente e úmido como o Mediterrâneo, a sobrevivência de madeira com quase dois mil anos em solo urbano é tratada como exceção absoluta. A escultura de Hércules de Ibiza reúne as condições perfeitas que raramente coexistem: contexto anaeróbico, temperatura constante e ausência de perturbação humana por séculos.

O achado não é apenas uma raridade para as Ilhas Baleares. É a prova de que o subsolo de cidades antigas ainda guarda registros que a superfície não imagina, esperando que alguém chegue fundo o suficiente para encontrá-los.

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