
Jair Bolsonaro deve ir para casa na sexta-feira (27), quando, ao que tudo indica, receberá alta da equipe médica que o atende no hospital Star DF, em Brasília.
Ele está internado desde o dia 13 de março com um quadro de pneumonia decorrente de broncoaspiração.
Pressionado a aliviar a pena para o ex-presidente, devido ao agravamento do quadro clínico, o ministro do STF Alexandre de Moraes cedeu, mas não envergou. A decisão salomônica foi estipular um prazo para Bolsonaro retornar à prisão, onde nada faltava, conforme fez questão de ressaltar em seu despacho – nem espaço, nem atendimento médico, nem aparelhos para exercícios, nem direito a visitas.
Em casa, o ex-presidente passa a coordenar a campanha do filho, Flávio, e de outros aliados, em um momento-chave das eleições. Mas seguirá sob estrita vigilância, sem acesso a celular e com uma tornozeleira eletrônica. Michelle que se cuide: é bom deixar o maçarico longe.
Não deixa de ser irônico o destino do homem que passou a pandemia toda dizendo que ficar em casa era para fracos. Em setembro de 2020, o então presidente dizia a uma plateia de ruralistas: “Vocês não entraram naquela conversinha mole de ‘fique em casa, que a economia a gente vê depois’. Isso é para os fracos. O vírus, eu sempre disse, era uma realidade, e tínhamos que enfrentá-lo. Nada de se acovardar perante aquilo que nós não podemos fugir dele”, disse.
Parecia falar com ele mesmo dali alguns anos.
De toda forma, é nítido que cresce, a partir de agora, a capacidade de influenciar os rumos eleitorais. As medidas restritivas são muitas, mas não são difíceis de driblar, como mostrou o deputado Nikolas Ferreira ao visitar Bolsonaro quando ele ainda estava em prisão domiciliar preventiva, ao exibir um aparelho de celular à mesa do anfitrião.
Flávio, que se habilitou como advogado do pai, poderá fazer visitas diárias ao chefe do clã, sem o constrangimento de estar sob vigilância em um complexo penitenciário. Bolsonaro certamente estará mais bem informado com a esposa ao lado o tempo todo. Ela será a mediação dele com o mundo afora, e as conversas não ficarão restritas apenas aos dias de visita.
Bolsonaro ficará mais livre para tomar decisões sobre aliados. Para o bem e para o mal deles.
Quem acompanha a rotina da família sabe que ela anda às turras com os enteados, que se ressentem pelo protagonismo assumido pela ex-primeira-dama durante as conversas para sensibilizar Alexandre de Moraes e outros ministros do Supremo. Ao menos o discurso de que o marido é perseguido ela não tem mais,
Mais difícil do que ditar os rumos no PL, que pretende eleger o maior número de senadores e governadores possível, será, para Bolsonaro, mediar as neuroses familiares num ambiente ainda fechado e restrito.
Mas que o peso no jogo agora é outro, é.
*Este texto não reflete necessariamente a opinião do Portal iG.
