
Depois das chuvas que deixaram mortos e casas interditadas em Juiz de Fora, uma família do bairro Jardim Natal encontrou um jeito de não desaparecer do próprio endereço: riscou números de telefone no portão de ferro e foi embora.
“Defesa Civil, favor me ligar quando estiver aqui”, diz o recado.
A casa ficou para trás. Fechada. Sem ninguém entrando.
Um mês depois, o telefone tocou. Do outro lado da linha, a Defesa Civil avisou: o imóvel vai ser demolido.
A vistoria aconteceu na terça-feira (24), quando os moradores não estavam no local. A casa já tinha sido interditada após os temporais do fim de fevereiro. Foi nessa visita que saiu o laudo com a decisão.
Ele conta que recebeu um documento com a orientação. No papel, segundo ele, há duas possibilidades: a demolição pode ser feita pela própria família ou pelo poder público, mas com responsabilidade atribuída ao proprietário.
“Se der algum problema, a culpa é minha. Tudo a culpa é minha. Então vai demolir. Eu não tenho dinheiro pra demolir. Fazer o quê? Deixa demolir. Não tem outra opção”, afirmou.
O recado no portão
Antes da interdição, o proprietário teve acesso ao interior da casa. Por lá, as imagens eram de destruição. Móveis detonados, colchões sujos de lama, terra que invadiu a residência e diversas outras perdas materiais.
Paredes externas cederam diante da força do deslizamento e afetou a estrutura da residência, algo que a família jamais poderia imaginar.
Após a interdição, sem poder entrar na casa e sem saber quando a equipe voltaria, a família improvisou. Pegou o que tinha e escreveu direto no portão.

Não foi bilhete colado. Nem papel preso com fita.
Os números foram riscados no ferro.
A mensagem ficou ali, visível para quem chegasse: um pedido simples para ser avisado.
A ligação veio um mês depois, por volta de 12h30, segundo a família. Não havia mais dúvida sobre a situação da casa.
Casas interditadas após a chuva
A cena se repete em outros pontos da cidade desde o fim de fevereiro, quando a chuva atingiu Juiz de Fora e cidades da Zona da Mata.
Foram 65 mortes no município. Em vários bairros, imóveis ficaram comprometidos por deslizamentos ou risco de queda.
Desde então, equipes da Defesa Civil percorrem as áreas atingidas para avaliar cada casa. Os laudos definem se o imóvel pode ser liberado, segue interditado ou precisa ser demolido.
No Jardim Natal, a decisão chegou por telefone. E começou com números riscados no portão.
Procurada, a Prefeitura informou que as orientações seguem avaliação técnica individual. Confira abaixo a nota na íntegra:
“A Prefeitura de Juiz de Fora informa que, em todos os casos de imóveis interditados, as orientações são definidas pela Defesa Civil com base em vistoria técnica individual.
A recomendação do Município é que nenhuma família retorne a residências interditadas sem liberação formal, já que a medida tem caráter preventivo e visa à preservação de vidas.
Após a avaliação, podem ser adotadas providências como manutenção da interdição, novas vistorias e encaminhamento da família para as medidas de assistência disponíveis, conforme cada caso.
A definição sobre retorno ao imóvel, necessidade de obras ou eventual desocupação permanente depende exclusivamente da conclusão técnica para cada residência, e o trabalho segue em andamento.”
