
O Relatório Anual sobre Antissemitismo no Brasil 2025, divulgado nesta segunda-feira (30) pela Confederação Israelita do Brasil (Conib) em São Paulo revela o agravamento dos casos de ódio contra judeus no país, somando 989 ocorrências formalmente registradas ao longo do ano.
A apresentação do documento foi realizada em entrevista coletiva concedida pela equipe da Conib, entre eles o presidente Claudio Lottenberg e a pesquisadora Anelise Froes.
O antissemitismo é definido como a hostilidade, preconceito, aversão ou ódio direcionado aos judeus, seja como indivíduos ou como grupo, motivado por crenças religiosas, raciais ou culturais.
Entre as ocorrências, o levantamento do Conib revela casos chocantes, como um ocorrido em março de 2025, quando um homem usando quipá e uma camiseta com escritas em hebraico, foi vítima de atentado ao atravessar a faixa de pedestres em Joaçaba, no interior de Santa Catarina. Um carro tentou atropelá-lo e ele teve que pular para se salvar.
Outro caso registrado envolve um sacerdote de um colégio no Rio de Janeiro que disse em discurso aos alunos que era necessário “se livrar dos judeus”, classificando-os como uma “raça violenta e suja”.
E, em novembro, um áudio de uma influenciadora digital viralizou nas redes: ela dizia que adoraria ver “sionistas em campos de concentração” e que, em um eventual governo seu, haveria “gulag e campo de concentração para judeus e sionistas”.
“Novo normal”
O documento da Conib é o mais abrangente já produzido sobre o tema no país: cruzou dados de denúncias formais, monitoramento digital de redes sociais, pesquisas de opinião pública e o maior levantamento intracomunitário já realizado entre judeus brasileiros.
Nele, a Conib chama de “novo normal” a realidade do antissemitismo no Brasil, que não recuou nos últimos anos, depois do pico de mais de 1.788 registros de ataques identificados em 2024.
Ainda na avaliação da Conib, a situação se estabilizou em um patamar 149% acima dos níveis de 2022, quando o volume era de 397 ocorrências.
Os especialistas consideram essa estabilidade ainda mais preocupante do que a própria escalada. O relatório fala em novo patamar.
A realidade da comunidade judaica
A pesquisa intracomunitária da CONIB, conduzida com 1.427 judeus brasileiros, revela que 86% avaliam o antissemitismo como um problema grave ou existente no Brasil; 1.231 dos respondentes afirmam que o fenômeno cresceu muito desde outubro de 2023.
Os efeitos sobre o cotidiano são concretos; 320 entrevistados, ou 22%, disseram que já deixaram de se identificar como judeus em alguma situação por receio.
Outros 250 afirmam já ter considerado fazer o mesmo.
Ainda do total de entrevistados, 945 consideram que relatos de antissemitismo pesam muito na escolha de onde estudar ou matricular os filhos.
Também 609 relatam ter sofrido discriminação em espaços online; 215, no ambiente de trabalho; 166, em escolas ou universidades.
Um dado específico resume o estado de alerta: 1 em cada 2 judeus diz se deparar com conteúdo antissemita nas redes todos os dias ou quase todos os dias.
Apenas 2% afirmam nunca ter visto esse tipo de material.
Alvo de ataque
A própria produção do levantamento da Conib foi alvo de ataques no espaço digital.
Entre 6 e 9 de janeiro de 2026, o formulário da pesquisa intracomunitária foi invadido por 150 acessos coordenados que usaram um campo aberto de comentários para inserir mensagens de ódio.
Entre as frases registradas pelos invasores estavam “a Conib devia ser incendiada com todos os judeus lá dentro” e “Holocausto? Deveria ter sido completo”.

As evidências foram encaminhadas às autoridades competentes.
Maioria das ocorrências acontece nas redes sociais
O problema é gravíssimo nas redes sociais, que concentram 80,9% das ocorrências registradas.
O Instagram lidera, com 37,1% dos casos online. O monitoramento sistemático de menções identificou 115.970 conteúdos antissemitas em 6,43 milhões de mensagens rastreadas ao longo do ano.
O alcance potencial estimado deste material é de 66 milhões de pessoas.
Um movimento preocupa os pesquisadores além dos números absolutos: a migração progressiva do conteúdo hostil para plataformas com menor capacidade de moderação, como Threads, TikTok e Discord.
Em julho, o relatório documentou o recrutamento de adolescentes via Discord para uma facção neonazista chamada “Misanthropic Division”, cujo objetivo declarado era atacar sinagogas em São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina.
O relatório registra ainda um sinal específico sobre a natureza do problema: em setembro, um usuário do Twitter/X publicou uma convocação para incendiar sinagogas e expulsar judeus do Brasil.
A Conib afirmou que a postagem foi denunciada e encaminhada ao seu comitê jurídico.

Ocorrências no ambiente escolar
Instituições de ensino foram apontadas por 1.058 respondentes como o principal espaço de manifestação do antissemitismo no Brasil, à frente das redes sociais e do ambiente político.
Os relatos recolhidos pela pesquisa cobrem desde crianças xingadas no recreio até professores universitários que proferiram frases como “é necessário fazer um inseticida para acabar com a praga judia”.
Em uma escola pública de São Paulo, um aluno foi repetidamente agredido por colegas que se apresentavam como “apoiadores palestinos” e precisou mudar de colégio.
Em outro caso, uma aluna de 15 anos encontrou uma suástica desenhada na própria carteira ao voltar do recreio, reclamou à direção por semanas e, sem resposta, também acabou saindo.
Registros em universidade
Ainda segundo a Conib, na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), cartazes foram afixados nos corredores com a frase “Sionista não é professor”.
A direção da Faculdade de Direito se manifestou defendendo a apuração rigorosa de ataques e o respeito ao diálogo. Em novembro de 2025, em parceria com a Conib, promoveu um evento para debater o antissemitismo.
Já na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), uma ocorrência ganhou repercussão nacional; um estudante compareceu à colação de grau com suástica desenhada no rosto. A universidade interveio e proibiu o estudante de participar do evento enquanto exibisse o símbolo. Após advertência, ele apagou a pintura e seguiu para a colação de grau.

Dos respondentes à pesquisa intercomunitária, 68% apontam o crescimento do antissionismo nas universidades como uma das principais ameaças à comunidade judaica nos próximos anos.
Ambiente coorporativo
Um levantamento do grupo Executivos Contra o Antissemitismo (ECOA), incorporado na pesquisa da Conib, entrevistou 1.003 profissionais de diferentes cargos.
Entre os judeus, 1 em cada 4 profissionais afirma que já ter sofrido alguma forma de clara antissemitismo na vida profissional.
Considerando situações incômodas ou vexatórias, 52% afirmam já terem ouvido piadas sobre judeus no trabalho.
Além disso, a maior parte das situações não gerou reprimenda formal por parte das empresas, e apenas 15% das organizações pesquisadas possuem políticas explícitas de combate ao preconceito étnico-religioso.

Opinião Pública
Um dos dados mais perturbadores do relatório, vem de uma pesquisa de opinião pública realizada pelo AtlasIntel, encomendada pela entidade StandWithUs Brasil, com 1.812 brasileiros: três em cada dez brasileiros não se sentem totalmente à vontade para ter um amigo judeu.
Outro ponto destacado é que 42% consideram legítima a comparação entre o tratamento de Israel aos palestinos e o que os nazistas fizeram aos judeus. Estereótipos com séculos de história são classificados por parcelas expressivas da população como opiniões razoáveis, sendo que 29% consideram legítima a afirmação de que o povo judeu foi responsável pela morte de Jesus; 28% acham natural desconfiar de judeus por suposta lealdade a Israel; 37% entendem como plausível que judeus têm mais sucesso financeiro do que outras pessoas.
Para os pesquisadores, o problema central não é apenas que essas ideias existam. É que quem as reproduz, em grande parte, não as reconhece como preconceito.
Na conclusão do relatório, a Conib fala em desinformação histórica.
Falta de informação
Um segundo recorte, conduzido pelo Grupo ISPO com 7.762 entrevistados em onze regiões metropolitanas, oferece um dado que o relatório usa como chave explicativa para a permissividade social: 87,3% dos brasileiros nunca participaram de nenhuma atividade educativa sobre o Holocausto.
Nenhuma palestra, nenhuma visita a museu.
Apenas 53,2% conseguem definir o genocídio nazista corretamente.
O paradoxo é nítido: 64,4% dos entrevistados consideram fundamental que o Holocausto seja ensinado nas escolas. A valorização é quase unânime; o engajamento real é residual. Para os autores do relatório, é essa lacuna que permite que a comparação entre Israel e o nazismo circule como argumento aceitável em debates políticos e nas diferentes esferas sociais.
Resposta jurídica
Ainda de acordo com a Conib, mais de 45 advogados voluntários dedicaram mais de 2 mil horas ao seu departamento jurídico em 2025.
Desde outubro de 2023, ao menos 60 casos foram noticiados à polícia ou ao Ministério Público. Em média, uma condenação por antissemitismo foi registrada a cada três meses nos últimos dois anos.
O ano de 2025 teve um marco específico: o Supremo Tribunal Federal fixou o entendimento de que não cabe acordo de não persecução penal em casos de racismo contra judeus, em ação que contou com a atuação do time jurídico da Conib.
A decisão encerrou um ciclo de recursos de um advogado condenado por publicar, em suas redes sociais, textos que atribuíam aos judeus a responsabilidade por doenças como a Peste Negra e a Covid-19 e que descreviam o Holocausto como um evento fantasioso.
