MPF apura se houve falha da Unicamp após furto de 24 amostras

Pesquisadores durante trabalho no Instituto de Biologia da UnicampLiana Coll/Unicamp

O Ministério Público Federal (MPF) instaurou um procedimento para apurar se a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) falhou no controle e fiscalização de material biológico sensível, após o furto de vírus de um laboratório NB-3 da instituição. Os suspeitos, a professora Soledad Palameta Miller, da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA), e o marido dela, o veterinário e doutorando Michael Edward Miller, são investigados pela Polícia Federal (PF).

Ao todo, pelo menos 24 cepas diferentes de vírus foram transportadas de um laboratório para outro – incluindo dengue, chikungunya, zika, herpes, Epstein-Barr, coronavírus humano e outros menos conhecidos, além de 13 tipos de vírus que infectam animais. Também havia amostras da gripe tipo A.

O MPF explica que expediu ofício à Unicamp e que o procedimento é destinado à coleta de informações e verificação da existência de elementos que justifiquem uma possível abertura de Inquérito Civil. O caso já é investigado criminalmente, e tramita sob sigilo.

A Unicamp informou em nota que ainda não foi notificada pelo MPF, mas assim que receber a notificação responderá.

As amostras de vírus foram recuperadas em prédios da Unicamp, sem indícios de contaminação externa ou terrorismo biológico.

Como tudo aconteceu?

Cronologia dos fatos:

Em 13 de fevereiro, as amostras do vírus sumiram do laboratório de virologia do Instituto de Biologia da Unicamp.

Em 23 de março, a Unicamp aciona a PF que encontra os materiais em laboratórios da Faculdade de Engenharia de Alimentos, onde Miller atuava. Os laboratórios são fechados para cumprimento de mandados e a pesquisadora é presa.

Em 24 de março, Justiça concede à suspeita o direito de responder em liberdade e menciona que o material biológico é um vírus.

Quem é a pesquisadora?

Soledad Palameta Miller, tem 36 anos e é natural da Argentina, ela coordenava o Laboratório de Virologia e Biotecnologia em Alimentos em linhas de pesquisa orientadas a vigilância epidemiológica e desenvolvimento de diagnósticos e terapias relacionadas aos vírus transmitidos por alimentos e água.

Segundo dados do portal Docente e Pesquisador da Unicamp, a pesquisadora atuou como analista no Laboratório Nacional de Biociências do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) em projetos na área de engenharia de vetores virais, imunomodulação e anticorpos monoclonais dirigidos para terapia de câncer.

Miller realizou pós-doutorado no Laboratório de Virologia da Unicamp em projetos relacionados ao desenvolvimento de vacinas vetorizadas, protótipos de testes rápidos para diagnóstico de doenças aviárias e estabelecimento de modelos alternativos para diagnóstico e produção de vacinas veterinárias.

Como a professora retirou as amostras de outro laboratório?

As investigações apontam que Soledad não possuía laboratório próprio na Faculdade de Engenharia de Alimentos, e também não podia acessar os locais de segurança, então ela usava a sua orientada de mestrado para abrir as portas dos outros laboratórios para ela, inclusive aos finais de semana.

A professora possuía o consentimento prévio de responsáveis para utilizar os freezers de outros laboratórios.

Por que essa conduta foi perigosa?

A movimentação e o armazenamento do material biológico sensível foram feitos em ambientes não controlados, infringindo as normas. Além disso, houve o descartes de material em lixeiras comuns, expondo a saúde de terceiros a perigo direto e iminente, apresentou o documento da Justiça.

O vírus estava em um laboratório de classe de risco 3, que significa que o agente infeccioso apresenta alto risco para o indivíduo e risco moderado para a comunidade. São agentes que podem causar doenças graves ou letais, transmitidos especialmente pelo ar, e podem se espalhar na comunidade, embora existam medidas de prevenção e tratamento.

O Orion, primeiro laboratório do Brasil com nível 4 (máximo) de biossegurança está em construção em Campinas (SP), com previsão de ficar pronto em 2027.

Marido pode estar envolvido

Outro suspeito do crime, é o marido de Soledad, Michael Edward Miller, veterinário e doutorando da universidade. Ele foi visto na faculdade em horário incomuns e em atitudes suspeitas, carregando objetos.

No mesmo período, outra cientista notou que várias amostras haviam sumido. Imagens de câmeras de segurança indicam que o casal frequentava o laboratório desde novembro, inclusive em momentos em que não havia outras pessoas no local.

Michael Miller é investigado pelo furto do material.

Onde as amostras foram encontradas?

A PF encontrou as amostras em três locais diferentes:

– Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA): foram encontradas diversas caixas com amostras dentro de tubetes em um freezer lacrado.

– Laboratório de Doenças Tropicais (Instituto de Biologia): foram localizados tubetes manipulados e abertos no espaço reservado a Soledad dentro do freezer de outra professora. Próximo ao refrigerador, havia material descartado que provavelmente já havia passado por autoclave.

– Laboratório de Cultura de Células (Instituto de Biologia): uma grande quantidade de frascos descartados foi localizada dentro de uma lixeira.

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