Você provavelmente nunca imaginou que uma escalada poderia terminar em uma descoberta paleontológica. Foi o que aconteceu em 2019, quando um grupo de escaladores nas encostas do Monte Cònero, no litoral italiano, deparou com centenas de sulcos gravados em uma laje de rocha, e esses rastros contavam uma história de pânico coletivo ocorrido no fundo do mar há quase 80 milhões de anos, envolvendo tartarugas marinhas em debandada.
Como os escaladores encontraram os rastros das tartarugas marinhas?
O grupo explorava as encostas do Parque Regional do Cònero, às margens do Mar Adriático, na região italiana das Marcas, quando identificou uma grande laje coberta por impressões incomuns. Os sulcos lembravam pegadas de animais em movimento acelerado, e os escaladores os reconheceram porque eram parecidos com outros achados que haviam ganhado manchetes meses antes na mesma reserva: impressões atribuídas a um réptil marinho do Cretáceo.
O escalador e geólogo Paolo Sandroni foi consultado pelo grupo e entrou em contato com Alessandro Montanari, diretor do Observatório Geológico de Coldigioco (OGC). Sandroni voltou ao local com outro integrante da equipe para coletar amostras e documentar o sítio com drone. O estudo resultante foi publicado em novembro de 2025 na revista Cretaceous Research.

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Onde estão localizados os dois sítios de pegadas?
As impressões estão preservadas em uma camada de calcário chamada Scaglia Rossa, uma formação amplamente estudada por registrar milhões de anos de sedimentação em mar profundo. Mais de mil impressões foram identificadas em dois sítios distintos:
- Um sítio situado a mais de 100 metros acima do nível do mar, nas encostas do Cònero
- Outro que desabou na Praia de La Vela, também no parque
A extensão e a variedade dos achados surpreenderam os pesquisadores, que esperavam encontrar vestígios pontuais e se depararam com um painel de comportamento animal registrado em pedra.

O que a camada de rocha acima das pegadas revela?
A datação situa os rastros no Campaniano Inferior do período Cretáceo, entre 83 e 79 milhões de anos atrás, uma fase associada a intensa atividade sísmica e mudanças climáticas globais. A análise da camada imediatamente superior às pegadas foi decisiva para entender o que aconteceu.
Essa camada era uma turbidita: uma avalanche submarina de areia, lama fina e sedimentos que cobriu as pegadas em questão de minutos após serem feitas, selando-as até hoje. Sem essa cobertura rápida, os rastros simplesmente teriam se dissolvido no fundo do oceano ao longo dos milênios.

Por que os autores acreditam que as tartarugas marinhas estavam em pânico?
O padrão das impressões, combinado com o contexto geológico, levou os pesquisadores a uma conclusão específica. Segundo o estudo, as pegadas provavelmente representam uma debandada de tartarugas marinhas em pânico, mobilizadas em massa por um terremoto, com os rastros cobertos em seguida pela avalanche submarina desencadeada pelo mesmo evento sísmico.
Os únicos vertebrados grandes o suficiente para deixar essas marcas no Cretáceo Tardio seriam répteis marinhos. Plesiosauros e mosassauros eram provavelmente solitários; as tartarugas, por outro lado, têm comportamento gregário em certas espécies atuais, reunindo-se para forragear ou desovar. Seja qual fosse o motivo que as reuniu naquele dia, o terremoto as colocou todas em movimento ao mesmo tempo.
Quais são as dúvidas que especialistas levantaram sobre o achado?
Nem todos os especialistas estão convencidos da interpretação. Michael Benton, professor de paleontologia de vertebrados da Universidade de Bristol, no Reino Unido, disse à Live Science que o contexto geológico está bem demonstrado, mas questionou qual animal teria deixado as marcas.
Segundo Benton, as pegadas são incomuns porque parecem mostrar uma propulsão subaquática com os dois membros anteriores entrando no sedimento ao mesmo tempo, enquanto a maioria dos vertebrados tende a mover os membros alternadamente. Ele também questionou por que as tartarugas marinhas simplesmente não teriam nadado para escapar, em vez de continuar se deslocando pelo fundo.

O que esse achado significa para a paleontologia do Cretáceo?
Montanari reconhece que as impressões se beneficiariam de pesquisas adicionais, mas destaca que a evidência geológica de uma avalanche submarina desencadeada por terremoto é sólida. Para a paleontologia, o sítio abre uma janela rara sobre comportamento animal em grupo em ambientes marinhos do Cretáceo.
Registros de comportamento coletivo nesse período são raríssimos no registro fóssil. O que torna esse achado singular não é apenas a quantidade de impressões, mas a possibilidade de estar diante de um momento capturado em frações de minuto: um evento sísmico, uma resposta em grupo, uma avalanche e uma selagem acidental que preservou tudo por quase 80 milhões de anos. Montanari espera que o trabalho incentive especialistas a estudar o sítio com mais profundidade.
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