Com 686 km de labirinto sob os pés: a cidade rural que vive sobre o maior sistema de cavernas do planeta

Com 686 km de labirinto sob os pés: a cidade rural que vive sobre o maior sistema de cavernas do planeta

Em uma colina tranquila do centro-sul do Kentucky, cerca de 2.360 pessoas vivem sobre um abismo. A cidade de Cave City é a porta de entrada do Parque Nacional Mammoth Cave, cujos corredores subterrâneos já passam de 426 milhas mapeadas.

O sistema de cavernas mais extenso que a ciência conhece

O Serviço Nacional de Parques dos Estados Unidos (NPS) confirma que o Mammoth Cave tem 686 km de passagens já exploradas e levantadas por espeleólogos. Esse número faz do sistema mais do que o dobro do segundo colocado, o Sac Actun, no México, com 347 km submersos.

O labirinto se formou há cerca de 330 milhões de anos sob uma capa de arenito que funcionou como telhado protetor. Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), a água da chuva atravessou o calcário Mississippiano e dissolveu a rocha em um processo lento que criou sumidouros, túneis e rios subterrâneos. Os níveis superiores da caverna já estavam formados há 3,2 milhões de anos.

Com 686 km de labirinto sob os pés: a cidade rural que vive sobre o maior sistema de cavernas do planeta
Cave City destaca-se no centro-sul do Kentucky como a cidade rural que serve de porta de entrada para o maior sistema de cavernas do planeta

A conexão que mudou a história da espeleologia

Em 9 de setembro de 1972, seis espeleólogos passaram 14 horas debaixo da terra tentando unir dois sistemas distintos. Quando o líder John Wilcox cruzou o último corredor alagado e avistou uma trilha turística iluminada, soube que tinha chegado à outra ponta.

Antes dessa data, o sistema Flint Ridge liderava o ranking mundial com 139 km. Do outro lado do vale, o Mammoth Cave contava com 93 km. A fusão passou a somar 232 km e colocou o Kentucky definitivamente no topo da lista, segundo registros do NPS. De lá para cá, dezenas de outras cavernas foram conectadas ao complexo.

Com 686 km de labirinto sob os pés: a cidade rural que vive sobre o maior sistema de cavernas do planeta
Cave City une a tranquilidade de seus 2.360 moradores ao prestígio de estar localizada sobre um labirinto subterrâneo de 686 km

Uma cidade que nasceu da ferrovia e cresceu do turismo

Cave City foi planejada em 1854 pela Knob City Land Company, com ruas principais de 24 metros de largura. O primeiro trem da Louisville & Nashville Railroad parou na estação em 1859 e, décadas depois, passageiros desembarcavam ali especificamente para visitar as cavernas. A incorporação oficial da cidade aconteceu em 1866.

Curiosamente, o nome não vem do vizinho Mammoth Cave. A cidade recebeu o apelido por causa de uma caverna menor dentro dos próprios limites urbanos, cujo riacho subterrâneo abastecia de água as locomotivas da ferrovia. Hoje, Cave City fica a apenas 16 km do centro do parque e concentra nove cavernas turísticas com mais de 21 roteiros guiados, segundo o site oficial da prefeitura.

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O que ver acima e abaixo da terra?

O Mammoth Cave National Park oferece tours diários saindo do Visitor Center. Os ingressos costumam esgotar na alta temporada, então vale a pena reservar com antecedência pelo site oficial. Acima da superfície, o parque protege 52.007 acres de florestas, dois rios e dezenas de trilhas.

  • Historic Tour: roteiro clássico de duas horas pelas câmaras mapeadas por Stephen Bishop no século XIX, guia escravizado que desenhou um dos primeiros mapas da caverna.
  • Frozen Niagara: seção decorada com estalactites e formações que lembram uma cascata congelada.
  • Wild Cave Tour: passeio de seis horas por galerias estreitas, lamacentas e sem iluminação instalada.
  • Green River: classificado como Kentucky Wild River pela assembleia estadual, permite canoagem dentro dos limites do parque.
  • Dinosaur World: parque temático a céu aberto em Cave City, com réplicas em tamanho real.
  • Wigwam Village No. 2: motel de 1937 com quartos em formato de tendas indígenas, tombado nos registros históricos do Kentucky.

Quem deseja explorar o maior sistema de cavernas do mundo, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Through My Lens, que conta com mais de 268 mil visualizações, onde Josh e Amy mostram o impressionante tour histórico pelo Mammoth Cave National Park, no Kentucky:

O ecossistema que evoluiu no escuro

Um estudo de 2021 publicado na revista científica Diversity catalogou 49 espécies restritas à vida subterrânea na Mammoth Cave, das quais 7 são endêmicas do sistema. O local é considerado o maior ponto de biodiversidade cavernícola terrestre do planeta.

O camarão cego Palaemonias ganteri, conhecido como Kentucky cave shrimp, só existe ali. É transparente, não tem olhos nem pigmentação, vive de 10 a 15 anos e foi classificado como espécie ameaçada em 1983, segundo dados do NPS. Dois peixes cegos, o Amblyopsis spelaea e o Typhlichthys subterraneus, nadam nos rios escuros que cortam as galerias. Antes da chegada da síndrome do nariz branco, colônias estimadas em 9 a 12 milhões de morcegos habitavam apenas a seção histórica da caverna.

Uma curiosidade reconhecida pela UNESCO

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) inscreveu o Mammoth Cave como Patrimônio Mundial Natural em 1981. O parque virou ainda núcleo de Reserva Internacional da Biosfera em 1990, hoje com 367.993 hectares de área de proteção.

Segundo a própria UNESCO, nenhum outro sistema de cavernas oferece variedade comparável de minerais sulfatados, incluindo flores de gipsita, agulhas delicadas e raras flores de mirabilita. Os guias do parque dizem sempre que a maior parte do labirinto ainda está por descobrir, já que voluntários da Cave Research Foundation seguem adicionando quilômetros a cada expedição.

Suba no trem do Kentucky e desça ao maior labirinto do planeta

Cave City é o tipo de cidadezinha que guarda mundos inteiros embaixo do asfalto. O ritmo lento da vida rural contrasta com a escala colossal do sistema que corre nas entranhas da rocha.

Você precisa descer aos 686 km de corredores do Mammoth Cave e entender por que uma cidade de dois mil habitantes virou endereço obrigatório nos mapas de exploração do planeta.

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