Césio-137: veja cronologia do maior acidente radiológico


Após 30 anos, vítimas do acidente com césio-137 dizem sofrer com a falta de apoio médico
A contaminação do Césio-137, em Goiânia, marcou para sempre a história da cidade e também do Brasil. O caso foi o maior acidente radiológico do mundo, deixando quatro pessoas mortas e mais de mil pessoas afetadas. A tragédia ganhou nova repercussão desde o lançamento de uma minissérie na Netflix, “Emergência Radioativa”.
Para se ter uma ideia do perigo representado por aquela substância azul brilhante, o acidente de 1987 foi classificado pela Comissão Nacional de Energia Nuclear como nível 5 , em uma escala de 1 a 7. Ele só não fez mais vítimas porque houve a atuação de pessoas da população e de especialistas, como o físico Walter Mendes, que se deram conta da gravidade da situação.
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Mesmo contida a contaminação e passadas quase quatro décadas desde que aconteceu, o episódio ficou marcado na memória da sociedade goianiense, ainda que a cidade tenha tentado apagá-la.
Confira abaixo a cronologia do acidente radioativo, de acordo com o livro “Césio 137”, da Secretaria de Estado de Saúde de Goiás:
13 de setembro de 1987
Wagner Mota Pereira e Roberto Santos Alves retiraram um aparelho de radioterapia abandonado das ruínas do IGR, no Setor Central, em um terreno que pertencia à Santa Casa de Misericórdia. O objetivo era vender a peça para um ferro-velho. Por isso, eles removem o lacre da cápsula, na qual estava a substância até então desconhecida.
Equipamento de radiologia onde foi encontrada a cápsula do Césio-137
Divulgação/Cnen
18 de setembro
Nesse dia, Devair Alves Ferreira, dono de um ferro-velho localizado na Rua 26-A, no Setor Aeroporto, comprou a peça e a deixou em seu depósito. À noite, ao passar pelo pátio do local, ele percebeu que a emissão de um brilho azul. Era o pó de Césio-137. Impressionado, ele levou a peça para casa. Nos dias seguintes, a substância brilhante foi distribuída entre amigos e familiares que o visitaram.
O que aconteceu com as vítimas do Césio-137?
Como estão os locais atingidos pelo Césio-137?
28 de setembro
Depois de as pessoas que manipularam a substância começaram a apresentar problemas de saúde, como coceiras, vômitos e diarreia, a esposa de Devair, Maria Gabriela, pegou a cápsula e levou, de ônibus, em uma sacola plástica, à Vigilância Sanitária, também no Setor Aeroporto.
29 de setembro
Nesse dia, o físico Walter Mendes Ferreira foi chamado para analisar a substância desconhecida deixada na Vigilância Sanitária. Com um aparelho de medição de radiações ionizantes, ele identificou o risco e orientou a evacuação imediata. O acidente foi oficialmente reconhecido e notificado à Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), que depois comunicou o caso à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
30 de setembro
Técnicos da Cnen chegaram a Goiânia e, com o auxílio de medidores de radiação, mapearam outros locais contaminados na cidade. Entre eles estava o físico José de Júlio Rozental, que ficou responsável por coordenar as ações de controle e na mitigação das consequências do acidente.
Outubro de 1987
Ao longo de todo o mês de outubro, o Estádio Olímpico, atual Centro de Excelência do Esporte, foi palco de um gigantesco esquema de triagem e monitoramento, pelo qual passaram 112.800 pessoas. Dessas, 249 foram identificadas com contaminação, em menor ou maior nível. No final, 129 necessitaram de acompanhamento médico permanente.
Maria Gabriela, de 35 anos, e Leide das Neves, de 6, morreram vítimas do césio-137, em Goiás
Reprodução/TV Anhanguera
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23 de outubro
Morrem Leide das Neves Ferreira, de 6 anos, e Maria Gabriela Ferreira, sobrinha e esposa de Devair, o dono do ferro-velho. Ivo Alves Ferreira, pai de Leide, foi visitá-lo no dia 24 de setembro e levou fragmentos de césio para a casa da família. A filha pequena foi a mais afetada por ter brincado com o pó e ingerido partículas. Já Maria Gabriela foi a responsável por evitar que a tragédia fosse ainda maior por ter desconfiado de que havia algo errado com a substância.
25 de outubro
Os rejeitos do Césio 137 chegam ao então distrito de Abadia de Goiás, a pouco mais de 20 km da capital, e são armazenados em um depósito provisório, embaixo de um piso de concreto a céu aberto.
27 de outubro
Morre a terceira vítima do acidente, Israel Batista dos Santos, de 20 anos, funcionário de Devair. Ele trabalhou na remoção do chumbo da fonte.
28 de outubro
Admilson Alves de Souza se torna a quarta vítima fatal. Ele também era um funcionário do ferro-velho, que manipulou a fonte radioativa. Ele perdeu a vida com apenas 18 anos. Ele e as outras três vítimas foram enterradas em caixões revestidos de chumbo.
Milhares de pessoas foram avaliadas na época do acidente com césio-137 e 129 apresentaram radiação no corpo Goiânia Goiás
Reprodução/Cara
30 de setembro a 21 de dezembro
Durante todo esse período, foi feito o processo de descontaminação de Goiânia, que envolveu 40 técnicos da Cnen, que trabalhavam em um revezamento de dez técnicos por semana. No total, sete casas foram demolidas e 41 evacuadas, por focos terem sido identificados.
10 de março de 1988
Em uma audiência no Congresso Nacional à Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado Federal, o presidente da CNEN, Rex Nazaré Alves, apresenta o “Relatório do Acidente Radiológico de Goiânia”. O fato é considerado o marco da conclusão da descontaminação da capital.
1989
Fica decidido que o repositório construído em Abadia de Goiás seria o local definitivo dos rejeitos radioativos. E no dia 1º de junho daquele ano, foi criado o Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste (CRCN-CO) para representar regionalmente a Cenen. Somente em 1991 começou a construção do depósito definitivo que abrigaria os rejeitos e do complexo administrativo que sediaria o CRCN-CO.
5 de junho de 1997
Quase uma década após o acidente radiológico, foi inaugurado o Depósito de Rejeitos Radioativos de Abadia de Goiás. O espaço abriga dois depósitos: um com 40% do total de rejeitos, considerada a parcela menos radioativa, e outro nos quais foram abrigados 60% dos rejeitos, considerados efetivamente radioativos. Nesse segundo local estão os restos da fonte principal que originou o acidente de Goiânia.
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