VÍDEO: 2º Sargento se emociona ao se despedir após 34 anos na PM

Sargento Gilmar não sabia que teria despedida gravadaFOTO: Arquivo Pessoal

Ninguém sabe ao certo como dizer adeus. Gilmar Gonçalves, 2º Sargento da Polícia Militar do Paraná em Curitiba, ocasionalmente não precisou refletir muito sobre o ato: encerrou sua carreira de 34 anos e 4 meses realizando o mesmo chamado, por meio do rádio, que realizara diariamente durante todo o período. Desta vez, o gesto foi gravado por companheiros de equipe, e o registro acabou viralizando nas redes sociais.

No vídeo, Gilmar se despede com a voz embargada e bastante emocionado. O registro tornou o momento, que é ao mesmo tempo comum, já que todos se aposentam, mas especial, devido ao peso que tem na vida de cada trabalhador, em uma memória compartilhada entre os colegas e todos que assistiram ao vídeo. Nas redes, moradores de Curitiba agradeceram pelas contribuições durante as três décadas de atuação. Confira o momento no vídeo:

Policial Militar se emociona ao se despedir de colegas após 34 anos de carreira em Curitiba. Gilmar Mendes, agora ex-Sargento, se diz grato e com sensação de dever cumprido. pic.twitter.com/gBVEVYSwK1

— iG (@iG) April 6, 2026

Em conversa com o iG, o agora ex-Sargento Gilmar Gonçalves refletiu sobre os motivos que o levaram a se emocionar com o a despedida e falou sobre o que fica, o que leva consigo e o que quer fazer agora, longe da farda.

Ninguém aprende a dizer adeus

Gilmar conta que acordou tranquilo. Mas a tranquilidade cessou assim que partiu para o trabalho. O ex-Sargento estava pensando muito na despedida durante toda a semana. Já no dia, avaliava a cada hora o que iria acontecer. Ele confidencia que o último turno de serviço efetivo foi especial e que já estava uma semana aguardando o final, bastante emocionado e “sem ter como evitar”.

Para o policial, gratidão é o principal sentimento. Ele conta que o “último chamado” no rádio é um rito opcional quando um policial vai para a reserva. Até pensou em desistir, mas após uma homenagem formal, mudou de ideia em conversa com seus colegas. “No calor do evento e com incentivo dos colegas, fiz a minha última transmissão oficial no rádio da PMPR e foi tudo bem, apesar da voz embargada, o nó na garganta, o coração encharcado de boas memórias e emoção, foi tudo bem, deu tudo certo”, relata. Mas, não sabia que seria gravado.

Gilmar conta que foi tudo muito espontâneo e ficou emocionado com a surpresa. A sensação do inesperado durou mais uns dias, quando soube da repercussão que o vídeo teve, após ser divulgado pelo Governo Estadual do Paraná. Sobre os comentários positivos e as inúmeras mensagens de agradecimento, descreve como “redenção”. Ele conclui:

A partir de agora, o ex-Sargento pretende ter uma vida de “atividades normais” e “nada extraordinárias”: caminhadas e algumas trilhas que pretende fazer com grupos de amigos da farda.

Acaso e tensão constante

Natural de Curitiba, a carreira de Gilmar Gonçalves começou na Polícia Militar por um simples acaso: fez dois concursos públicos em que foi aprovado, mas optou pela polícia pois o curso durava menos tempo e era mais perto de onde residia. A partir de então, quase sempre trabalhou pelo 12º Batalhão, responsável pela área central da capital paranaense. Em sua outra passagem, na 2ª Cia., atuou em bairros próximos, como Mercês, Batel, Bigorrilho e outros.

Ao longo da carreira, atuou majoritariamente entre o Rádio Patrulha, o apoio ao plantão e, nos anos finais, novamente nas ruas. Ele era o policial mais antigo da equipe, tendo papel especial pela experiência, e ajudava a orientar em decisões durante as ocorrências.

No vídeo, Gilmar afirma estar “saindo pela porta da frente”, o que ele define como uma referência aos perigos que o trabalho policial leva a conhecer:

Ele prossegue na reflexão contando sobre os mais marcantes da trajetória. Apesar de sempre precisar estar atento, tanto sobre o ambiente quanto sobre pessoas no local, ou então em detalhes após depoimentos com várias versões de um mesmo tema, o que mais o chocou durante a carreira foram os casos de suicídio. De acordo com Gilmar, sempre havia um motivo diferente, uma carta para alguém, um motivo definido, um recado a ser passado. “São situações e experiências que o policial vai experimentando e aprendendo a lidar no decorrer da sua atividade”, reflete.

O fardo da farda

Para Gilmar, a atuação policial é cercada de julgamentos feitos à distância, o que pode gerar imprecisões. O policial acredita que a sociedade julga com pouca empatia: “as pessoas julgam de fora enquanto o policial tem apenas uma fração de segundo para agir diante de indivíduos de má índole”, desabafa. Ele pontua as principais dificuldades sendo o desgaste físico, mental e emocional que se acumulam tanto com o passar dos anos quanto com escalas longas e desgastantes. Contudo, diz encerrar a carreira com gratidão, especialmente por cada colega que vê desempenhando a função com determinação e compromisso. “Sei que ali está uma pessoa que veio da comunidade, de um lugar aonde pertence e tem parentes e uma família”, conta.  

Ainda, Gilmar descreve a profissão com um sentimento especial, que descreve como algo que começa desde que se ingressa no curso inicial e vai se concretizando a cada etapa nova. “Até você estar definitivamente em uma escala fixa tirando o teu turno de serviço numa viatura policial com o seu parceiro (…), é uma profissão realmente diferente das outras e extremamente necessária”. Ele conclui a reflexão sobre seus 34 anos de colaboração dizendo que valeu a pena.

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