
ONG escala voluntários como acompanhantes de pacientes internados em unidades de Saúde
🏥 Os sons de aparelhos, longos corredores, cômodos com móveis e paredes de cores frias, cheiro de remédio e uma constante tensão fazem parte da experiência de estar no hospital. Para alguns, este momento pode ser desconfortável e, até mesmo, solitário.
Foi pensando nisso que uma ONG de Itu (SP) decidiu mudar esta realidade oferecendo muito mais do que apenas companhia, mas também alegria para pacientes internados. Criada em 2019, a organização sem fins lucrativos Bom Samaritano escala voluntários como acompanhantes de pacientes onde o dever chamar, seja em unidades de saúde pública ou particular.
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Atualmente, a ONG conta com mais de 100 voluntários, que participam de diferentes projetos, mas todos possuem um objetivo em comum: prestar assistência humanitária a pessoas internadas e suas famílias.
Os atendimentos vão desde fazer uma criança rir ao vir um palhaço perambulando pelo hospital até emocionar um paciente que crê em Deus e recebeu uma oração para sua melhora.
A entidade foi criada depois que a família do fundador, Antonio André, de 59 anos, precisou enfrentar um momento difícil durante a internação do cunhado, Gerson Newton. Ao g1, André contou que precisou abdicar de atividades do seu dia a dia para ficar com o familiar no hospital.
“Ele [cunhado] ficou internado quase dois meses. A gente teve todo esse trabalho de acompanhante. Meu cunhado teve um problema no coração, uma válvula que chegou a desprender e, aí, teve outras complicações. Além de mim, a esposa e os filhos se revezavam. Daí eu comecei a pedir escala, dividi com algumas pessoas que pudessem ajudar, e nasceu a ideia do projeto”, relembra.
ONG Bom Samaritano, de Itu (SP), escala voluntários como acompanhantes de pacientes
ONG Bom Samaritano/Divulgação
O cunhado de André morreu pouco tempo depois. Apesar da perda, o familiar deixou um legado importante de solidariedade, que já mudou e pode mudar ainda mais as vidas das pessoas.
O auxílio é programado especificamente para pacientes que não possuem acompanhantes para ficar no hospital, seja porque o parente trabalha e não pode se ausentar das atribuições diárias ou quando não há parentes disponíveis ou que queiram ficar na unidade como acompanhantes.
A ONG é mantida apenas com doações, campanhas e bazares, e possui sede na Vila Padre Bento. Desde sua criação, os Bons Samaritanos já atenderam pessoas internadas em hospitais, clínicas e asilos de Itu e cidades vizinhas, incluindo Sorocaba (SP), mas planejam expandir o projeto para outras partes do estado.
Voluntários da ONG Bom Samaritano, de Itu (SP), também fazem visitas a hospitais vestidos de palhaços
ONG Bom Samaritano/Divulgação
😷 Atendimento na pandemia
Enfrentando os riscos de contaminação, os serviços de acompanhamento da ONG continuaram mesmo durante a pandemia, permitindo que os voluntários conhecessem histórias de diversas pessoas e segurassem as mãos de pacientes que lutaram por suas vidas até o fim.
Um exemplo foi Maria Virginia dos Santos, que ficou internada por 89 dias com Covid-19 e foi acompanhada por uma equipe de voluntários da Bom Samaritano. Assista a um vídeo com o depoimento da paciente no início da reportagem.
Paciente Maria Virginia dos Santos, de Itu (SP), foi acompanhada por voluntários da ONG Bom Samaritano
ONG Bom Samaritano/Divulgação
Durante a despedida, Maria Virginia convida todos para um almoço e pontua: “Vocês chegaram no momento certo, eu só tenho a agradecer”.
Apesar de ter recebido alta em abril de 2020, Maria teve complicações e morreu meses depois, em novembro daquele ano. Segundo André, a história dela é lembrada desde então e serve de exemplo para motivar o trabalho dos voluntários e inspirar o serviço humanitário pela região.
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“Marcou muito a nossa vida, sabe? A gente se desdobrou para ajudar naquele período perigoso da pandemia. Mas, graças a Deus, a gente conseguiu atendê-la até a alta. Nos reunimos em um grupo e, quando ela saiu de alta com o marido, com a mãe, a gente estava lá fora. Recepcionamos ela, foi muito legal”, conta.
“Eu fico com a sensação de dever cumprido, mas sempre querendo fazer mais. O maior sentimento é amor mesmo. Graças a Deus que existem pessoas que, como eu, também se sentem assim. Sempre que vem um novo voluntário aqui, eu falo: ‘Você consegue amar o próximo?’. Porque eu preciso de pessoas que amem verdadeiramente. A gente ouve muitas notícias ruins, mas existem pessoas do bem e que querem fazer o bem”, acrescentou.
Voluntários da ONG Bom Samaritano e Maria Virginia duranta alta hospitalar, em abril de 2020
ONG Bom Samaritano/Divulgação
🩺 Olhar clínico
A psicóloga clínica e hospitalar Vanessa Scalise, de 45 anos, é voluntária da ONG e faz parte do projeto de escuta emocional para pacientes e sua famílias. Além deste serviço, ela também faz visitas a hospitais com uma fantasia de palhaça.
Ao g1, a psicóloga falou sobre a importância do acompanhante para pacientes internados, que, muitas vezes, podem estar lutando pela vida ou para se adaptar a uma nova rotina e podem se sentir desmotivados e solitários neste processo.
“Quando as pessoas estão internadas, elas perdem autonomia, perdem independência. Na verdade, elas perdem toda uma rotina. Esse acolhimento emocional é você entregar para o paciente um pouco da própria humanidade. Oferecer para ele um sentido: ‘Eu sou um todo e, não, uma doença’. A importância da acompanhante ali é trazer isso.”
Vanessa e Antônio André, da ONG Bom Samaritano, de Itu (SP)
Arquivo pessoal
O psicológico dos pacientes, segundo Vanessa, pode ser afetado conforme seus diagnósticos e tratamentos. As pessoas podem ter perdido um membro do corpo, podem precisar usar cadeiras de rodas ou, até mesmo, compreender a necessidade de iniciar tratamento paliativo. É neste momento que sua função como psicóloga emocional torna-se ainda mais importante – além, claro, da companhia.
“O paciente entende que esse acompanhante pode ser a sua voz, suas pernas. Você acolhe os sentimentos, as emoções, os pensamentos além da doença. Você dá espaço para que esse paciente possa verbalizar aquilo que ele está sentindo, aquilo que não é físico, que não é visível”, destaca.
❤️🩹 ‘Pessoas preocupadas em promover o bem-estar’
A técnica de enfermagem Maria Camila de Paulo, de 66 anos, precisou da ajuda da ONG durante a internação de sua mãe, Therezinha de Jesus Ortiz de Paulo, de 86 anos. Segundo ela, o trabalho dos voluntários foi essencial para que a mãe estivesse alimentada durante os dias que passou no hospital.
Therezinha usa uma bolsa de colostomia e tem dificuldade para se movimentar e se alimentar.
“Esse projeto é uma coisa de outro mundo, porque são pessoas preocupadas em promover o bem-estar, sabe? Para pessoas que estão em desespero. É tanta razão para a gente ter problemas que nos cause um baixo astral. Então eles estão lá”, elogiou.
Maria e a mãe Therezinha durante internação em Itu (SP)
Arquivo pessoal
Devido às demandas do trabalho, Maria não poderia ficar acompanhando a internação da mãe durante todo o tempo necessário, por isso precisou de ajuda.
“A gente vive uma situação econômica na qual não tem condições de pagar uma pessoa para ficar lá, e esse projeto foi me apresentado em uma dessas ocasiões. O apoio é de que a pessoa ofereça as refeições, o café, o almoço. Eu chegava lá no hospital à tarde para ver minha mãe depois do serviço e minha mãe já estava alimentada. A pessoa estava ali, com a minha mãe, esperando para poder sair, e eu tinha uma paz no meu coração com isso”, pontuou.
Therezinha de Paulo foi acompanhada por voluntários da ONG Bom Samaritano enquanto ficou internada, em Itu (SP)
Arquivo pessoal
🤡 Outros projetos
Além do projeto de acompanhamento no leito médico e a escuta humanizada, assim como o médico norte-americano Patch Adams, conhecido por seus métodos lúdicos de tratar os pacientes, alguns voluntários usam peruca e nariz de palhaço para visitar os hospitais.
Essas visitas, que normalmente são feitas toda semana na Santa Casa de Itu, são populares entre os pacientes, principalmente crianças, que se divertem com as brincadeiras dos palhaços.
Para fiéis, o projeto de acolhimento evangélico também é importante, pois voluntários que fazem parte da comunidade religiosa fazem visitas com orações especialmente preparadas para cada paciente.
Os interessados nos serviços da ONG podem entrar em contato diretamente pelo telefone (11) 99918-2127 e a equipe responsável pela demanda vai verificar a disponibilidade dos voluntários e agendar as visitas.
ONG Bom Samaritano, de Itu (SP), faz agendamentos por WhatsApp
ONG Bom Samaritano/Divulgação
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